13.7.08

Compras



Quando acabarei de ler as cerca de 3.700 páginas destes livros? Hoje comprei o de Ariosto, que saiu no ano passado, pela Cavalo de Ferro. Na Feira do Livro deste ano (Lisboa), comprei os outros abaixo, que andava a namorar há muito. Pediam-me antes 150 euros pelos cinco volumes. Custaram-me 94. E havia aqui quem os vendesse a 25 euros. Pergunto-me se os compraria. Não, não comprava. E não sou lorpa. Se os comprasse, acho que era eu que me vendia.

Post scriptum do post: a raposa de Esopo não anda por estes lados.





11.7.08

"Uma Canção de Camões"



Disseram-me um dia que escrever a canção X devia ter sido de arrancar a pele.

Em Luís de Camões, 10 Canções Ditas por Luís Miguel Cintra

10.7.08

As Sete Partidas Lusitanas

Estou a pensar como poderei ler em diagonal as novéis Sete Partidas de Manuel Alegre, sem despender um cêntimo. Talvez vá à FNAC e me sente a folhear o poema de onze poemas. Não me passaria tal coisa pela cabeça, se não suspeitasse de que o infante D. Pedro pode ser, para Manuel Alegre, o que Virgilio foi para Dante. Nem menos, depois de ter medido e medir Camões e Pessoa. Ver aqui a amável recensão que Y. K. Centeno fez do livro. E ler os versos que lá estão, alguns deles heróicos, no sentido métrico e no sentido epopeico, e doutos. O certo é que ninguém pode exigir lucidez a ninguém. Cada um tem de se bastar com a sua (se a tiver).

FÉRIAS AO VENTO
















Nos flancos dos outeiros da aldeia acampavam extensões carregadas de mimosas. Na época das colheitas acontece que, longe da própria morada, se dê o encontro extremamente odorífero de uma rapariga cujos braços, durante o dia, estiveram ocupados com os frágeis ramos. Tal como uma lâmpada cuja auréola fosse feita de perfume, ela afasta-se, de costas voltadas para o pôr-do-sol.

Seria um sacrilégio dirigir-lhe a palavra.

Com as alpercatas a pisar a erva, cedei-lhe passagem no caminho. Talvez tenhais a sorte de distinguir sobre os seus lábios a quimera da humidade da Noite?

"Sozinhos permanecem" (1938-44), in Furor e Mistério (nota da tradutora).

Em René Char Este Fanático das Nuvens, antologia organizada por Marie-Claude Char e Y. K. Centeno, tradução de Y. K. Centeno, Edições Cotovia, 1995.

9.7.08

Os Atávicos



Este blogue devia ser de leitura obrigatória nas escolas, do 9.º ano para cima, inclusive. Com testes e tudo. Daqui a quinze anos podia acontecer que houvesse cidadãos suficientes para limpar o país do lodo que. Mas a ministra não vai nisso, nem o nosso primeiro, nem os que estão acima dele quer em Bruxelas, quer no globo (globo, para lembrar de onde deriva globalização).
























Ave-do-paraíso, Werner Horvath, 1960-70, óleo sobre tela.

5.7.08

Empadas romanas do tempo de o Pacífico



Faça-se um pastelão de meio alqueire de farinha amassada em água e sal, cobrindo-o por cima como empada; como estiver feita, assopre-se por uma buraquinho, para que fique bem cheia de vento; depois de muito bem cozida, abram-lhe no fundo um buraco redondo, por onde lhe metam duas ou três dúzias de pássaros vivos, e tapando com a mesma massa, mande-se à mesa. Também se faz de pombos ou coelhos vivos.

Em Arte de Cozinha, de Domingos Rodrigues, Imprensa Nacional, 1987.
Nota: Domingos Rodrigues foi mestre de cozinha da Casa Real, no reinado de Pedro II, o Pacífico (1683-1709).

3.7.08

Ugetsu Monogatari (Contos da Lua Vaga) , 1954, Mizoguchi .


Ninguém me perguntou quais são os meus filmes preferidos, uma pergunta de inquéritos juvenis. Lê-se em muitas entrevistas de adultos, quando o entrevistador não tem nada para perguntar. Mesmo assim, irei respondendo. Sem nenhuma ordem.

2.7.08

O engenheiro


Era o que nos faltava para irmos “cantando e rindo” pelo cano abaixo. O inominável kitsch. A desmesura de quem chega de engenheiro técnico, com a assinatura de construções menos que chapa 7, a primeiro-ministro de um país de opereta.

e os doutores











Para retorquir ao Dr. Vital Moreira, que aqui e no Público virou economista de serviço, a Dr.ª Manuela Ferreira Leite podia muito bem mandar avançar a Dr.ª Zita Seabra. Talvez os dois se engalfinhassem por razões conhecidas de todos.

27.6.08

Um poema de Adair Carvalhais Júnior

O poeta brasileiro meu preferido na sua geração, nascido no princípio dos anos 60. Pouco se fala dele. Talvez por a sua poesia ser invulgar e tão contemporânea, fora dos tiques e dos toques que é costume e fora também do eixo S. Paulo-Rio. Lá como cá.

