16.9.08
13.9.08
Prémios
O épico lusitano do século XX recebeu o prémio D. Dinis. Cavaco compara-o a Camões e Pessoa. Como se diz daqueles que não sabem a figura que fazem?11.9.08
10.9.08
referências desdenhosas ou, no mínimo, paternalistas, a quem aspira a escrever mais do que apenas notas pessoais num caderno digital. É um desejo legítimo, muito para além da qualidade ou da falta dela, e tão legítimo como cada um escolher os blogues que visita. E se juntarmos a esta atitude, uns posts abaixo, a de louvaminhar o que é medíocre mas brilha, temos então rato escondido com o rabo de fora. Ou seja, temos alguém que não é capaz de banir sentimentos turvos, decorrentes da falta de lucidez acerca de si próprio, passe o eufemismo.Convite
- Poesia e Tradução, publicada por Edições Sempre-em-Pé, convida a assistir à apresentação da nova poesia de Turim e do Piemonte .A introdução será feita por Gonçalo M. Tavares. Estarão presentes os poetas Tiziano Fratus e Francesca Tini Brunozzi, e alguns dos tradutores.
Na altura, o editor apresenta o novo número (n.º 14) da DiVersos, no qual estão incluídas quatro vozes da poesia turinense, Francesca Tini Brunozzi, Luca Ragagnin, Tiziano Fratus e Valentina Diana, além de outros poetas traduzidos de outras línguas e originais inéditos de poetas em português. Serão ditos poemas na língua original e em tradução.
9.9.08
das colinas de S. Stefano
Cesare Pavese faria hoje cem anos. Sou pouco dado a efemérides e menos
ainda a lembrar-me das suas datas, e esta descobria-a no Henrique Fialho. Encontrei-me com Pavese na juventude adolescente e o ambiente da sua ficção marcou-me para sempre, como que de forma congénita porque eu já existia nele. O mais que pude fazer para lhe agradecer foi ter estudado italiano, lido tudo o que há para ler dele e escrito um poema longo, com o seu nome por título, que começa assim:
Quando eu me alimentava da luz
que o fluir melancólico das palavras
trazia das colinas de S. Stefano
e me abria esse mundo ao meu
que em mim guardava, lendo-nos aí,
nas águas do meu rio que gerara
quadros do Piemonte na outra banda (…)
A pantera de Dante é outra
Esfinges em supermercados
Há uns anos já, "tive" uma Tatiana assim. Era de carne e osso, como Tatiana talvez seja. Chamei-lhe Mari Consuelo. Um dia desapareceu do supermercado de fronteira onde trabalhava. Perguntei por ela e pelo nome. Se casó, se llama Rosa. Moral da lembrança: nunca perguntes nada sobre esfinges, que logo se tornam humanas e vulgares. Dela só me ficaram uns versos indirectos:
Mari Consuelo
Terás de ver um dia Consuelo,
como os seus olhos são lindos
e como riem jovens quando passo.
Nem sequer imaginas os cabelos dela:
são quase iguais aos teus
e os sonhos que é possível ter com eles.
Depois, sabes, está próxima,
vejo-a todas as quartas-feiras
a arrumar as estantes do supermercado.
Se um dia namorarmos,
decerto não será por ser parecida
com aquela que já foste,
e se vier falar-me de alma como tu,
dir-lhe-ei a alma não existe,
é coisa de mulheres românticas,
pois não quero ver a dela
perder-se como a tua que não tive.
© nd
8.9.08
Uma questão de bifes
Jorge de Reis Sá Reis-Sá (com tracinho), industrial e comerciante de livros por grosso, dá aqui uma curiosa receita para o "bife" de um escritor de horas vagas que queira tornar-se escritor a tempo inteiro. Mas sai tudo tão espartilhado, dirão, que até parece coisa militar. No entanto, para a promoção do livro que o escritor terminou, JR-S é um mãos largas. Três meses, pois então. Sem receber mais por isso e ainda tendo de inventar uns biscates por fora. Senão que vá para pedreiro, como diz, e que escreva nos tempos livres.
Não se faça caso desse bife, deve ser de filet mignon, é uma carne deslavada e, além disso, parece vir com as inevitáveis batatas a murro. De resto, dir-se-ia ser mais a cenoura da história do burro do que aquilo que se vê.
Se apetecer um bife a alguém nessas condições, deixo aqui um bem melhor. O molho é de queijo da serra e o que se vê a nadar nele são míscaros. À direita, polme de tomate assado; por cima, rúcula. Esse alguém vai ver que não precisa de trabalhar de borla. Porque tem de o pagar com as suas mãos livres, e não custa nem um milésimo do outro. Dou a receita a quem a pedir.

