15.1.09

Clique
























(e. e. cummings)

Aqui, aqui (ler comentários), e aqui não desista, leia tudo. E se escreve poemas só com minúsculas como e.e. cummings (1894-1964) ou como valter hugo mãe (1971), portanto nascido setenta e cinco anos depois, e sete a seguir à morte do poeta que tinha, além de outras, aquela atitude estética então de vanguarda, de coisa nova com o seus custos, se está neste caso das minúsculas não se enerve, leia até final. É de outro assunto que se trata, embora com poesia pelo meio.

14.1.09

Finalmente














D. Policarpo, ao fim de seis séculos, ergue-se contra Mafoma. D. João, O da Boa Memória, estremece no seu frio sono.

13.1.09

O assim, o assado e o cozido










Quando me disseram, com superioridade parva, que Medina Carreira era sempre assim, respondi:

― Felizmente. O nosso mal é o sempre assado que lixa o sempre cozido.

12.1.09

Os pés de HH


De repente o monge saiu à rua. Desde que Herberto Helder se isolou, nunca deixei de pensar que o fazia, objectivamente, por excesso de auto-estima, por atitude de pose levada ao extremo, tornando-se, de ricochete, uma forma eficaz de promoção própria. Agora, aos 78 anos, parece colher os frutos da clausura, não sei se por a vida ser curta. Chama-se a isto borrar a pintura ou raspar o palimpsesto patético em que se tornou. Ou ainda acabar mal, se bem tivesse começado. O Prémio Pessoa recusado em 1994 evidencia a contradição em que agora se meteu, com este barulho no mercado livreiro. Depois de A Faca não Corta o Fogo, o Ofício Cantante, um a seguir ao outro. Se houvesse anjos, todos eles teriam pés de barro ― há homens e os seus pés, o que vai dar ao mesmo.

Imagem recolhida aqui.

1.1.09

Virtual(h)idades

Houve um tempo em que andei cansado das palavras, porém não tanto nem tão longamente como aqui. Abri nessa altura uma espécie de restaurante na blogo, em que eu era o chefe e único trabalhador. De vez em quando escrevia uns versos, mas acho que o resto me sabia então melhor. Os meus clientes eram gente que, penso, não queria saber de poesia para nada, tal como 99,8% das pessoas destes país. E mesmo esses 0,2% remanescentes ainda me parecem muito. É que a percentagem traduzida em números dá 20.000 almas. Metade estou certo de que preferiria o bife que lhes deixo a ouvir pela primeira vez a Canção X de Camões, dita por Luís Miguel Cintra. O restaurante fechou porque a crise chegou ao fim, ao contrário de hoje, em que os restaurantes da real fecham porque a crise entrou por eles dentro.

30.12.08

A grandeza não se esquece


Ontem à noite, de regresso à cidade, na Antena 2, Grande Auditório, Olivier Messiaen (1908-1992). La Transfiguration de Notre Seigneur Jésus-Christ. Retardei a marcha, passava pouco das nove da noite, mas não escutaria a obra toda. Não a conhecia. Agora tenho de ir por ela. Uma obra-prima de grande fôlego, monumental, do nosso tempo, bebendo na memória da música, uma leve ressonância de Mozart e inesperados mergulhos no passado remoto de sinos e cantochões. A primeira audição da obra, encomendada a Messiaen pela Gulbenkian, foi no Coliseu de Lisboa, em 1969. Levou cerca de quatro anos a compor, de 1965 a 1969. A direcção da versão que escutei é a que me dizem ser a que melhor traduz o compositor. Foi Reinbert de Leeuw quem conduziu o Coro da Rádio Flamenga e o Coro e a Orquestra Filarmonica da Rádio Holandesa. Dois coros. Cem vozes. Impressionante .

28.12.08

Afinidades electivas




Eu diria que é o poeta do ano e da nação. Veja-se só o olhar dele a perscrustar-nos o além-alma, como diria Mário de Sá-Carneiro - o além-alma lusitano, digo eu. Camões, Garrett, Pessoa, e Manuel Alegre directo, no TGV, sem parar em mais nenhum nome.

(...)Triolets, villanelles, rondels, rondeaus,

Seeds in a dry pod, tick, tick, tick,

Tick, tick, tick, what little iambics,
While Homer and Whitman roared in the pines.
Edgar Lee Masters, in Spoon River Antology

Quanto ao engenheiro de aviário, saiu-nos um Perón de pechisbeque, e a Evita dele só pode ser a ministra malfadada. Como a maioria silenciosa é burra, vamos gramá-lo mais quatro anos.

