18.8.08


Buçaco, fotografia de João Almeida Santos.

A floresta varia com a cor do nosso olhar. As vezes pode ser uma espécie de paraíso lustral, de onde surge um rosto purificado de mulher, como me sucedeu um dia no Buçaco. Trazia os olhos claros, limpos de quanto era humano, salvo ela, a mulher, a única que podia ser humana, porque tinha roubado à floresta o que um dia pertencera aos deuses, o carácter breve e irreal de outro mundo, onde o tempo parecia ter deixado de se medir pelo pulsar do coração e das cidades.

© nd

12.8.08

Os critérios-consequência


Desenho colectivo de alunos do 4º ano de uma escola algures.

Ontem dizia-lhe: o que hoje é mau gosto (estético) poderá ser bom gosto amanhã. É já mais fácil cultivar a vulgaridade e a mediania comum, e estas passarem a medida-padrão qualitativa, do que aceitar que o rei vai nu.

10.8.08

Bolinhos & Pastéis


Roubei aqui estes bolinhos de bacalhau com tão bom aspecto. Os que comi no sábado ao almoço não eram tão bonitos, mas estavam bem feitos. Dispensaria o esparregado, a tolice vulgar do omnipresente arroz de feijão como acompanhamento de tudo, na imagem com arroz agulha em vez de carolino (por exemplo) e mandava o limão embora. Ficaria só a alface. Enfim, acabei por escolher feijão-frade frio com salsa e cebola picadas e uma alface parecida à da imagem.

Falo disto, porque os bolinhos definiram na minha cabeça o motivo da aversão ao nome pastéis de bacalhau que não poucas vezes dão aos bolinhos do dito (seria um assunto para Helder Guégués). Pastéis são constituídos por uma massa cozida no forno (ou frita) e por um recheio salgado ou doce, como pastéis de massa tenra, pastéis de Tentúgal, de nata, de feijão e por aí fora. Pelo menos é o que os dicionários de português on-line rezam (a massa frita é acrescento meu). Ora todos nós já vimos fazer bolinhos de bacalhau: 1 kg de batatas reduzidas a puré, 0,8 kg de bacalhau bom desfiado, salsa picada, ovos q.b. para a massa ficar moldável. Formam-se com a ajuda de duas colheres de sopa e fritam-se em óleo bem quente. Quem quiser genuínos pastéis de bacalhau use esta massa como recheio, envolva-a em massa brick ou mesmo filo, e leve os pastéis ao forno até dourarem. A textura estaladiça exterior dará um toque de cozinha criativa ao almoço e protege a língua portuguesa de confusões.

9.8.08

Foi ontem, há trinta anos

























Com a morte de Ruy Belo, um mês e meio depois da de Jorge de Sena e, muito antes, com a de Fernando Pessoa, formou-se e sobrevive a minha tríade de poetas portugueses do séc. XX. Ler aqui, onde se cita o poema abaixo.

