31.8.09

Fim de Férias



As mulheres no frágil fim de Agosto
e o amor que há-de chegar
ou não chegou ou partiu,
e todavia os seios
que se soltam em blusas leves,
estremecendo,
guardados por botões pequenos e tão frágeis.

A pele branca
onde o sol não tocou,
os mamilos mais cor-de-rosa
e os cabelos da púbis
ainda com o sal do mar,
um triângulo isósceles,
esguio e depilado.

Os biquínis que secam
para as próximas ondas, não se imagina quando
e se estarão na moda ainda.

Os miúdos que não querem largar
os baldes onde cabe o mar inteiro
e que, adultos, talvez saibam um dia
que o mar não cabe nos seus olhos.

As barracas e guarda-sóis
arrumados para o ano, em armazéns
construídos em tábuas de pinho como antes,
e num deles alguém a imaginar-se
sob lençóis, ouvindo as vagas
em noites invernais
e adormecendo em paz,
como se o mar tivesse os dons
de uma canção materna.

Os areais desertos de onde o vento leva
os gemidos nocturnos
de amantes que não têm quarto.

E de manhã o vento que prossegue
com as gaivotas
a limpeza das praias dedicadas no Inverno
ao fundo do olhar, onde seres solitários
talvez anseiem outra vida.

As cadeiras e mesas empilhadas
nos bares sem ninguém,
cuidadamente limpos de conversas
por esse vento que é o tempo,
e onde inimagináveis coisas se passaram
e outras que são vulgares,
como fumar um charro dividido
à sombra dos bares no areal.

Os filhos que se fazem
a aleatórias virgens descuidadas,
porque no verão nada conta, salvo
oferecer o corpo ao sol
e deixá-lo ir
na cristalina luz das gargalhadas.

E esse riso que acorda nos rapazes
uma vontade urgente de o rasgar,
vontade quantas vezes flagelada
em sanitas de praia,
as paredes com números escritos de
telemóveis que chamam mulheres e casais,
ou homens, outros homens.

Os amigos que se fazem para as férias,
e ainda assim os dizem
se o tempo não chegou
sequer para se terem conhecido,
e por isso não há nenhum problema
em que desapareçam para sempre
nas ruas e cidades e países estranhos.

Amigos que se lembram duas ou três vezes,
confessando de longe em longe
apócrifas saudades
de um tal Francesco ou Eloisa,
como se os conhecessem
de um bar habitual ou discoteca
da Via Tiburtina, algures em Pescara,
e cada um fosse a casa do outro,
ano sim, ano não, em alternadas camas,
voando sobre a Europa voos imaginários.

Alguém que lembra os náufragos
de quando não havia praia,
somente o mês de Agosto à beira-mar
e nas serras e campos para leste,
e, pensando o passado, mede
a abóbada do céu, e o mar, e a História.

Os pescadores que morrem
em barcos que deixaram de existir,
e olham iates brancos e velozes
a atracar em marinas,
quem sabe se sonhando com um deles.

O espanto das miúdas
que não vêem ainda que tudo termina
e que na sua angústia breve
hão-de lembrar com pena o fim de Agosto,
se a sua pele dourada cor de pão
der mais nas vistas que um vestido
que o vento abraça e quer tirar.

As auto-estradas cheias de cansaço
e de filas de carros,
tão pacientemente regressando
a este velha cidade onde não se ouve o mar.

A tensão dos motores que enche as ruas,
e as folhas dos carvalhos a receber o Outono
para serem o tempo
único de centenas de anos em seus troncos
nos parques públicos.

A sé que avulta sobre o casario velho,
com os seus bispos mortos,
e as casas que esperavam há um mês.

E longe o mar que irá tornando agrestes
os areais, alçando as ondas
antes de o Inverno encher de frio
os passeios e as casas devolutas.

Nuno Dempster, in Caminhos Sobrepostos, Dispersão - Poesia Reunida.
 
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