2.9.09

Os Quatro Pecadores


















Era uma vez uma aldeia que tinha uma praça que tinha uma igreja que tinha um códice, um velho calhamaço com os dogmas, os pecados veniais e os pecados mortais, mas naquele dia não havia inferno que contivesse três galfarros e uma raparigaça: eram as festas de ano a Nossa Senhora do Ó, e o vinho e a alegria corriam à solta. No meio da praça ainda vazia, os galfarros diziam graçolas e competiam entre si pela moçoila, que lhes dava trela e ria, e, quanto mais ria, mais os galfarros se engalfinhavam e falavam alto, ostentando todos eles o desejo obsceno de atentarem contra o 4.º mandamento, esparramado no códice para boa ordem da humanidade — bastardos ad libitum seriam um problema social: as terras da aldeia eram as indispensáveis para dar de comer, e mal, à gente miserável de legítimo nascimento, daí a padroeira da aldeia ser Nossa Senhora do Ó, a que vela os partos abençoados pelo casamento.

E assim estiveram os quatro por coisa de meia hora na algazarra, sem que a moçoila escolhesse nenhum deles, até que do portal da igreja surgiu uma figura encapuçada, de hábito negro, empunhando ao alto uma cruz. Se alguém ali soubesse da purificação de judeus, luteranos, bruxas e outros hereges, ocorrida há muito no reino, se alguém o soubesse diria que era o inquisidor-mor em pessoa, mas para os quatro veio a sê-lo à mesma: tornaram-se logo estátuas de gelo, quando o vulto exclamou, tonitruante:

Vade retro, Satanás, aqui não pecarás!

Os olhos coruscantes do que parecia um avantesma vigiavam a praça, enquanto as estátuas derretiam ao sol, até desaparecerem e a ameaça ao códice não ser mais do que a água suja das suas antigas almas.

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