22.8.08

Eurípedes


Medeia, Alfons Mucha, litografia, 1898.

"É verdade que a peça parecia (...) demasiado distante das nossas inquietudes." No entanto, P.M. acabou por descobrir o carácter coetâneo de Eurípedes, via Medeia.

18.8.08


Buçaco, fotografia de João Almeida Santos.

A floresta varia com a cor do nosso olhar. As vezes pode ser uma espécie de paraíso lustral, de onde surge um rosto purificado de mulher, como me sucedeu um dia no Buçaco. Trazia os olhos claros, limpos de quanto era humano, salvo ela, a mulher, a única que podia ser humana, porque tinha roubado à floresta o que um dia pertencera aos deuses, o carácter breve e irreal de outro mundo, onde o tempo parecia ter deixado de se medir pelo pulsar do coração e das cidades.

© nd

12.8.08

Os critérios-consequência


Desenho colectivo de alunos do 4º ano de uma escola algures.

Ontem dizia-lhe: o que hoje é mau gosto (estético) poderá ser bom gosto amanhã. É já mais fácil cultivar a vulgaridade e a mediania comum, e estas passarem a medida-padrão qualitativa, do que aceitar que o rei vai nu.

10.8.08

Bolinhos & Pastéis


Roubei aqui estes bolinhos de bacalhau com tão bom aspecto. Os que comi no sábado ao almoço não eram tão bonitos, mas estavam bem feitos. Dispensaria o esparregado, a tolice vulgar do omnipresente arroz de feijão como acompanhamento de tudo, na imagem com arroz agulha em vez de carolino (por exemplo) e mandava o limão embora. Ficaria só a alface. Enfim, acabei por escolher feijão-frade frio com salsa e cebola picadas e uma alface parecida à da imagem.

Falo disto, porque os bolinhos definiram na minha cabeça o motivo da aversão ao nome pastéis de bacalhau que não poucas vezes dão aos bolinhos do dito (seria um assunto para Helder Guégués). Pastéis são constituídos por uma massa cozida no forno (ou frita) e por um recheio salgado ou doce, como pastéis de massa tenra, pastéis de Tentúgal, de nata, de feijão e por aí fora. Pelo menos é o que os dicionários de português on-line rezam (a massa frita é acrescento meu). Ora todos nós já vimos fazer bolinhos de bacalhau: 1 kg de batatas reduzidas a puré, 0,8 kg de bacalhau bom desfiado, salsa picada, ovos q.b. para a massa ficar moldável. Formam-se com a ajuda de duas colheres de sopa e fritam-se em óleo bem quente. Quem quiser genuínos pastéis de bacalhau use esta massa como recheio, envolva-a em massa brick ou mesmo filo, e leve os pastéis ao forno até dourarem. A textura estaladiça exterior dará um toque de cozinha criativa ao almoço e protege a língua portuguesa de confusões.

9.8.08

Foi ontem, há trinta anos

























Com a morte de Ruy Belo, um mês e meio depois da de Jorge de Sena e, muito antes, com a de Fernando Pessoa, formou-se e sobrevive a minha tríade de poetas portugueses do séc. XX. Ler aqui, onde se cita o poema abaixo.