VAT 69

Era depois da morte herberto helder
Ia fazer três anos que morrêramos
três anos dia a dia descontados no relógio
da torre que de sombra nos cobriu a infância:
rodas no adro — gira a borboleta que se atira ao ar
o jogo do berlinde o trinta e um pedradas
nas cabeças nos ninhos nas vidraças
Foi quando verdadeiramente começou
a conspiração dos líquenes cabelos e avencas
na mina onde molhámos nossos jovens pés
e tirámos retratos pra morrer mais uma vez
Os nossos filhos — nós outra vez crianças —
comiam e gostavam das laranjas essas mesmas laranjas
que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal
no quintal que as máximas mãos deixaram já depois
                                                  [abandonado
Era a seguir à morte meu poeta
era na meninice havia festa e na sala da entrada
pensávamos na morte — nunca mais — pela primeira vez
Trincávamos cheirávamos maças no muro sobre a praia
roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos
Era nas férias havia o mar e íamos à missa
ouvíamos a campainha e o padre voltava-se pra nós
—orate frates — ou íamos ao cemitério apesar do catitinha
Era depois da morte sobre a plana infância
o primeiro natal o cheiro do jornal
lido na adega ou na casa do forno
sentados pensativos sobre a terra húmida
Era na infância o sol caía enquanto água corria
entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras
calcados prontamente pelas botas
soprava o vento e vinha a moinha da eira
o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira
e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores
Havia casamentos o meu pai falava
e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças
E os registos mistério tempo da prenhez
Era talvez no outono havia asma
havia a festa da azeitona havia os fritos
ao domingo havia os bêbados estendidos pelas ruas
havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia
Era a primavera o rio rápido subia
os barcos navegavam entre a vinha
e alastrava a sombra e a tarde adensava-se
num espesso e branco nevoeiro de algodão
noite dos candeeiros sombras nas paredes
e minha mãe pegava na espingarda ia à janela
e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe
O leovigildo o marcolino o sítio do miguel
a sesta a monda das mulheres
a queda do bizarro exposto na igreja
isso e o almoço a saber mal
quando vinham da escola pra saber significados
Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das
                                                          [viagens
Eram as festas era o roubo dos melões
era a menstruação oculta da criada
Era talvez em tempos de tormenta
havia ferros entre a palha por baixo da galinha
que chocava os ovos dentro de um velho cesto
eram as nossas casa em adobe
e era o carnaval os bailes os cortejos
Íamos para a praia e eu lia camilo
ouvia o mar bater sem conseguir compreender
como podia estar ali se tinha estado noutro sítio
Era o tempo dos primeiros amores
eu via o pavão adoecia e só muito mais tarde lia
o trecho que me competia entre as amadas raparigas
A casa não ficava muito longe dos montes
não havia a cidade nem os outros
punham ainda em causa o meu reino de deus
senhor de tudo o que depois não tive
Era depois da morte ou era antes da morte?
Mas haveria a morte verdadeiramente?
Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava
se tudo aquilo tinha acontecido
Era o meu pai era esse sonhador incorrigível
sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias
Eram as folhas novas eram os perdigotos
saídos não há muito ainda da casca
Era era tanta coisa
Seria realmente após a morte herberto helder

Ruy Belo, Obra Poética I, Editorial Presença, 1990.

6.8.08

Sobre um romance em início


Hoje respondi ao e-mail de um amigo. Depois de ter editado o seu primeiro livro de poesia, começou há pouco a escrever um romance. Disse-lhe o que sabia, dei-lhe outra comparação, mas a que estará mais próxima da gestação de um romance é a de um edifício como obra de arte. A ideia, o esboço, o anteprojecto, o projecto, a construção a pouco e pouco, vigiada, alterada aqui e além, os acabamentos tão demorados. Tudo muito mais difuso, se é que existe alguma aproximação com a construção meticulosa de um edifício, e, a existir, penso, não será regra. Regra, exigência é possuir uma enorme capacidade de trabalho e uma persistência de rocha. Robert Musil demorou mais de vinte anos com Um Homem sem Qualidades, e não viveu para o acabar. Não sei quanto tempo demorou Jorge de Sena com o também incompleto e admirável Sinais de Fogo, para que tinha um projecto de grande amplidão que a morte não deixou concluir. É certo que o tempo mudou, que tudo é mais breve e que os exemplos que dei são extremos. Mas hoje estar sentado meses, não sei se mais de um ano, a escrever x horas por dia, quando não de atacado, é um feito. Com as excepções que sabemos do passado, por isso é que os autores só de poesia são em geral ociosos, sobretudo os contemporâneos, tão fácil é escrever duas dúzias de versos (que me perdoem a verdade). E mesmo a organização de um livro de poesia, para muitos o cabo dos trabalhos, e sou dos que concordam com isso, o que é essa organização face à disciplina, à força de vontade, à exigência para consigo próprio que a criação de um romance impõe? Impressionante abnegação e persistência, quantas vezes a entrega a uma vida paralela e irreal, com o mundo a cintilar no exterior. Oxalá o meu amigo não ouça as sereias que estão para lá da janela. Que corra as persianas, que se esqueça dos poemas, enquanto preenche as folhas tão longas que os romances têm quando ainda brancas.

