22.8.08
Eurípedes
18.8.08
© nd
12.8.08
Os critérios-consequência
10.8.08
Bolinhos & Pastéis
Roubei aqui estes bolinhos de bacalhau com tão bom aspecto. Os que comi no sábado ao almoço não eram tão bonitos, mas estavam bem feitos. Dispensaria o esparregado, a tolice vulgar do omnipresente arroz de feijão como acompanhamento de tudo, na imagem com arroz agulha em vez de carolino (por exemplo) e mandava o limão embora. Ficaria só a alface. Enfim, acabei por escolher feijão-frade frio com salsa e cebola picadas e uma alface parecida à da imagem.Falo disto, porque os bolinhos definiram na minha cabeça o motivo da aversão ao nome pastéis de bacalhau que não poucas vezes dão aos bolinhos do dito (seria um assunto para Helder Guégués). Pastéis são constituídos por uma massa cozida no forno (ou frita) e por um recheio salgado ou doce, como pastéis de massa tenra, pastéis de Tentúgal, de nata, de feijão e por aí fora. Pelo menos é o que os dicionários de português on-line rezam (a massa frita é acrescento meu). Ora todos nós já vimos fazer bolinhos de bacalhau: 1 kg de batatas reduzidas a puré, 0,8 kg de bacalhau bom desfiado, salsa picada, ovos q.b. para a massa ficar moldável. Formam-se com a ajuda de duas colheres de sopa e fritam-se em óleo bem quente. Quem quiser genuínos pastéis de bacalhau use esta massa como recheio, envolva-a em massa brick ou mesmo filo, e leve os pastéis ao forno até dourarem. A textura estaladiça exterior dará um toque de cozinha criativa ao almoço e protege a língua portuguesa de confusões.
9.8.08
Foi ontem, há trinta anos

Com a morte de Ruy Belo, um mês e meio depois da de Jorge de Sena e, muito antes, com a de Fernando Pessoa, formou-se e sobrevive a minha tríade de poetas portugueses do séc. XX. Ler aqui, onde se cita o poema abaixo.
VAT 69
Era depois da morte herberto helder
Ia fazer três anos que morrêramos
três anos dia a dia descontados no relógio
da torre que de sombra nos cobriu a infância:
rodas no adro — gira a borboleta que se atira ao ar
o jogo do berlinde o trinta e um pedradas
nas cabeças nos ninhos nas vidraças
Foi quando verdadeiramente começou
a conspiração dos líquenes cabelos e avencas
na mina onde molhámos nossos jovens pés
e tirámos retratos pra morrer mais uma vez
Os nossos filhos — nós outra vez crianças —
comiam e gostavam das laranjas essas mesmas laranjas
que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal
no quintal que as máximas mãos deixaram já depois
[abandonado
Era a seguir à morte meu poeta
era na meninice havia festa e na sala da entrada
pensávamos na morte — nunca mais — pela primeira vez
Trincávamos cheirávamos maças no muro sobre a praia
roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos
Era nas férias havia o mar e íamos à missa
ouvíamos a campainha e o padre voltava-se pra nós
—orate frates — ou íamos ao cemitério apesar do catitinha
Era depois da morte sobre a plana infância
o primeiro natal o cheiro do jornal
lido na adega ou na casa do forno
sentados pensativos sobre a terra húmida
Era na infância o sol caía enquanto água corria
entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras
calcados prontamente pelas botas
soprava o vento e vinha a moinha da eira
o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira
e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores
Havia casamentos o meu pai falava
e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças
E os registos mistério tempo da prenhez
Era talvez no outono havia asma
havia a festa da azeitona havia os fritos
ao domingo havia os bêbados estendidos pelas ruas
havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia
Era a primavera o rio rápido subia
os barcos navegavam entre a vinha
e alastrava a sombra e a tarde adensava-se
num espesso e branco nevoeiro de algodão
noite dos candeeiros sombras nas paredes
e minha mãe pegava na espingarda ia à janela
e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe
O leovigildo o marcolino o sítio do miguel
a sesta a monda das mulheres
a queda do bizarro exposto na igreja
isso e o almoço a saber mal
quando vinham da escola pra saber significados
Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das
[viagens
Eram as festas era o roubo dos melões
era a menstruação oculta da criada
Era talvez em tempos de tormenta
havia ferros entre a palha por baixo da galinha
que chocava os ovos dentro de um velho cesto
eram as nossas casa em adobe
e era o carnaval os bailes os cortejos
Íamos para a praia e eu lia camilo
ouvia o mar bater sem conseguir compreender
como podia estar ali se tinha estado noutro sítio
Era o tempo dos primeiros amores
eu via o pavão adoecia e só muito mais tarde lia
o trecho que me competia entre as amadas raparigas
A casa não ficava muito longe dos montes
não havia a cidade nem os outros
punham ainda em causa o meu reino de deus
senhor de tudo o que depois não tive
Era depois da morte ou era antes da morte?