7.9.08
O deus SE
em vez de metermos por outra e existimos porque, há mil anos, um tetravô nosso se cruzou com uma moura que gemeu sob ele, engravidou e pariu o nosso tetravô seguinte, e antes o mesmo com os tetravós deles. Até onde? Nós sabemos, todos sabemos isso: até ao primeiro ovócito humano fecundado, há dois milhões de anos mais umas centenas de milhar. Se então esse ovócito e o espermatozóide que o buscava não se tivessem encontrado, nenhum de nós existiria. O acaso é mais forte que o mais poderoso dos deuses que se tenha imaginado. E muito mais desconfortável. E é deste desconforto que as divindades nasceram, sossegando as perguntas tornadas heréticas e a noção honesta e lúcida do absurdo dos nossos comportamentos e da ignorância do nosso próprio tamanho.31.8.08
Aquele Querido Mês de Agosto
nagens reais. Apeteceu-me escrever o guião depois de ver o filme, seguindo a irreverência que é a montagem, a mistura de todos, personagens, reais, de ficção e membros da equipa técnica, e a metamorfose definitiva do documentário em filme.Uma das suas marcas é a ironia que roça a ternura, obtida por cenas de opostos, como logo a abrir o cantor pimba a dizer João de Deus e depois a cantar a sua canção de letra primária (e até a escolha de João de Deus e do poema tem que se lhe diga); a cena da raposa e dos garnisés; a banda da terra a tocar, a ouvir-se aquele fungagá antigo, enquanto
préstimo, até que saiu dela o cartaz de uma Nossa Senhora, não sei qual, há muitas, o mais certo era ter sido o da padroeira, aplaudida pelos fiéis off que a esperavam.Uma outra situação de prazer de realização, e também nosso, que assistíamos, foi a a participação dos técnicos do filme no próprio filme, o realizador, o director de produção (que viria a assumir o papel de chefe da banda pimba), o de som e depois, todo o staff técnico, pessoa a pessoa, a intervir, enquanto o seu nome e função surgia no ecrã, num final de uma irreverência deliciosa.

Detesto contar filmes e não vou fazê-lo, mas tenho de dizer que tudo se passa nas serras de Arganil, em Agosto, com um povo ainda pouco tocado pela globalização (ou dela escondido), com figuras que nos apaixonam de tão simples e reais, no meio da festa omnipresente, cantigas pimba, bailaricos, amores, vinho, cerveja, coisas antigas que ainda vivem.
Tudo isto na sessão das 21 h, num cinema de oito salas da cidade onde moro. Comigo, estavam mais sete pessoas na sala, três rapazolas comedores de pipocas e dois casais de namorados, que tinham cara de ter procurado ali refúgio para o tédio. Hoje é comum Portugal ter a arte que merece, com as honrosas execpções de que Sena falava. Desta vez não a mereceu. Pelo menos a cidade, nessa sessão. Éramos oito, e resta-me saber quantos viram o filme.
Não o perca, claro. Fica-se agarrado desde o princípio por tão subtil simplicidade. Foi o único filme português presente no Festival de Cannes deste ano, na Quinzena do Realizador, embora este facto para mim não queira dizer nada ou quase nada, mas isso é já outra coisa.
28.8.08
27.8.08
O Gosto de Ler

23.8.08
Queda
Não somos deuses e, mesmo assim, abandonamos as mãos do outro, numa espécie suicídio, os pulsos golpeados por vidros da janela de onde olhávamos o mundo que nos salvava.
© nd
22.8.08
18.8.08
© nd
12.8.08
Os critérios-consequência
10.8.08
Bolinhos & Pastéis
Roubei aqui estes bolinhos de bacalhau com tão bom aspecto. Os que comi no sábado ao almoço não eram tão bonitos, mas estavam bem feitos. Dispensaria o esparregado, a tolice vulgar do omnipresente arroz de feijão como acompanhamento de tudo, na imagem com arroz agulha em vez de carolino (por exemplo) e mandava o limão embora. Ficaria só a alface. Enfim, acabei por escolher feijão-frade frio com salsa e cebola picadas e uma alface parecida à da imagem.Falo disto, porque os bolinhos definiram na minha cabeça o motivo da aversão ao nome pastéis de bacalhau que não poucas vezes dão aos bolinhos do dito (seria um assunto para Helder Guégués). Pastéis são constituídos por uma massa cozida no forno (ou frita) e por um recheio salgado ou doce, como pastéis de massa tenra, pastéis de Tentúgal, de nata, de feijão e por aí fora. Pelo menos é o que os dicionários de português on-line rezam (a massa frita é acrescento meu). Ora todos nós já vimos fazer bolinhos de bacalhau: 1 kg de batatas reduzidas a puré, 0,8 kg de bacalhau bom desfiado, salsa picada, ovos q.b. para a massa ficar moldável. Formam-se com a ajuda de duas colheres de sopa e fritam-se em óleo bem quente. Quem quiser genuínos pastéis de bacalhau use esta massa como recheio, envolva-a em massa brick ou mesmo filo, e leve os pastéis ao forno até dourarem. A textura estaladiça exterior dará um toque de cozinha criativa ao almoço e protege a língua portuguesa de confusões.
