6.1.13

A Auréloa



Não há muito, o tempo tornou-se por instantes uma abstracção convulsa, recuou, o vento adquiriu um uivo neo-gótico e um apagão geral submergiu em trevas metade do planeta. O asfalto das avenidas regrediu para o antigo alcatrão, e este, para o macadame, e, como chovia sem cessar, as avenidas eram de lama. Estavam criadas as circunstâncias que, sem espanto, permitiram o regresso fantástico do poeta. Vinha pedir contas de uma publicação. Que vou fazer agora da minha auréola, perguntava-se. Só há uma saída, pensou, obrigar que ela de facto me caia na lama. E, mal o fez, ouviu-se um grande lamento. A soma das auras ― a grande aurora ― tinha-se apagado de verdade, mergulhando as cidades do século XXI em escuridão.

Nuno Dempster
 
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