Mas haveria a morte verdadeiramente?
Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava
se tudo aquilo tinha acontecido
Era o meu pai era esse sonhador incorrigível
sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias
Eram as folhas novas eram os perdigotos
saídos não há muito ainda da casca
Era era tanta coisa
Seria realmente após a morte herberto helder
Ruy Belo, Obra Poética I, Editorial Presença, 1990.
6.8.08
Sobre um romance em início
construção meticulosa de um edifício, e, a existir, penso, não será regra. Regra, exigência é possuir uma enorme capacidade de trabalho e uma persistência de rocha. Robert Musil demorou mais de vinte anos com Um Homem sem Qualidades, e não viveu para o acabar. Não sei quanto tempo demorou Jorge de Sena com o também incompleto e admirável Sinais de Fogo, para que tinha um projecto de grande amplidão que a morte não deixou concluir. É certo que o tempo mudou, que tudo é mais breve e que os exemplos
que dei são extremos. Mas hoje estar sentado meses, não sei se mais de um ano, a escrever x horas por dia, quando não de atacado, é um feito. Com as excepções que sabemos do passado, por isso é que os autores só de poesia são em geral ociosos, sobretudo os contemporâneos, tão fácil é escrever duas dúzias de versos (que me perdoem a verdade). E mesmo a organização de um livro de poesia, para muitos o cabo dos trabalhos, e sou dos que concordam com isso, o que é essa organização face à disciplina, à força de vontade, à exigência para consigo próprio que a criação de um romance impõe? Impressionante abnegação e persistência, quantas vezes a entrega a uma vida paralela e irreal, com o mundo a cintilar no exterior. Oxalá o meu amigo não ouça as sereias que estão para lá da janela. Que corra as persianas, que se esqueça dos poemas, enquanto preenche as folhas tão longas que os romances têm quando ainda brancas. 3.8.08
de (O) Réquiem
31.7.08
É pelos livros arderem mal que

Coimbra. Se O.M.S. pegasse no carro para ir a Salamanca, à Cervantes, e andasse 650 km, ida e volta, talvez poupasse em arrelias o que não pouparia em dinheiro. Mesmo assim, eu telefonaria antes, que o mundo está a mudar até nos redutos
mais inesperados. São coisas da democrácia, como por lá pronunciam o malévolo conceito: tu votas, mas comerás sempre o que a gente te der; és livre de expressão, mas não podes ser culto, porque então a tua liberdade acaba onde a nossa começar. Compra e sê feliz a comprar, porém desconfia sempre do que sai pouco e pouco se vê.
E orgulha-te, porque é a partir de ti, cidadão da maioria silenciosa, que educamos meticulosamente as gerações futuras. Os livros ardem bem é em hipermercados e outras grandes superfícies. Ar, ar, ar! gritemos todos AR! para que ardam melhor ainda e se esgotem sem cansaço nesses passeios públicos de sábado. Nos lugares alternativos, o que há é fungos, e compete aos governos democráticos legislar sobre a matéria, que é de saúde pública.29.7.08
28.7.08
Às vezes, arranjamos um dia para nos sentarmos à mesa, sob a figueira. Repartimos como antigamente a carne, o vinho, o pão, a frescura sumarenta dos pêssegos, e fingimos viver sem cuidados. Ao longe, as cidades ardem, a multidão nas ruas, a morte nos guetos, os poderosos em seus prédios altíssimos, guardados por tanques e polícia. E, quando nos levantamos, vemos a mesma miúda a fitar-nos, fugida das cidades, os olhos opacos de futuro. Não têm uma boneca que possa chamar-se Matilde? — pergunta-nos sempre.