VAT 69

Era depois da morte herberto helder
Ia fazer três anos que morrêramos
três anos dia a dia descontados no relógio
da torre que de sombra nos cobriu a infância:
rodas no adro — gira a borboleta que se atira ao ar
o jogo do berlinde o trinta e um pedradas
nas cabeças nos ninhos nas vidraças
Foi quando verdadeiramente começou
a conspiração dos líquenes cabelos e avencas
na mina onde molhámos nossos jovens pés
e tirámos retratos pra morrer mais uma vez
Os nossos filhos — nós outra vez crianças —
comiam e gostavam das laranjas essas mesmas laranjas
que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal
no quintal que as máximas mãos deixaram já depois
                                                  [abandonado
Era a seguir à morte meu poeta
era na meninice havia festa e na sala da entrada
pensávamos na morte — nunca mais — pela primeira vez
Trincávamos cheirávamos maças no muro sobre a praia
roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos
Era nas férias havia o mar e íamos à missa
ouvíamos a campainha e o padre voltava-se pra nós
—orate frates — ou íamos ao cemitério apesar do catitinha
Era depois da morte sobre a plana infância
o primeiro natal o cheiro do jornal
lido na adega ou na casa do forno
sentados pensativos sobre a terra húmida
Era na infância o sol caía enquanto água corria
entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras
calcados prontamente pelas botas
soprava o vento e vinha a moinha da eira
o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira
e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores
Havia casamentos o meu pai falava
e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças
E os registos mistério tempo da prenhez
Era talvez no outono havia asma
havia a festa da azeitona havia os fritos
ao domingo havia os bêbados estendidos pelas ruas
havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia
Era a primavera o rio rápido subia
os barcos navegavam entre a vinha
e alastrava a sombra e a tarde adensava-se
num espesso e branco nevoeiro de algodão
noite dos candeeiros sombras nas paredes
e minha mãe pegava na espingarda ia à janela
e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe
O leovigildo o marcolino o sítio do miguel
a sesta a monda das mulheres
a queda do bizarro exposto na igreja
isso e o almoço a saber mal
quando vinham da escola pra saber significados
Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das
                                                          [viagens
Eram as festas era o roubo dos melões
era a menstruação oculta da criada
Era talvez em tempos de tormenta
havia ferros entre a palha por baixo da galinha
que chocava os ovos dentro de um velho cesto
eram as nossas casa em adobe
e era o carnaval os bailes os cortejos
Íamos para a praia e eu lia camilo
ouvia o mar bater sem conseguir compreender
como podia estar ali se tinha estado noutro sítio
Era o tempo dos primeiros amores
eu via o pavão adoecia e só muito mais tarde lia
o trecho que me competia entre as amadas raparigas
A casa não ficava muito longe dos montes
não havia a cidade nem os outros
punham ainda em causa o meu reino de deus
senhor de tudo o que depois não tive
Era depois da morte ou era antes da morte?
Mas haveria a morte verdadeiramente?
Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava
se tudo aquilo tinha acontecido
Era o meu pai era esse sonhador incorrigível
sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias
Eram as folhas novas eram os perdigotos
saídos não há muito ainda da casca
Era era tanta coisa
Seria realmente após a morte herberto helder

Ruy Belo, Obra Poética I, Editorial Presença, 1990.

6.8.08

Sobre um romance em início


Hoje respondi ao e-mail de um amigo. Depois de ter editado o seu primeiro livro de poesia, começou há pouco a escrever um romance. Disse-lhe o que sabia, dei-lhe outra comparação, mas a que estará mais próxima da gestação de um romance é a de um edifício como obra de arte. A ideia, o esboço, o anteprojecto, o projecto, a construção a pouco e pouco, vigiada, alterada aqui e além, os acabamentos tão demorados. Tudo muito mais difuso, se é que existe alguma aproximação com a construção meticulosa de um edifício, e, a existir, penso, não será regra. Regra, exigência é possuir uma enorme capacidade de trabalho e uma persistência de rocha. Robert Musil demorou mais de vinte anos com Um Homem sem Qualidades, e não viveu para o acabar. Não sei quanto tempo demorou Jorge de Sena com o também incompleto e admirável Sinais de Fogo, para que tinha um projecto de grande amplidão que a morte não deixou concluir. É certo que o tempo mudou, que tudo é mais breve e que os exemplos que dei são extremos. Mas hoje estar sentado meses, não sei se mais de um ano, a escrever x horas por dia, quando não de atacado, é um feito. Com as excepções que sabemos do passado, por isso é que os autores só de poesia são em geral ociosos, sobretudo os contemporâneos, tão fácil é escrever duas dúzias de versos (que me perdoem a verdade). E mesmo a organização de um livro de poesia, para muitos o cabo dos trabalhos, e sou dos que concordam com isso, o que é essa organização face à disciplina, à força de vontade, à exigência para consigo próprio que a criação de um romance impõe? Impressionante abnegação e persistência, quantas vezes a entrega a uma vida paralela e irreal, com o mundo a cintilar no exterior. Oxalá o meu amigo não ouça as sereias que estão para lá da janela. Que corra as persianas, que se esqueça dos poemas, enquanto preenche as folhas tão longas que os romances têm quando ainda brancas.

