24.6.08

É claro que as mulheres exercitam
o seu poder oculto
naqueles que se entregam para sempre
à sua protecção materna
depois de o amor ter ambos serenado.
“Não há nada mais belo”, ouço dizer,
“do que um casal assim, a passear
nas veredas de um shopping.
A história das colmeias, a rainha
e os zângãos sem mais préstimo, digo eu,

e penso na excepção:
uma mulher e um homem
à beira-mar, unidos pela música.


© nd

27.2.08

Fernando Pessoa

Quantos papéis voaram da arca
para o céu destes dias, ele morto
e apagados os trilhos de Lisboa.
Não sei se alguém
lhe sente ainda os passos,
dos velhos escritórios
ao delitro e aos poemas
no fim do dia
ou na falta que o vinho lhe fazia.
Um homem de bigode antigo e magro,
com óculos redondos
e elegante de mais na pose,
é útil não somente a Almada.
Suponho que o imagine desse modo
quem o não sinta
uma voz em excesso na cidade,
a multidão que ele nunca foi
e o estilhaçou em vários,
e destes um,
o ortónimo sem vida diferente
do Esteves do poema.
"Os génios não têm biografia",
a não ser umas quantas fotos
que dizem vagamente nada,
já a mão breve
vai dispensando os versos
que eram seus para serem só
de livros em estantes abstractas.


© nd

10.2.08

A poesia na era dos replicants

Há algum tempo que venho pensando na importância social contemporânea da poesia, e agora que me sinto desapegado do seu halo exterior, que só na juventude me ofuscou, mais fácil me é falar dela sem aparentar queixumes contra o mundo que não sabe aplaudir, queixumes frequentes, a maioria das vezes porque se é jovem ou porque não se tem valor que o mereça e se exige para si próprio, mais raras vezes por falta de sorte ou recusa do sentido de oportunidade, e muitíssimo mais raras ainda por se escrever à frente do seu tempo.

Se da mediocridade ao talento vai uma distância grande; se do talento à genialidade vai uma distância maior; se a importância social da poesia é cada vez mais invisível na sociedade neoliberal, podemos medir o esbracejar de aspirantes a esta arte com alguma distância sincera e olhá-los como uma espécie de acrobatas num aquário redondo, tão mais circences quanto mais exigem aplausos dos outros, não interessa a qualidade de quem chegam.

Não falo da juventude contemporânea que emerge e em que descobrimos valor e para a qual, por isso mesmo, não há reconhecimento e apoio. Embora hoje a poesia não dê de comer a quem a escreve, é preciso à mesma ter-se patronos. Não se comem migalhas da mesa feudal, mas come-se o que há de um feudo sem terra nem água: devora-se, sem modos, um brilho social que não existe senão na cabeça dos comensais da parquíssima mesa. E se a juventude com talento não aceita esse caminho e inicia o seu próprio – que não é mais que isso mesmo -, a outra toda irá envelhecendo sem amargura e sem dar conta da indiferença e da estranheza que a sociedade lhe dedica. E é ver-se, ao lado dela, gente de gerações anteriores esticar igualmente a mão. Como se alguém na mesa a visse e fosse aceitar essa concupiscência absurda.

A poesia, que esta falta de lucidez não demove do seu caminho (mas encurta-o), será cada vez mais uma excrescência no meio do cálculo dos computadores e um bem, às vezes amargo, para os que, com ela, têm necessidade honesta de testemunhar-se a si mesmos no seu tempo. E é por seres humanos assim que a poesia sobrevive, escrita, desde Gilgamesh e, cantada, de muito antes. Amada hoje por uma minoria relativa talvez mais estreita, mas sempre tenaz, sobreviverá na ditadura dos números como uma actividade inútil de seres cada vez mais esquisitos. Basta pensarmos nos (des)caminhos da Cultura no seio do Ensino e na evolução da economia neoliberal feroz, que aquele serve como uma fábrica de
replicants.

13.1.08

So What


Miles Davis e John Coltrane ao vivo, 1958.


The one and only Erroll Garner (1921 - 1977), appearing on 2 consecutive airings of the legendary BBC TV programme Jazz 625 circa 1964 accompanied by Eddie Calhoun on bass and Kelly Martin on drums.