© nd
27.7.08
© nd
26.7.08
Pietà

O monge tinha fé e por isso imolou-se no fogo e, como ele, tantos ao longo da corrente do tempo, desde a eclosão das divindades. Dir-se-ia que vêm ao mundo só para morrer assim. No entanto, esse destino não existia, nada está decidido, o fim é, todo ele, uma síntese de cruzamentos e, em última análise, o fruto que a mãe, sem saber, pousa no reverso da alegria.
© nd
24.7.08
Adolescente ainda, as palavras eram sons que me levavam de fulgor em fulgor, de febre em febre: escrevia como olhava o mar, imaginando cidades na margem invisível do horizonte. Escrevia pela ânsia de viver, pela luz em que julgava ir tornar-me. Há muito que essa luz se apagou e que não escrevo assim. Nem já para fingir viver. Foi longo o caminho de aprendizagem, e trago comigo as personagens que ficaram em mim e que fui encontrando nestes livros todos. Vivemos juntos e sonhamos juntos enquanto durmo. Sem elas eu não existia. O que escrevo, em sua maior parte, não me pertence. Pertence-lhes. E hoje escrevo para resistir, para que nenhuma delas morra senão quando eu morrer.
© nd
23.7.08
Fresco de Pompeia, séc. I (d.C.), Museu Nacional de Arqueologia, Nápoles.
Se entrasses pela porta de um filme de Antonioni, todos olhariam o enigma do teu rosto. Não o saberiam ler, no entanto haviam de ansiar dissolver-se nele como se, de repente, fosse a vida que nunca tocaram, o espelho de um vislumbre perfeito. A mim, que te vejo tantas vezes, sucedeu um dia não me bastar essa imagem, ter de ir buscar outra muito mais distante, e hoje és também a mulher do fresco de Pompeia.
© nd
21.7.08
Criança numa cadeira com a mãe, pintura em vaso grego do séc. V a.C.
19.7.08
13.7.08
Compras

Post scriptum do post: a raposa de Esopo não anda por estes lados.




11.7.08
10.7.08
As Sete Partidas Lusitanas
uel Alegre, sem despender um cêntimo. Talvez vá à FNAC e me sente a folhear o poema de onze poemas. Não me passaria tal coisa pela cabeça, se não suspeitasse de que o infante D. Pedro pode ser, para Manuel Alegre, o que Virgilio foi para Dante. Nem menos, depois de ter medido e medir Camões e Pessoa. Ver aqui a amável recensão que Y. K. Centeno fez do livro. E ler os versos que lá estão, alguns deles heróicos, no sentido métrico e no sentido epopeico, e doutos. O certo é que ninguém pode exigir lucidez a ninguém. Cada um tem de se bastar com a sua (se a tiver).FÉRIAS AO VENTO
Seria um sacrilégio dirigir-lhe a palavra.
Com as alpercatas a pisar a erva, cedei-lhe passagem no caminho. Talvez tenhais a sorte de distinguir sobre os seus lábios a quimera da humidade da Noite?
"Sozinhos permanecem" (1938-44), in Furor e Mistério (nota da tradutora).
Em René Char Este Fanático das Nuvens, antologia organizada por Marie-Claude Char e Y. K. Centeno, tradução de Y. K. Centeno, Edições Cotovia, 1995.
9.7.08
Os Atávicos

8.7.08
5.7.08
Empadas romanas do tempo de o Pacífico
Em Arte de Cozinha, de Domingos Rodrigues, Imprensa Nacional, 1987.
Nota: Domingos Rodrigues foi mestre de cozinha da Casa Real, no reinado de Pedro II, o Pacífico (1683-1709).
3.7.08
Ugetsu Monogatari (Contos da Lua Vaga) , 1954, Mizoguchi .
Ninguém me perguntou quais são os meus filmes preferidos, uma pergunta de inquéritos juvenis. Lê-se em muitas entrevistas de adultos, quando o entrevistador não tem nada para perguntar. Mesmo assim, irei respondendo. Sem nenhuma ordem.
2.7.08
O engenheiro

Era o que nos faltava para irmos “cantando e rindo” pelo cano abaixo. O inominável kitsch. A desmesura de quem chega de engenheiro técnico, com a assinatura de construções menos que chapa 7, a primeiro-ministro de um país de opereta.
e os doutores

Para retorquir ao Dr. Vital Moreira, que aqui e no Público virou economista de serviço, a Dr.ª Manuela Ferreira Leite podia muito bem mandar avançar a Dr.ª Zita Seabra. Talvez os dois se engalfinhassem por razões conhecidas de todos.