Isto foi, em parte, o que o hmfb apontou. Temos ainda, acrescento eu, o herói internacional do ano, Muntader al-Zaidi, e a agilidade do grande inimputável, que muitos apoiaram e agora se apressam a sacudir dos ombros, como na anedota: Xô! bicho de um cabrão, onde houveras de poisar!

De resto, está tudo bem, salvo o tempo de hoje e o que os meteorologistas da crise nos prometem para os anos que aí vêm.

23.12.08

Boas festas


Tríptico de pintor anónimo, Etiópia, finais do séc. XVII, têmpera sobre madeira.

22.12.08

Historieta para Uma Pessoa que não Gosta de Perdizes


Cópia da aguarela de Audubon O Falcão a Atacar Perdizes, 1827

Era uma vez uma avestruz e uma perdiz. Um dia em que chovia se Deus a dava, o mesmo é dizer que chovia a potes, um dia ambas resolveram ir até Mondim, a perdiz montada na avestruz. A avestruz parecia mais um cavalo de duas patas a correr pela serra abaixo, com a perdigota em cima. Galoparam, galoparam, até que chegaram ao destino, e aí não chovia, estava um sol de Agosto, e viram uma dama magrinha à janela a chorar tanto como chovia na terra de ambas.

A avestruz parou, compadecida, e perguntou à dama magrinha e desgostosa:

― Porque choras tanto?
― Oh, não digo, a ti não digo! ― exclamou entre soluços.
― Mas diz, talvez eu possa dar remédio a tamanha tristeza.

Porém, a dama magrinha calava-se e chorava como chovia na terra das outras duas. E assim estiveram vai, não vai, diz, não digo, até que o senhor abade passou ali e parou diante da cena de uma tristeza bucólica mais própria de éclogas que de prosa.

― Porque choras? ― perguntou o padre. ― E que está aqui a fazer uma perdiz a cavalo numa avestruz? Fugiram de algum circo?

A dama magrinha nem teve tempo de responder. A perdiz, ao ouvir tamanho insulto (e muito maior será se pensarmos que é uma ave livre), a perdiz lançou-se como um toiro contra o cura, que tentou enfrentá-la e depois não teve outro remédio senão fugir aos gritos:

―Vade retro, Satanás! Vade retro! Excomungo-te para sempre!

O certo é que a dama magrinha deixara de chorar e ria tanto, tanto que os seus olhos pareciam duas estrelas de luz.

― De que te ris agora? ― perguntou a avestruz, apalermada. Não percebia nada, porque era grande como um cavalo e tinha o cérebro mais pequeno do que uma avelã, aliás como todas as avestruzes.

― Uma pessoa só se ri do mal, mas foi castigo de Deus ― disse a dama. ― Enquanto as confissões foram frequentes, a penitência era sempre a mesma: perdiz! O pecador devia trazer-lhe uma, duas ou três perdizes, consoante o peso da absolvição das suas culpas.

Moral da história, que são três, como as perdizes do confessionário:

Primeira: não há sol que sempre dure nem noite que nunca acabe.
Segunda: o mal que se faz paga-se e não se paga neste mundo.
Terceira e última: as aves não se medem aos palmos e a história passou-se no tempo em que a caça abundava e os homens pareciam um nada mais parvos.

© nd

14.12.08

Saldos


Ilustração de O Livro das Maravilhas, de Marco Polo.

Por aqui, quero dizer, nesta cidade afogada entre serras geladas, há livros em saldo até à véspera de Natal, uma loja alugada pela minha livraria só para isso. Livros aos montes, separados por preços, cada lugar o seu preço. Desde um euro até quinze e mais. Dava para supor que os tivessem comprado a quilo, como sobejos de roupa de fábrica. As editoras são variadas e tanto que se poderia também julgar que, em vez de compras a quilo, eram restos de prateleiras que não se tinham aguentado na primeira maré do dilúvio que aí vem. Mas não. Era já o grupo Leya a tratar os livros como as sapatarias o calçado. No entanto, se é um acaso haver em saldos sapatos de qualidade, o mesmo já se não passa com os livros, felizmente. Alegremo-nos também portanto.

