
Quando me disseram, com superioridade parva, que Medina Carreira era sempre assim, respondi:
― Felizmente. O nosso mal é o sempre assado que lixa o sempre cozido.
― Felizmente. O nosso mal é o sempre assado que lixa o sempre cozido.

deixei de pensar que o fazia, objectivamente, por excesso de auto-estima, por atitude de pose levada ao extremo, tornando-se, de ricochete, uma forma eficaz de promoção própria. Agora, aos 78 anos, parece colher os frutos da clausura, não sei se por a vida ser curta. Chama-se a isto borrar a pintura ou raspar o palimpsesto patético em que se tornou. Ou ainda acabar mal, se bem tivesse começado. O Prémio Pessoa recusado em 1994 evidencia a contradição em que agora se meteu, com este barulho no mercado livreiro. Depois de A Faca não Corta o Fogo, o Ofício Cantante, um a seguir ao outro. Se houvesse anjos, todos eles teriam pés de barro ― há homens e os seus pés, o que vai dar ao mesmo.
marcha, passava pouco das nove da noite, mas não escutaria a obra toda. Não a conhecia. Agora tenho de ir por ela. Uma obra-prima de grande fôlego, monumental, do nosso tempo, bebendo na memória da música, uma leve ressonância de Mozart e inesperados mergulhos no passado remoto de sinos e cantochões. A primeira audição da obra, encomendada a Messiaen pela Gulbenkian, foi no Coliseu de Lisboa, em 1969. Levou cerca de quatro anos a compor, de 1965 a 1969. A direcção da versão que escutei é a que me dizem ser a que melhor traduz o compositor. Foi Reinbert de Leeuw quem conduziu o Coro da Rádio Flamenga e o Coro e a Orquestra Filarmonica da Rádio Holandesa. Dois coros. Cem vozes. Impressionante .
Cópia da aguarela de Audubon O Falcão a Atacar Perdizes, 1827

vizinho blogger por ali, seria uma boa altura para nos conhecermos. Mas como? Somos todos estranhos, mesmo numa cidade de província como esta (caberiam umas duzentas em Londres). Lembramo-nos da rapariguinha do shopping, mas não sabemos nada dela, lembramo-nos do homem da farmácia ou do café, mas nem pensamos onde moram, vemos a velha das minha rua que dormia com o seu galo e não sabemos como ela, ano após ano, resiste a tanta porcaria imaginada. Sucede é que nos organizamos em pequenas células cada vez mais estanques, com as mes
mas caras, com os mesmos cenários, com as mesmas rotas urbanas, e os nossos semblantes assemelham-se a escudos anti-invasão. E acabamos por nos libertar quando saímos rumo a qualquer ponto cardeal, o rosto já aberto ao dos outros. Porquê? Porque são de longe. Apesar de ler o meu vizinho através de um qualquer centro de dados da Google na Europa, o meu vizinho
continua perto. E, no entanto, estou seguro de que seria agradável debulharmos juntos as melhores castanhas do país e falarmos, beberricando daquela jeropiga. Não é a internet que cria a solidão. É a liquidação, no quotidiano, do homem como ser gregário, a sua divisão e compartimentação em pequenas e inofensivas células urbanas. Inofensivas, desconfiadas e sem voz. Mas, neste ponto, a história das castanhas e do meu vizinho blogger já deveria ter acabado. 