30.6.08
27.6.08
Um poema de Adair Carvalhais Júnior
Disse-lhe um dia que a poesia dele tinha muito da música erudita do nosso tempo, pelo carácter muitas vezes atonal, que a dureza do seu ritmo poético tão próprio reitera . Aqui o deixo e também aqui.
26.6.08
Um elixir de longa vida?
Este blogue nunca conheceu o trânsito dos quatro anteriores que tive. Se os cães envelhecem sete anos por apenas um do homo sapiens, os bloguistas envelhecem aí uns quarenta, de modo que, ao fim de seis anos na blogosfera, me tornei numa espécie de fóssil, e os fósseis da blogo, como dizem nuestros vicinos, acabam por ser vítimas da sua própria condição.
Daí até o contador registar só uma visita diária nos últimos meses foi um saltinho lógico e um recorde
imbatível, porque o contador também me regista a mim. No entanto, um blogue não é um armazém de palavras, que foi o que me apeteceu fazer deste até ontem, até aos meus duzentos e quarenta anos que tinha ontem.Veremos se o meu elixir funciona: um blogue vive para os outros e para o dono dele nos dos outros, não interessam aqui números e qualidades. Cada um come do que gosta e quanto lhe apetece, segundo o tempo e o tipo de exigências, não pensando eu nas impossibilidades de toda a ordem que nos assaltam hoje, mais as que a previsibilidade aponta para amanhã.
24.6.08
o seu poder oculto
naqueles que se entregam para sempre
à sua protecção materna
depois de o amor ter ambos serenado.
“Não há nada mais belo”, ouço dizer,
“do que um casal assim, a passear
nas veredas de um shopping.”
A história das colmeias, a rainha
e os zângãos sem mais préstimo, digo eu,
e penso na excepção:
uma mulher e um homem
à beira-mar, unidos pela música.
© nd
9.3.08
27.2.08
Fernando Pessoa
para o céu destes dias, ele morto
e apagados os trilhos de Lisboa.
Não sei se alguém
lhe sente ainda os passos,
dos velhos escritórios
ao delitro e aos poemas
no fim do dia
ou na falta que o vinho lhe fazia.
Um homem de bigode antigo e magro,
com óculos redondos
e elegante de mais na pose,
é útil não somente a Almada.
Suponho que o imagine desse modo
quem o não sinta
uma voz em excesso na cidade,
a multidão que ele nunca foi
e o estilhaçou em vários,
e destes um,
o ortónimo sem vida diferente
do Esteves do poema.
"Os génios não têm biografia",
a não ser umas quantas fotos
que dizem vagamente nada,
já a mão breve
vai dispensando os versos
que eram seus para serem só
de livros em estantes abstractas.
© nd
18.2.08
16.2.08
10.2.08
A poesia na era dos replicants
Se da mediocridade ao talento vai uma distância grande; se do talento à genialidade vai uma distância maior; se a importância social da poesia é cada vez mais invisível na sociedade neoliberal, podemos medir o esbracejar de aspirantes a esta arte com alguma distância sincera e olhá-los como uma espécie de acrobatas num aquário redondo, tão mais circences quanto mais exigem aplausos dos outros, não interessa a qualidade de quem chegam.
Não falo da juventude contemporânea que emerge e em que descobrimos valor e para a qual, por isso mesmo, não há reconhecimento e apoio. Embora hoje a poesia não dê de comer a quem a escreve, é preciso à mesma ter-se patronos. Não se comem migalhas da mesa feudal, mas come-se o que há de um feudo sem terra nem água: devora-se, sem modos, um brilho social que não existe senão na cabeça dos comensais da parquíssima mesa. E se a juventude com talento não aceita esse caminho e inicia o seu próprio – que não é mais que isso mesmo -, a outra toda irá envelhecendo sem amargura e sem dar conta da indiferença e da estranheza que a sociedade lhe dedica. E é ver-se, ao lado dela, gente de gerações anteriores esticar igualmente a mão. Como se alguém na mesa a visse e fosse aceitar essa concupiscência absurda.