8.1.08

Um soneto de Louise Labé (Lyon, 1525-1566)

Retrato de Louise Labé. Água tinta de Guidu Antonietti di Cinarca (a partir de uma gravura de Pierre Woeiriot, 1555, nota minha.)


Ó belos olhos, ó cílios descidos,
ó suspiros, ó lágrimas choradas,
ó negras noites em vão tão esperadas,
ó dias vãos em vão tão repetidos!

Ó tristes prantos, ó tempos perdidos,
ó desejos, ó penas sufocadas,
ó mil mortes em redes enlaçadas,
ó males pra meu mal acontecidos!

Ó riso, ó fronte, ó braços, mãos e dedos!
ó alaúde, ó viola dos enredos:
archotes sois para uma fêmea a arder!

De ti me queixo, que tais fogos tendo,
só a mim afinal deixas ardendo,
sem faúlha nenhuma te atingir!

in Imagens da Poesia Europeia - II (Roteiro dos programas de televisão da autoria de David Mourão-Ferreira), tradução do mesmo, edição da Fundação Calouste Gulbenkian, pág. 60.






6.1.08

A Poesia Não Há-de Morrer

Pêndulo – poesia – é o primeiro livro de Paulo Tavares (n. 1977), um poeta que já tinha surgido na blogosfera e nela se mantém. Pensei em analisar a estreia de Paulo Tavares em livro, como indicador do que poderá vir a ser a sua futura obra poética. Isto porque, felizmente, a organização do livro não obedece às normas quase programáticas de abordar um só tema, que vi em alguns livros de poetas da sua geração ou vizinhos dela. Paulo Tavares não seguiu esse caminho, e colher-se-ão as razões disso no antepenúltimo poema de Pêndulo, O Palco dos Dez Mil Poetas, que poderia ser o primeiro, o que, convenhamos, daria um tom provocatório que o livro não tem, nem o poema, afinal, se atentarmos no seu remate, um acto de esperança: “[(...)e se no final formos vencidos pela vida / pois que cantemos a saudade ou rebentemos os miolos / para outros mais jovens nos tomarem o lugar]”. Continua aqui.

2.12.07

Humanos

Cromeleque dos Almendres, Évora. Fotografia do IPPAR.
Vão retirando desordenadamente, muito velhos, gelados, de granito e neve.

13.11.07

Anotações #2

O divino é criado em virtude de algo que desconhecemos e receamos. Para T. seria muito confuso imaginar o Big Bang e a longa arrumação do Caos como a nossa origem. Julgo, pensou, que T. ficaria bastante em baixo se eu o convencesse de que éramos todos filhos do acaso, desde os humanóides que os antropologistas dão como nossos antepassados, não sei se para sossego de todos, se pela visão mais imediata da ciência. Na verdade, a origem remete-nos para a primeira célula que ninguém sabe como surgiu, embora não seja desagradável pensar que o meu antepassado foi o Sol, a sua acção. Isso causa-me mesmo conforto, concluiu. Eu vim da luz, sou luz e amo a luz do Sol como coisa física. T. também ficará contente com uma luminosa manhã de Junho, mas não deduz dela o seu princípio. Ficaria horrorizado. E, no entanto, pensou, estamos muitíssimo mais perto dessa luz que nos explica do que da visão teológica de T.

© nd

8.11.07

Anotações #1

Talvez o segredo seja a inanição total, despedido de afectos e de preocupações, pensou. Os dias tornam-se tão repetidos que sair dessa inanição é não sair dela, e assim o segredo deixa de o ser e passa a estado imanente. Parece haver uma altura na vida em que se perde o direito a si próprio. Talvez esta usurpação tenha a ver com a morte, concluiu, talvez a inanição esteja muito próxima da morte.

Sei de alguém que atropelou um arrumador de carros para sair do mundo, continuou. Queria ser preso e foi dado como inimputável. Pouco depois suicidar-se-ia.

O cárcere e a inanição são em tudo semelhantes a um suicídio frustrado, por o desespero não ter sido suficientemente fundo. Esse grau de insuficiência, que impede o suicídio de facto, está ligado, como o medo, a alguma esperança remanescente. O que atropelara o arrumador não só vencera o medo, como não devia ter esperança nenhuma.

© nd
 
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