5.7.08

Empadas romanas do tempo de o Pacífico



Faça-se um pastelão de meio alqueire de farinha amassada em água e sal, cobrindo-o por cima como empada; como estiver feita, assopre-se por uma buraquinho, para que fique bem cheia de vento; depois de muito bem cozida, abram-lhe no fundo um buraco redondo, por onde lhe metam duas ou três dúzias de pássaros vivos, e tapando com a mesma massa, mande-se à mesa. Também se faz de pombos ou coelhos vivos.

Em Arte de Cozinha, de Domingos Rodrigues, Imprensa Nacional, 1987.
Nota: Domingos Rodrigues foi mestre de cozinha da Casa Real, no reinado de Pedro II, o Pacífico (1683-1709).

3.7.08

Ugetsu Monogatari (Contos da Lua Vaga) , 1954, Mizoguchi .


Ninguém me perguntou quais são os meus filmes preferidos, uma pergunta de inquéritos juvenis. Lê-se em muitas entrevistas de adultos, quando o entrevistador não tem nada para perguntar. Mesmo assim, irei respondendo. Sem nenhuma ordem.

2.7.08

O engenheiro


Era o que nos faltava para irmos “cantando e rindo” pelo cano abaixo. O inominável kitsch. A desmesura de quem chega de engenheiro técnico, com a assinatura de construções menos que chapa 7, a primeiro-ministro de um país de opereta.

e os doutores











Para retorquir ao Dr. Vital Moreira, que aqui e no Público virou economista de serviço, a Dr.ª Manuela Ferreira Leite podia muito bem mandar avançar a Dr.ª Zita Seabra. Talvez os dois se engalfinhassem por razões conhecidas de todos.

27.6.08

Um poema de Adair Carvalhais Júnior

O poeta brasileiro meu preferido na sua geração, nascido no princípio dos anos 60. Pouco se fala dele. Talvez por a sua poesia ser invulgar e tão contemporânea, fora dos tiques e dos toques que é costume e fora também do eixo S. Paulo-Rio. Lá como cá.

Disse-lhe um dia que a poesia dele tinha muito da música erudita do nosso tempo, pelo carácter muitas vezes atonal, que a dureza do seu ritmo poético tão próprio reitera . Aqui o deixo e também aqui.

26.6.08

Um elixir de longa vida?


Este blogue nunca conheceu o trânsito dos quatro anteriores que tive. Se os cães envelhecem sete anos por apenas um do homo sapiens, os bloguistas envelhecem aí uns quarenta, de modo que, ao fim de seis anos na blogosfera, me tornei numa espécie de fóssil, e os fósseis da blogo, como dizem nuestros vicinos, acabam por ser vítimas da sua própria condição.

Daí até o contador registar só uma visita diária nos últimos meses foi um saltinho lógico e um recorde imbatível, porque o contador também me regista a mim. No entanto, um blogue não é um armazém de palavras, que foi o que me apeteceu fazer deste até ontem, até aos meus duzentos e quarenta anos que tinha ontem.

Veremos se o meu elixir funciona: um blogue vive para os outros e para o dono dele nos dos outros, não interessam aqui números e qualidades. Cada um come do que gosta e quanto lhe apetece, segundo o tempo e o tipo de exigências, não pensando eu nas impossibilidades de toda a ordem que nos assaltam hoje, mais as que a previsibilidade aponta para amanhã.

24.6.08

É claro que as mulheres exercitam
o seu poder oculto
naqueles que se entregam para sempre
à sua protecção materna
depois de o amor ter ambos serenado.
“Não há nada mais belo”, ouço dizer,
“do que um casal assim, a passear
nas veredas de um shopping.
A história das colmeias, a rainha
e os zângãos sem mais préstimo, digo eu,

e penso na excepção:
uma mulher e um homem
à beira-mar, unidos pela música.


© nd

27.2.08

Fernando Pessoa

Quantos papéis voaram da arca
para o céu destes dias, ele morto
e apagados os trilhos de Lisboa.
Não sei se alguém
lhe sente ainda os passos,
dos velhos escritórios
ao delitro e aos poemas
no fim do dia
ou na falta que o vinho lhe fazia.
Um homem de bigode antigo e magro,
com óculos redondos
e elegante de mais na pose,
é útil não somente a Almada.
Suponho que o imagine desse modo
quem o não sinta
uma voz em excesso na cidade,
a multidão que ele nunca foi
e o estilhaçou em vários,
e destes um,
o ortónimo sem vida diferente
do Esteves do poema.
"Os génios não têm biografia",
a não ser umas quantas fotos
que dizem vagamente nada,
já a mão breve
vai dispensando os versos
que eram seus para serem só
de livros em estantes abstractas.