A poesia, que esta falta de lucidez não demove do seu caminho (mas encurta-o), será cada vez mais uma excrescência no meio do cálculo dos computadores e um bem, às vezes amargo, para os que, com ela, têm necessidade honesta de testemunhar-se a si mesmos no seu tempo. E é por seres humanos assim que a poesia sobrevive, escrita, desde Gilgamesh e, cantada, de muito antes. Amada hoje por uma minoria relativa talvez mais estreita, mas sempre tenaz, sobreviverá na ditadura dos números como uma actividade inútil de seres cada vez mais esquisitos. Basta pensarmos nos (des)caminhos da Cultura no seio do Ensino e na evolução da economia neoliberal feroz, que aquele serve como uma fábrica de replicants.
26.1.08
13.1.08
8.1.08
Um soneto de Louise Labé (Lyon, 1525-1566)
Retrato de Louise Labé. Água tinta de Guidu Antonietti di Cinarca (a partir de uma gravura de Pierre Woeiriot, 1555, nota minha.)Ó belos olhos, ó cílios descidos,
ó suspiros, ó lágrimas choradas,
ó negras noites em vão tão esperadas,
ó dias vãos em vão tão repetidos!
Ó tristes prantos, ó tempos perdidos,
ó desejos, ó penas sufocadas,
ó mil mortes em redes enlaçadas,
ó males pra meu mal acontecidos!
Ó riso, ó fronte, ó braços, mãos e dedos!
ó alaúde, ó viola dos enredos:
archotes sois para uma fêmea a arder!
De ti me queixo, que tais fogos tendo,
só a mim afinal deixas ardendo,
sem faúlha nenhuma te atingir!
6.1.08
A Poesia Não Há-de Morrer
na blogosfera e nela se mantém. Pensei em analisar a estreia de Paulo Tavares em livro, como indicador do que poderá vir a ser a sua futura obra poética. Isto porque, felizmente, a organização do livro não obedece às normas quase programáticas de abordar um só tema, que vi em alguns livros de poetas da sua geração ou vizinhos dela. Paulo Tavares não seguiu esse caminho, e colher-se-ão as razões disso no antepenúltimo poema de Pêndulo, O Palco dos Dez Mil Poetas, que poderia ser o primeiro, o que, convenhamos, daria um tom provocatório que o livro não tem, nem o poema, afinal, se atentarmos no seu remate, um acto de esperança: “[(...)e se no final formos vencidos pela vida / pois que cantemos a saudade ou rebentemos os miolos / para outros mais jovens nos tomarem o lugar]”. Continua aqui.30.12.07
21.12.07
19.12.07
13.12.07
9.12.07
6.12.07
2.12.07
13.11.07
Anotações #2
© nd
8.11.07
Anotações #1
Sei de alguém que atropelou um arrumador de carros para sair do mundo, continuou. Queria ser preso e foi dado como inimputável. Pouco depois suicidar-se-ia.
O cárcere e a inanição são em tudo semelhantes a um suicídio frustrado, por o desespero não ter sido suficientemente fundo. Esse grau de insuficiência, que impede o suicídio de facto, está ligado, como o medo, a alguma esperança remanescente. O que atropelara o arrumador não só vencera o medo, como não devia ter esperança nenhuma.
© nd
7.1.07
Pêndulo, de Paulo Tavares
Paulo Tavares consegue em Pêndulo uma unidade coleante e, mais que isso, e a meu ver mais importante num livro inicial, a afirmação dos seus temas poéticos, que isolei em três grandes grupos, de forma incompleta e, na aparência, algo redutora, tanto que dos cinquenta poemas que compõem o livro, só quarenta e um me parece caberem nestes grupos.O tempo, quer como abstração (no poema Pêndulo, um pouco também no poema Sonora Apatia), quer como relação, seja passado, presente ou futuro, nos poemas em que se entrecruza com os assuntos que o definem: Chuva de Verão, Tela Mágica, Criaturas de Zinco, Vozes Convulsas, Bordel, Os Grilos, Luzes Dispersas, Do Tempo Antigo, Tejo, Superfícies, Cerejeiras em Flor, Antes, O Pescador, Cicatriz.
A inadequação do real – muitas vezes descrito como abjecção suja, lixo – a si mesmo, aos seus anseios, sendo frequente a esperança como saída, ou intenção e rumo de vida como no poema de abertura Quando Cresci, em Estio, Allegro, Promessa. Cabem também neste grande tema da inadequação O Domador de Feras, Pela Manhã, Bonecos de Plasticina, O Rasto da Madrugada, Ferro sobre Ferro, Setembro, Sol, O Jogo dos Vivos, Rua Sésamo, Insustentável, Antes, O Palco dos Dez Mil Poetas.