Disse-lhe um dia que a poesia dele tinha muito da música erudita do nosso tempo, pelo carácter muitas vezes atonal, que a dureza do seu ritmo poético tão próprio reitera . Aqui o deixo e também aqui.

26.6.08

Um elixir de longa vida?


Este blogue nunca conheceu o trânsito dos quatro anteriores que tive. Se os cães envelhecem sete anos por apenas um do homo sapiens, os bloguistas envelhecem aí uns quarenta, de modo que, ao fim de seis anos na blogosfera, me tornei numa espécie de fóssil, e os fósseis da blogo, como dizem nuestros vicinos, acabam por ser vítimas da sua própria condição.

Daí até o contador registar só uma visita diária nos últimos meses foi um saltinho lógico e um recorde imbatível, porque o contador também me regista a mim. No entanto, um blogue não é um armazém de palavras, que foi o que me apeteceu fazer deste até ontem, até aos meus duzentos e quarenta anos que tinha ontem.

Veremos se o meu elixir funciona: um blogue vive para os outros e para o dono dele nos dos outros, não interessam aqui números e qualidades. Cada um come do que gosta e quanto lhe apetece, segundo o tempo e o tipo de exigências, não pensando eu nas impossibilidades de toda a ordem que nos assaltam hoje, mais as que a previsibilidade aponta para amanhã.

24.6.08

É claro que as mulheres exercitam
o seu poder oculto
naqueles que se entregam para sempre
à sua protecção materna
depois de o amor ter ambos serenado.
“Não há nada mais belo”, ouço dizer,
“do que um casal assim, a passear
nas veredas de um shopping.
A história das colmeias, a rainha
e os zângãos sem mais préstimo, digo eu,

e penso na excepção:
uma mulher e um homem
à beira-mar, unidos pela música.


© nd

27.2.08

Fernando Pessoa

Quantos papéis voaram da arca
para o céu destes dias, ele morto
e apagados os trilhos de Lisboa.
Não sei se alguém
lhe sente ainda os passos,
dos velhos escritórios
ao delitro e aos poemas
no fim do dia
ou na falta que o vinho lhe fazia.
Um homem de bigode antigo e magro,
com óculos redondos
e elegante de mais na pose,
é útil não somente a Almada.
Suponho que o imagine desse modo
quem o não sinta
uma voz em excesso na cidade,
a multidão que ele nunca foi
e o estilhaçou em vários,
e destes um,
o ortónimo sem vida diferente
do Esteves do poema.
"Os génios não têm biografia",
a não ser umas quantas fotos
que dizem vagamente nada,
já a mão breve
vai dispensando os versos
que eram seus para serem só
de livros em estantes abstractas.


© nd

10.2.08

A poesia na era dos replicants

Há algum tempo que venho pensando na importância social contemporânea da poesia, e agora que me sinto desapegado do seu halo exterior, que só na juventude me ofuscou, mais fácil me é falar dela sem aparentar queixumes contra o mundo que não sabe aplaudir, queixumes frequentes, a maioria das vezes porque se é jovem ou porque não se tem valor que o mereça e se exige para si próprio, mais raras vezes por falta de sorte ou recusa do sentido de oportunidade, e muitíssimo mais raras ainda por se escrever à frente do seu tempo.

Se da mediocridade ao talento vai uma distância grande; se do talento à genialidade vai uma distância maior; se a importância social da poesia é cada vez mais invisível na sociedade neoliberal, podemos medir o esbracejar de aspirantes a esta arte com alguma distância sincera e olhá-los como uma espécie de acrobatas num aquário redondo, tão mais circences quanto mais exigem aplausos dos outros, não interessa a qualidade de quem chegam.

Não falo da juventude contemporânea que emerge e em que descobrimos valor e para a qual, por isso mesmo, não há reconhecimento e apoio. Embora hoje a poesia não dê de comer a quem a escreve, é preciso à mesma ter-se patronos. Não se comem migalhas da mesa feudal, mas come-se o que há de um feudo sem terra nem água: devora-se, sem modos, um brilho social que não existe senão na cabeça dos comensais da parquíssima mesa. E se a juventude com talento não aceita esse caminho e inicia o seu próprio – que não é mais que isso mesmo -, a outra toda irá envelhecendo sem amargura e sem dar conta da indiferença e da estranheza que a sociedade lhe dedica. E é ver-se, ao lado dela, gente de gerações anteriores esticar igualmente a mão. Como se alguém na mesa a visse e fosse aceitar essa concupiscência absurda.

A poesia, que esta falta de lucidez não demove do seu caminho (mas encurta-o), será cada vez mais uma excrescência no meio do cálculo dos computadores e um bem, às vezes amargo, para os que, com ela, têm necessidade honesta de testemunhar-se a si mesmos no seu tempo. E é por seres humanos assim que a poesia sobrevive, escrita, desde Gilgamesh e, cantada, de muito antes. Amada hoje por uma minoria relativa talvez mais estreita, mas sempre tenaz, sobreviverá na ditadura dos números como uma actividade inútil de seres cada vez mais esquisitos. Basta pensarmos nos (des)caminhos da Cultura no seio do Ensino e na evolução da economia neoliberal feroz, que aquele serve como uma fábrica de
replicants.
 
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