3.8.08

de (O) Réquiem




(Mozart) Introitus e Kyrie, direcção de John Eliot Gardiner, com o os Solistas Barrocos Ingleses e o Coro Monteverdi, al Palau de la Música Catalana, Barcelona, Dezembro de 1991.

31.7.08

É pelos livros arderem mal que



Leia-se a saga de Osvaldo M. Silvestre, que foi à procura das Obras Completas de Jorge Luis Borges, em Coimbra. Se O.M.S. pegasse no carro para ir a Salamanca, à Cervantes, e andasse 650 km, ida e volta, talvez poupasse em arrelias o que não pouparia em dinheiro. Mesmo assim, eu telefonaria antes, que o mundo está a mudar até nos redutos mais inesperados. São coisas da democrácia, como por lá pronunciam o malévolo conceito: tu votas, mas comerás sempre o que a gente te der; és livre de expressão, mas não podes ser culto, porque então a tua liberdade acaba onde a nossa começar. Compra e sê feliz a comprar, porém desconfia sempre do que sai pouco e pouco se vê.

E orgulha-te, porque é a partir de ti, cidadão da maioria silenciosa, que educamos meticulosamente as gerações futuras. Os livros ardem bem é em hipermercados e outras grandes superfícies. Ar, ar, ar! gritemos todos AR! para que ardam melhor ainda e se esgotem sem cansaço nesses passeios públicos de sábado. Nos lugares alternativos, o que há é fungos, e compete aos governos democráticos legislar sobre a matéria, que é de saúde pública.

28.7.08


Maya con Muñeca, Picasso, óleo sobre tela, 1938.

Às vezes, arranjamos um dia para nos sentarmos à mesa, sob a figueira. Repartimos como antigamente a carne, o vinho, o pão, a frescura sumarenta dos pêssegos, e fingimos viver sem cuidados. Ao longe, as cidades ardem, a multidão nas ruas, a morte nos guetos, os poderosos em seus prédios altíssimos, guardados por tanques e polícia. E, quando nos levantamos, vemos a mesma miúda a fitar-nos, fugida das cidades, os olhos opacos de futuro. Não têm uma boneca que possa chamar-se Matilde? — pergunta-nos sempre.

© nd

27.7.08


Imagem retirada daqui.

O homem, na esplanada, come amêijoas de uma travessa. Eu tinha andado na falésia à procura de vestígios árabes e encontrara um concheiro pré-histórico de cascas de amêijoas como aquelas, e agora o tempo tornou-se vibrátil, com seus cílios inteligentes, e dele emerge o desconforto de não ter pela frente senão o destino que vai do concheiro à esplanada. Como espécie, não valemos muito, dissera-me Judite. Falávamos de outra coisa, mas esse desencanto também serve aqui. Nunca fomos divinos, nunca incendiámos até ao céu a revolta do deus, para a darmos a nós mesmos. Vamos em um largo, escuro rio anónimo, que nasce na fonte de um acaso distante para desaguar em foz nenhuma, enquanto o homem, tranquilo como o Esteves da Tabacaria, vai picando as amêijoas e deitando as cascas no concheiro pré-histórico.


© nd

26.7.08

Pietà



Pietà, Paula Rego, óleo sobre tela, 2002.

O monge tinha fé e por isso imolou-se no fogo e, como ele, tantos ao longo da corrente do tempo, desde a eclosão das divindades. Dir-se-ia que vêm ao mundo só para morrer assim. No entanto, esse destino não existia, nada está decidido, o fim é, todo ele, uma síntese de cruzamentos e, em última análise, o fruto que a mãe, sem saber, pousa no reverso da alegria.

© nd

25.7.08



Sinfonia n.º 3 ( Sinfonia das Canções Tristes), de Górecki
- 2.º andamento -.

24.7.08


Biblioteca, Vieira da Silva, óleo sobre tela, 1949.