Disse inadequação. Com mais ligeireza teria empregue o termo inadaptação. O que se passa é que o poeta não é inadaptado. Porquê? Porque recusa a sociedade em que vive e aspira a um mundo onde caiba, que possa adequá-lo a si mesmo e à sua visão dos outros. A diferença é tão grande que inadaptação tem um carácter negativo, de amorfismo, enquanto a inadequação, neste caso, é positiva, porque é um motivo de recusa, e o estado individual de recusa, sendo hoje o único possível nas circunstâncias do meio, é também uma semente que germinará com as outras, não sabemos quando. E a recusa, formulada na poesia de Paulo Tavares, é a dignidade da resistência ao meio que perpassa em alguma da poesia de hoje mais recente. Posto este esclarecimento, voltemos à taxinomia em que me meti.
O amor é terceiro grande tema, menos presente do que os antecedentes, atravessado com frequência pelo anterior, o da inadequação, e em geral abordado muito contidamente. A Caverna das Noites sem Fim,, Acredito, Anestesia, Theory of Everything, Queda no Abismo, A Tempestade, Poema Inicial, O Sabor dos Lábios, Theory of Everything II.
Desta arrumação, sobram nove poemas. Três não sei como classificá-los, porque, além de muito pequenos, não consigo em mim inteligibilidade para eles, a inteligibilidade que os outros quarenta e sete poemas permitem facilmente. Refiro-me a Se Eu Pudesse Apenas, De Tão Luminoso e Palavra de Honra. E se entram ou não a contrapelo dos restantes, isso é outro assunto, e um assunto menor no geral do livro.
Dos seis que ficam, dois são descrições poéticas do olhar, O Rapaz da Pandeireta e A Cidade Magnética; Miragem de Estilhaços é uma descrição introspectiva (com um saborosíssimo atrevimento sintáctico, que tem algo de concrectista); outro, Nas Árvores, refere-se à protecção da capacidade de sonhar, com algo de ficção científica, ficção onde outro poema, Nebulosas, vai beber para gravar uma relação de desencanto.
O último poema, Teorizar Magnólias é claramente um poema de fecho, de carácter metafórico e de poética.
Mas estas classificações nunca poderiam ser estanques entre si e apenas servem para melhor avaliarmos a riqueza temática de Paulo Tavares. Nem tudo fica dito. Poderíamos subdividir o primeiro tema, o tempo, em subtemas, como a morte, em Bordel, Os Grilos, Tejo (que no poema me parece o Letes), a infância, etc. E os outros, do mesmo modo. Seria fastidioso ir mais longe. E o que escrevi basta para imaginar a amplidão temática.
De versos largos a versos mais curtos, com eles surpreendeu, entre outros, no poema de abertura Quando Cresci; no poema de grande hausto Do Tempo Antigo “- gente morta antes de morrer que gastou os dias / a esconder as mãos com frio do destino. // Quiseram ser isto ou aquilo / - mudar o mundo – e perderam-se nestas ruas / a fragmentar as pedras, a tentar criar pele e carne / para os seus esqueletos nus.”; no Anastesia, em que surgem versos tão fundos como estes, que nos sangram, mudando o “Transforma-se o amador na coisa amada” de Camões numa espécie de maldição do nosso tempo – e assim suscitando a revolta por nos irem levando o que a vida tem de bom -: “(...) beijaram-se / os dois / no confronto da noite /com uma paixão maior do que a força das navalhas / e depois de brindarem ao desespero / penetraram os destroços / abraçaram as sombras // renasceram anestesiados / na aflição contrária.”; na Tristeza Maligna; o desoladíssimo Ferro sobre Ferro, de uma beleza pungente e a mestria destes versos: ”(...) e eu olho este desinteressante corroer de almas /que friccionam os corpos dia após dia após dia”, imitando a cadência do comboio em que o poema se passa; O Sabor dos Lábios; o fascínio do poema Os Pescadores, e outros, peco por omissão.
Um livro que me apressei a comprar e que veio confirmar o que eu já sabia: a qualidade poética de Paulo Tavares, Astrophil na blogosfera.
Quando descobri este poeta num blogue, há anos já, recordo-me da alegria que tive. É que, nascido em 1977, representou para mim a certeza de que a poesia não morreria, que poderia viver por muitos anos fora do espectáculo mercantil da nossa Betesga literária e da vulgaridade de palavras e métodos de que ela se alimenta e vive.