Gastei trinta e seis euros, depois de tudo mais ou menos vasculhado. O que trouxe:

A um euro:

Cartas de Amor de Anna Connover e Mollie Bidwell para José Maria Eça de Queiroz, Cônsul de Portugal em Havana (1873-1874).

A cinco euros (vi algum Pessoa publicado pela Assírio a esse preço):

Estudos de Literatura Portuguesa I, II e III, de Jorge de Sena, de que tinha apenas o volume III, e mesmo assim repeti-o (diziam-me estarem esgotados os outros volumes, o que em relação ao volume II se constata ter sido verdade: o que trouxe é em segunda edição).
O Cardo e a Rosa, Poesia do Barroco Alemão, selecção, tradução e prefácio de João Barrento.
Carta do Preste João das Índias, versões latinas medievais, organização, prefácio e notas de Manuel João Ramos, tradução de Leonor Buescu, com ilustrações medievas a cores, como a do topo.
A noite Dividida, de Sebastião Alba.
Do Cancioneiro de Amigo, de Stephen Reckert e José Macedo.

Entretanto, abri à sorte e por curiosidade um livro de Rosa Lobato Faria, e à quinta ou sexta linha fiquei enjoado com a espécie de português que li. Não, não há índices expurgatórios. Pelo contrário. Há o marketing que faz oportunidades excelentes de coisas que não prestam. E é para quem quer.

À saída, estava A Viagem do Elefante, de Saramago, lado a lado com uma publicação qualquer de José Rodrigues dos Santos.

Atrás de mim, uma multidão de desconhecidos mortos. Era um bom sítio para juntar em meditação quem escreve. Mas ainda era capaz de se ouvir um coro: olhem onde vieram parar Pessoa e Sena. Vida só há uma, e esses não sabiam nada de merchandising. Glória a José Rodrigues dos Santos, que está ali à porta ao lado do comuna do Saramago.

13.12.08

O Reino da (*)

O C. foi meu colega de curso e tinha a particularidade de falar compenetradamente e em voz muito baixa, sem acabar as frases, deixando-me um confuso sentido suspenso na cabeça, coisa que eu tomei por profundidade enquanto ingénuo. Se então tudo me espantava, o que era mau, hoje nada me espanta, o que é pior. Quando perdi essa espécie de virgindade, cheguei à conclusão de que o C. era uma pessoa que fantasiava uma imagem virtual de si mesmo. Pensava rodear-se assim de uma aura de superioridade e inteligência que não tinha.

Vem isto a propósito de certos bloggers que escrevem, fingindo sentidos ocultos, misteriosos, em busca de uma qualquer polissemia casual. Também não acabam as frases e muitas vezes não fazem ideia sequer do que escrevem. Desconhecem é que em escrita tudo se nota. Sabem porém que há muita gente que lhes aprova a profundidade com medo de parecer ridícula, e sentem-se não só respaldados por ela, mas também seres seus superiores.

(*) Não é uma adivinha. Consulte a bibliografia de Jorge de Sena.

1.12.08

Tatiana


De Le Amiche, de Antonioni, 1955, adaptado de Tra Donne Sole.

Tatiana lembra-me as personagens femininas de Pavese. Só porque exerce sobre mim uma curiosidade melancólica que não satisfarei, tal como as de La Spiaggia, de La Bella Estate ou de Tra Donne Sole não satifariam Pavese, e talvez também por essa razão as tenha criado.

20.11.08

Caridadezinha outra vez




















Desenho de Arthur Rackham, 1907

O presidente da câmara desta cidade, onde vivo exilado por força dos meus erros e suas consequências, disse hoje à TSF que vai abrir aqui um restaurante social. De repente, vi-o empresário como o da Byblos e só depois é que percebi que a casa não era dele, mas dos contribuintes do concelho e da Misericórdia. Um restaurante para que 120 vítimas da crise que não causaram pudessem ter, nesta cidade, uma refeição por dia. Como os cães.

19.11.08

Como de uma coisa se vai para outra
ou o subconsciente não sei se colectivo


Dá-me um gozo grande escrever rimances para putos como o aí em baixo.

Primeiro, porque devia ter jeito para fadista de desgarradas, não fosse a minha voz ser ajustada apenas para escrever no teclado, como dizia o outro. É que nem para ler os meus próprios versos dá e, se os leio para os rever, é baixinho. Portanto um dos gozos de escrever esses rimances é desgranar, como de espigas, quadras certinhas na métrica e na rima, daí o fadista de desgarradas que poderia ser, tivesse eu outra voz. Seria O FADISTA PARNASIANO.