9.8.08
Foi ontem, há trinta anos

Com a morte de Ruy Belo, um mês e meio depois da de Jorge de Sena e, muito antes, com a de Fernando Pessoa, formou-se e sobrevive a minha tríade de poetas portugueses do séc. XX. Ler aqui, onde se cita o poema abaixo.
VAT 69
Era depois da morte herberto helder
Ia fazer três anos que morrêramos
três anos dia a dia descontados no relógio
da torre que de sombra nos cobriu a infância:
rodas no adro — gira a borboleta que se atira ao ar
o jogo do berlinde o trinta e um pedradas
nas cabeças nos ninhos nas vidraças
Foi quando verdadeiramente começou
a conspiração dos líquenes cabelos e avencas
na mina onde molhámos nossos jovens pés
e tirámos retratos pra morrer mais uma vez
Os nossos filhos — nós outra vez crianças —
comiam e gostavam das laranjas essas mesmas laranjas
que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal
no quintal que as máximas mãos deixaram já depois
[abandonado
Era a seguir à morte meu poeta
era na meninice havia festa e na sala da entrada
pensávamos na morte — nunca mais — pela primeira vez
Trincávamos cheirávamos maças no muro sobre a praia
roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos
Era nas férias havia o mar e íamos à missa
ouvíamos a campainha e o padre voltava-se pra nós
—orate frates — ou íamos ao cemitério apesar do catitinha
Era depois da morte sobre a plana infância
o primeiro natal o cheiro do jornal
lido na adega ou na casa do forno
sentados pensativos sobre a terra húmida
Era na infância o sol caía enquanto água corria
entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras
calcados prontamente pelas botas
soprava o vento e vinha a moinha da eira
o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira
e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores
Havia casamentos o meu pai falava
e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças
E os registos mistério tempo da prenhez
Era talvez no outono havia asma
havia a festa da azeitona havia os fritos
ao domingo havia os bêbados estendidos pelas ruas
havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia
Era a primavera o rio rápido subia
os barcos navegavam entre a vinha
e alastrava a sombra e a tarde adensava-se
num espesso e branco nevoeiro de algodão
noite dos candeeiros sombras nas paredes
e minha mãe pegava na espingarda ia à janela
e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe
O leovigildo o marcolino o sítio do miguel
a sesta a monda das mulheres
a queda do bizarro exposto na igreja
isso e o almoço a saber mal
quando vinham da escola pra saber significados
Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das
[viagens
Eram as festas era o roubo dos melões
era a menstruação oculta da criada
Era talvez em tempos de tormenta
havia ferros entre a palha por baixo da galinha
que chocava os ovos dentro de um velho cesto
eram as nossas casa em adobe
e era o carnaval os bailes os cortejos
Íamos para a praia e eu lia camilo
ouvia o mar bater sem conseguir compreender
como podia estar ali se tinha estado noutro sítio
Era o tempo dos primeiros amores
eu via o pavão adoecia e só muito mais tarde lia
o trecho que me competia entre as amadas raparigas
A casa não ficava muito longe dos montes
não havia a cidade nem os outros
punham ainda em causa o meu reino de deus
senhor de tudo o que depois não tive
Era depois da morte ou era antes da morte?
Mas haveria a morte verdadeiramente?
Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava
se tudo aquilo tinha acontecido
Era o meu pai era esse sonhador incorrigível
sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias
Eram as folhas novas eram os perdigotos
saídos não há muito ainda da casca
Era era tanta coisa
Seria realmente após a morte herberto helder
Ruy Belo, Obra Poética I, Editorial Presença, 1990.
6.8.08
Sobre um romance em início
construção meticulosa de um edifício, e, a existir, penso, não será regra. Regra, exigência é possuir uma enorme capacidade de trabalho e uma persistência de rocha. Robert Musil demorou mais de vinte anos com Um Homem sem Qualidades, e não viveu para o acabar. Não sei quanto tempo demorou Jorge de Sena com o também incompleto e admirável Sinais de Fogo, para que tinha um projecto de grande amplidão que a morte não deixou concluir. É certo que o tempo mudou, que tudo é mais breve e que os exemplos
que dei são extremos. Mas hoje estar sentado meses, não sei se mais de um ano, a escrever x horas por dia, quando não de atacado, é um feito. Com as excepções que sabemos do passado, por isso é que os autores só de poesia são em geral ociosos, sobretudo os contemporâneos, tão fácil é escrever duas dúzias de versos (que me perdoem a verdade). E mesmo a organização de um livro de poesia, para muitos o cabo dos trabalhos, e sou dos que concordam com isso, o que é essa organização face à disciplina, à força de vontade, à exigência para consigo próprio que a criação de um romance impõe? Impressionante abnegação e persistência, quantas vezes a entrega a uma vida paralela e irreal, com o mundo a cintilar no exterior. Oxalá o meu amigo não ouça as sereias que estão para lá da janela. Que corra as persianas, que se esqueça dos poemas, enquanto preenche as folhas tão longas que os romances têm quando ainda brancas.