© nd

10.2.08

A poesia na era dos replicants

Há algum tempo que venho pensando na importância social contemporânea da poesia, e agora que me sinto desapegado do seu halo exterior, que só na juventude me ofuscou, mais fácil me é falar dela sem aparentar queixumes contra o mundo que não sabe aplaudir, queixumes frequentes, a maioria das vezes porque se é jovem ou porque não se tem valor que o mereça e se exige para si próprio, mais raras vezes por falta de sorte ou recusa do sentido de oportunidade, e muitíssimo mais raras ainda por se escrever à frente do seu tempo.

Se da mediocridade ao talento vai uma distância grande; se do talento à genialidade vai uma distância maior; se a importância social da poesia é cada vez mais invisível na sociedade neoliberal, podemos medir o esbracejar de aspirantes a esta arte com alguma distância sincera e olhá-los como uma espécie de acrobatas num aquário redondo, tão mais circences quanto mais exigem aplausos dos outros, não interessa a qualidade de quem chegam.

Não falo da juventude contemporânea que emerge e em que descobrimos valor e para a qual, por isso mesmo, não há reconhecimento e apoio. Embora hoje a poesia não dê de comer a quem a escreve, é preciso à mesma ter-se patronos. Não se comem migalhas da mesa feudal, mas come-se o que há de um feudo sem terra nem água: devora-se, sem modos, um brilho social que não existe senão na cabeça dos comensais da parquíssima mesa. E se a juventude com talento não aceita esse caminho e inicia o seu próprio – que não é mais que isso mesmo -, a outra toda irá envelhecendo sem amargura e sem dar conta da indiferença e da estranheza que a sociedade lhe dedica. E é ver-se, ao lado dela, gente de gerações anteriores esticar igualmente a mão. Como se alguém na mesa a visse e fosse aceitar essa concupiscência absurda.

A poesia, que esta falta de lucidez não demove do seu caminho (mas encurta-o), será cada vez mais uma excrescência no meio do cálculo dos computadores e um bem, às vezes amargo, para os que, com ela, têm necessidade honesta de testemunhar-se a si mesmos no seu tempo. E é por seres humanos assim que a poesia sobrevive, escrita, desde Gilgamesh e, cantada, de muito antes. Amada hoje por uma minoria relativa talvez mais estreita, mas sempre tenaz, sobreviverá na ditadura dos números como uma actividade inútil de seres cada vez mais esquisitos. Basta pensarmos nos (des)caminhos da Cultura no seio do Ensino e na evolução da economia neoliberal feroz, que aquele serve como uma fábrica de
replicants.

13.1.08

So What


Miles Davis e John Coltrane ao vivo, 1958.


The one and only Erroll Garner (1921 - 1977), appearing on 2 consecutive airings of the legendary BBC TV programme Jazz 625 circa 1964 accompanied by Eddie Calhoun on bass and Kelly Martin on drums.

8.1.08

Um soneto de Louise Labé (Lyon, 1525-1566)

Retrato de Louise Labé. Água tinta de Guidu Antonietti di Cinarca (a partir de uma gravura de Pierre Woeiriot, 1555, nota minha.)


Ó belos olhos, ó cílios descidos,
ó suspiros, ó lágrimas choradas,
ó negras noites em vão tão esperadas,
ó dias vãos em vão tão repetidos!

Ó tristes prantos, ó tempos perdidos,
ó desejos, ó penas sufocadas,
ó mil mortes em redes enlaçadas,
ó males pra meu mal acontecidos!

Ó riso, ó fronte, ó braços, mãos e dedos!
ó alaúde, ó viola dos enredos:
archotes sois para uma fêmea a arder!

De ti me queixo, que tais fogos tendo,
só a mim afinal deixas ardendo,
sem faúlha nenhuma te atingir!

in Imagens da Poesia Europeia - II (Roteiro dos programas de televisão da autoria de David Mourão-Ferreira), tradução do mesmo, edição da Fundação Calouste Gulbenkian, pág. 60.






6.1.08

A Poesia Não Há-de Morrer

Pêndulo – poesia – é o primeiro livro de Paulo Tavares (n. 1977), um poeta que já tinha surgido na blogosfera e nela se mantém. Pensei em analisar a estreia de Paulo Tavares em livro, como indicador do que poderá vir a ser a sua futura obra poética. Isto porque, felizmente, a organização do livro não obedece às normas quase programáticas de abordar um só tema, que vi em alguns livros de poetas da sua geração ou vizinhos dela. Paulo Tavares não seguiu esse caminho, e colher-se-ão as razões disso no antepenúltimo poema de Pêndulo, O Palco dos Dez Mil Poetas, que poderia ser o primeiro, o que, convenhamos, daria um tom provocatório que o livro não tem, nem o poema, afinal, se atentarmos no seu remate, um acto de esperança: “[(...)e se no final formos vencidos pela vida / pois que cantemos a saudade ou rebentemos os miolos / para outros mais jovens nos tomarem o lugar]”. Continua aqui.
 
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