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Roubei aqui estes bolinhos de bacalhau com tão bom aspecto. Os que comi no sábado ao almoço não eram tão bonitos, mas estavam bem feitos. Dispensaria o esparregado, a tolice vulgar do omnipresente arroz de feijão como acompanhamento de tudo, na imagem com arroz agulha em vez de carolino (por exemplo) e mandava o limão embora. Ficaria só a alface. Enfim, acabei por escolher feijão-frade frio com salsa e cebola picadas e uma alface parecida à da imagem.
construção meticulosa de um edifício, e, a existir, penso, não será regra. Regra, exigência é possuir uma enorme capacidade de trabalho e uma persistência de rocha. Robert Musil demorou mais de vinte anos com Um Homem sem Qualidades, e não viveu para o acabar. Não sei quanto tempo demorou Jorge de Sena com o também incompleto e admirável Sinais de Fogo, para que tinha um projecto de grande amplidão que a morte não deixou concluir. É certo que o tempo mudou, que tudo é mais breve e que os exemplos
que dei são extremos. Mas hoje estar sentado meses, não sei se mais de um ano, a escrever x horas por dia, quando não de atacado, é um feito. Com as excepções que sabemos do passado, por isso é que os autores só de poesia são em geral ociosos, sobretudo os contemporâneos, tão fácil é escrever duas dúzias de versos (que me perdoem a verdade). E mesmo a organização de um livro de poesia, para muitos o cabo dos trabalhos, e sou dos que concordam com isso, o que é essa organização face à disciplina, à força de vontade, à exigência para consigo próprio que a criação de um romance impõe? Impressionante abnegação e persistência, quantas vezes a entrega a uma vida paralela e irreal, com o mundo a cintilar no exterior. Oxalá o meu amigo não ouça as sereias que estão para lá da janela. Que corra as persianas, que se esqueça dos poemas, enquanto preenche as folhas tão longas que os romances têm quando ainda brancas. 
Coimbra. Se O.M.S. pegasse no carro para ir a Salamanca, à Cervantes, e andasse 650 km, ida e volta, talvez poupasse em arrelias o que não pouparia em dinheiro. Mesmo assim, eu telefonaria antes, que o mundo está a mudar até nos redutos
mais inesperados. São coisas da democrácia, como por lá pronunciam o malévolo conceito: tu votas, mas comerás sempre o que a gente te der; és livre de expressão, mas não podes ser culto, porque então a tua liberdade acaba onde a nossa começar. Compra e sê feliz a comprar, porém desconfia sempre do que sai pouco e pouco se vê.
E orgulha-te, porque é a partir de ti, cidadão da maioria silenciosa, que educamos meticulosamente as gerações futuras. Os livros ardem bem é em hipermercados e outras grandes superfícies. Ar, ar, ar! gritemos todos AR! para que ardam melhor ainda e se esgotem sem cansaço nesses passeios públicos de sábado. Nos lugares alternativos, o que há é fungos, e compete aos governos democráticos legislar sobre a matéria, que é de saúde pública.

Adolescente ainda, as palavras eram sons que me levavam de fulgor em fulgor, de febre em febre: escrevia como olhava o mar, imaginando cidades na margem invisível do horizonte. Escrevia pela ânsia de viver, pela luz em que julgava ir tornar-me. Há muito que essa luz se apagou e que não escrevo assim. Nem já para fingir viver. Foi longo o caminho de aprendizagem, e trago comigo as personagens que ficaram em mim e que fui encontrando nestes livros todos. Vivemos juntos e sonhamos juntos enquanto durmo. Sem elas eu não existia. O que escrevo, em sua maior parte, não me pertence. Pertence-lhes. E hoje escrevo para resistir, para que nenhuma delas morra senão quando eu morrer.
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Fresco de Pompeia, séc. I (d.C.), Museu Nacional de Arqueologia, Nápoles.
Se entrasses pela porta de um filme de Antonioni, todos olhariam o enigma do teu rosto. Não o saberiam ler, no entanto haviam de ansiar dissolver-se nele como se, de repente, fosse a vida que nunca tocaram, o espelho de um vislumbre perfeito. A mim, que te vejo tantas vezes, sucedeu um dia não me bastar essa imagem, ter de ir buscar outra muito mais distante, e hoje és também a mulher do fresco de Pompeia.
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Criança numa cadeira com a mãe, pintura em vaso grego do séc. V a.C.





uel Alegre, sem despender um cêntimo. Talvez vá à FNAC e me sente a folhear o poema de onze poemas. Não me passaria tal coisa pela cabeça, se não suspeitasse de que o infante D. Pedro pode ser, para Manuel Alegre, o que Virgilio foi para Dante. Nem menos, depois de ter medido e medir Camões e Pessoa. Ver aqui a amável recensão que Y. K. Centeno fez do livro. E ler os versos que lá estão, alguns deles heróicos, no sentido métrico e no sentido epopeico, e doutos. O certo é que ninguém pode exigir lucidez a ninguém. Cada um tem de se bastar com a sua (se a tiver).