Adolescente ainda, as palavras eram sons que me levavam de fulgor em fulgor, de febre em febre: escrevia como olhava o mar, imaginando cidades na margem invisível do horizonte. Escrevia pela ânsia de viver, pela luz em que julgava ir tornar-me. Há muito que essa luz se apagou e que não escrevo assim. Nem já para fingir viver. Foi longo o caminho de aprendizagem, e trago comigo as personagens que ficaram em mim e que fui encontrando nestes livros todos. Vivemos juntos e sonhamos juntos enquanto durmo. Sem elas eu não existia. O que escrevo, em sua maior parte, não me pertence. Pertence-lhes. E hoje escrevo para resistir, para que nenhuma delas morra senão quando eu morrer.

© nd

23.7.08


Fresco de Pompeia, séc. I (d.C.), Museu Nacional de Arqueologia, Nápoles.

Se entrasses pela porta de um filme de Antonioni, todos olhariam o enigma do teu rosto. Não o saberiam ler, no entanto haviam de ansiar dissolver-se nele como se, de repente, fosse a vida que nunca tocaram, o espelho de um vislumbre perfeito. A mim, que te vejo tantas vezes, sucedeu um dia não me bastar essa imagem, ter de ir buscar outra muito mais distante, e hoje és também a mulher do fresco de Pompeia.

© nd


21.7.08


Criança numa cadeira com a mãe, pintura em vaso grego do séc. V a.C.

Vês gente tua na margem do que era real. São vultos desfocados como se a sombra fosse luz, e a luz, as cores de um filme vago, em que a música de fundo parecesse o apito ao longe de um comboio antigo. Deixa-te estar e olha. Mas não anseies mais do que existe nem te mova a melancolia. Afinal, nesta margem, também há crianças e jovens mães em intervalos alegres de viver.

© nd

13.7.08

Compras



Quando acabarei de ler as cerca de 3.700 páginas destes livros? Hoje comprei o de Ariosto, que saiu no ano passado, pela Cavalo de Ferro. Na Feira do Livro deste ano (Lisboa), comprei os outros abaixo, que andava a namorar há muito. Pediam-me antes 150 euros pelos cinco volumes. Custaram-me 94. E havia aqui quem os vendesse a 25 euros. Pergunto-me se os compraria. Não, não comprava. E não sou lorpa. Se os comprasse, acho que era eu que me vendia.

Post scriptum do post: a raposa de Esopo não anda por estes lados.





11.7.08

"Uma Canção de Camões"



Disseram-me um dia que escrever a canção X devia ter sido de arrancar a pele.

Em Luís de Camões, 10 Canções Ditas por Luís Miguel Cintra

10.7.08

As Sete Partidas Lusitanas

Estou a pensar como poderei ler em diagonal as novéis Sete Partidas de Manuel Alegre, sem despender um cêntimo. Talvez vá à FNAC e me sente a folhear o poema de onze poemas. Não me passaria tal coisa pela cabeça, se não suspeitasse de que o infante D. Pedro pode ser, para Manuel Alegre, o que Virgilio foi para Dante. Nem menos, depois de ter medido e medir Camões e Pessoa. Ver aqui a amável recensão que Y. K. Centeno fez do livro. E ler os versos que lá estão, alguns deles heróicos, no sentido métrico e no sentido epopeico, e doutos. O certo é que ninguém pode exigir lucidez a ninguém. Cada um tem de se bastar com a sua (se a tiver).

FÉRIAS AO VENTO
















Nos flancos dos outeiros da aldeia acampavam extensões carregadas de mimosas. Na época das colheitas acontece que, longe da própria morada, se dê o encontro extremamente odorífero de uma rapariga cujos braços, durante o dia, estiveram ocupados com os frágeis ramos. Tal como uma lâmpada cuja auréola fosse feita de perfume, ela afasta-se, de costas voltadas para o pôr-do-sol.

Seria um sacrilégio dirigir-lhe a palavra.

Com as alpercatas a pisar a erva, cedei-lhe passagem no caminho. Talvez tenhais a sorte de distinguir sobre os seus lábios a quimera da humidade da Noite?

"Sozinhos permanecem" (1938-44), in Furor e Mistério (nota da tradutora).

Em René Char Este Fanático das Nuvens, antologia organizada por Marie-Claude Char e Y. K. Centeno, tradução de Y. K. Centeno, Edições Cotovia, 1995.

 
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