Depois, porque o grande, o maior dos gozos, é voltar a ser puto enquanto escrevo tais rimas, coisa que nem o Sócrates será capaz de me tirar, mesmo se as fronteiras da CE fecharem com a crise e a Berlenga Grande passar a ser a antiga Ilha do Sal.

A imagem foi encontrada no Google e pertencerá ao blogue nela escrito.

17.11.08

Do urbano


Ontem comi castanhas de Sernancelhe, acompanhadas de uma bela jeropiga, parecia vinho rosé na cor, muito límpida, espessa e agridoce, e se tivesse visto o meu vizinho blogger por ali, seria uma boa altura para nos conhecermos. Mas como? Somos todos estranhos, mesmo numa cidade de província como esta (caberiam umas duzentas em Londres). Lembramo-nos da rapariguinha do shopping, mas não sabemos nada dela, lembramo-nos do homem da farmácia ou do café, mas nem pensamos onde moram, vemos a velha das minha rua que dormia com o seu galo e não sabemos como ela, ano após ano, resiste a tanta porcaria imaginada. Sucede é que nos organizamos em pequenas células cada vez mais estanques, com as mesmas caras, com os mesmos cenários, com as mesmas rotas urbanas, e os nossos semblantes assemelham-se a escudos anti-invasão. E acabamos por nos libertar quando saímos rumo a qualquer ponto cardeal, o rosto já aberto ao dos outros. Porquê? Porque são de longe. Apesar de ler o meu vizinho através de um qualquer centro de dados da Google na Europa, o meu vizinho continua perto. E, no entanto, estou seguro de que seria agradável debulharmos juntos as melhores castanhas do país e falarmos, beberricando daquela jeropiga. Não é a internet que cria a solidão. É a liquidação, no quotidiano, do homem como ser gregário, a sua divisão e compartimentação em pequenas e inofensivas células urbanas. Inofensivas, desconfiadas e sem voz. Mas, neste ponto, a história das castanhas e do meu vizinho blogger já deveria ter acabado.

15.11.08

Movimentos


Hoje liguei um blogue que já vem de outros blogues meus entretanto falecidos por tédio. A este acrescentei Mudandanças e C.ia, O Sol quando Nasce, Caminhos da Memória e Volumen (para que o Insónias se completasse). Também desliguei um. Penso que, para se ser tão taxativa e sobranceiramente certo, é preciso não errar, o mesmo é dizer que não erre quem, etc.

12.11.08

Esquinas



O que é a blogosfera. Uma pergunta. Podia responder é um tagarelar sem fim das classes médias, abrangendo a proletária de hoje, definição em que me incluo, não estou a safar-me do que afirmo. Tanto me dá. Contudo, hoje prefiro dizer é uma urbe só com esquinas. Esquinas de surpresa, esquinas electivas, esquinas-parlatórios, esquinas de bocejar, esquinas de trepar, esquinas onfálicas, esquinas de gato por lebre, esquinas para rapidinhas, nunca mais acabaria com elas se não tivesse em mente, com este post, chegar a um determinado tipo de esquina, onde criaturas escrevem ao espelho, coçando-se, como se a esquina fosse o tronco de um carvalho.

2.11.08

Jorge de Sena, n. em 1919



CAFÉ EM CRETA COM JORGE DE SENA

Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida (…)
Jorge de Sena


Nada é simples, porque, ao contrário
de Sena, o Minotauro
atormenta-te em casa.
Mesmo no acto da paz mais alheada,
que é estarmos deitados a ver as estrelas,
os urros dele ecoam-te no peito
e logo te levantas inquieta,
com receio de seres devorada.
Quem poderá lutar contra a realidade?
Talvez por isso Sena tenha visto
o Minotauro
e se tenham tornado amigos.
Talvez eu devesse ir a Creta
tomar café com ambos
e, longe dos teus medos, longe já de ti,
muito perto de ver perder-se o chão
e tudo quanto tenho, remexer o café
com o dedo de um deles, para que conheça
breve o gosto do exílio sem regresso.
Ou será que tu mesma me acompanhas?
Tu, eu, o Minotauro e Sena,
os nossos dedos
a remexer o açúcar do café,
todos juntos e nada mais havendo,
senão falar de Creta a que chegáramos.


© nd, Dispersão.

Luchino Visconti, n. 1906



Morte em Veneza, 1971.
 
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