3.8.08

de (O) Réquiem




(Mozart) Introitus e Kyrie, direcção de John Eliot Gardiner, com o os Solistas Barrocos Ingleses e o Coro Monteverdi, al Palau de la Música Catalana, Barcelona, Dezembro de 1991.

31.7.08

É pelos livros arderem mal que



Leia-se a saga de Osvaldo M. Silvestre, que foi à procura das Obras Completas de Jorge Luis Borges, em Coimbra. Se O.M.S. pegasse no carro para ir a Salamanca, à Cervantes, e andasse 650 km, ida e volta, talvez poupasse em arrelias o que não pouparia em dinheiro. Mesmo assim, eu telefonaria antes, que o mundo está a mudar até nos redutos mais inesperados. São coisas da democrácia, como por lá pronunciam o malévolo conceito: tu votas, mas comerás sempre o que a gente te der; és livre de expressão, mas não podes ser culto, porque então a tua liberdade acaba onde a nossa começar. Compra e sê feliz a comprar, porém desconfia sempre do que sai pouco e pouco se vê.

E orgulha-te, porque é a partir de ti, cidadão da maioria silenciosa, que educamos meticulosamente as gerações futuras. Os livros ardem bem é em hipermercados e outras grandes superfícies. Ar, ar, ar! gritemos todos AR! para que ardam melhor ainda e se esgotem sem cansaço nesses passeios públicos de sábado. Nos lugares alternativos, o que há é fungos, e compete aos governos democráticos legislar sobre a matéria, que é de saúde pública.

28.7.08


Maya con Muñeca, Picasso, óleo sobre tela, 1938.

Às vezes, arranjamos um dia para nos sentarmos à mesa, sob a figueira. Repartimos como antigamente a carne, o vinho, o pão, a frescura sumarenta dos pêssegos, e fingimos viver sem cuidados. Ao longe, as cidades ardem, a multidão nas ruas, a morte nos guetos, os poderosos em seus prédios altíssimos, guardados por tanques e polícia. E, quando nos levantamos, vemos a mesma miúda a fitar-nos, fugida das cidades, os olhos opacos de futuro. Não têm uma boneca que possa chamar-se Matilde? — pergunta-nos sempre.

© nd

27.7.08


Imagem retirada daqui.

O homem, na esplanada, come amêijoas de uma travessa. Eu tinha andado na falésia à procura de vestígios árabes e encontrara um concheiro pré-histórico de cascas de amêijoas como aquelas, e agora o tempo tornou-se vibrátil, com seus cílios inteligentes, e dele emerge o desconforto de não ter pela frente senão o destino que vai do concheiro à esplanada. Como espécie, não valemos muito, dissera-me Judite. Falávamos de outra coisa, mas esse desencanto também serve aqui. Nunca fomos divinos, nunca incendiámos até ao céu a revolta do deus, para a darmos a nós mesmos. Vamos em um largo, escuro rio anónimo, que nasce na fonte de um acaso distante para desaguar em foz nenhuma, enquanto o homem, tranquilo como o Esteves da Tabacaria, vai picando as amêijoas e deitando as cascas no concheiro pré-histórico.


© nd

26.7.08

Pietà



Pietà, Paula Rego, óleo sobre tela, 2002.

O monge tinha fé e por isso imolou-se no fogo e, como ele, tantos ao longo da corrente do tempo, desde a eclosão das divindades. Dir-se-ia que vêm ao mundo só para morrer assim. No entanto, esse destino não existia, nada está decidido, o fim é, todo ele, uma síntese de cruzamentos e, em última análise, o fruto que a mãe, sem saber, pousa no reverso da alegria.

© nd

25.7.08



Sinfonia n.º 3 ( Sinfonia das Canções Tristes), de Górecki
- 2.º andamento -.

24.7.08


Biblioteca, Vieira da Silva, óleo sobre tela, 1949.

Adolescente ainda, as palavras eram sons que me levavam de fulgor em fulgor, de febre em febre: escrevia como olhava o mar, imaginando cidades na margem invisível do horizonte. Escrevia pela ânsia de viver, pela luz em que julgava ir tornar-me. Há muito que essa luz se apagou e que não escrevo assim. Nem já para fingir viver. Foi longo o caminho de aprendizagem, e trago comigo as personagens que ficaram em mim e que fui encontrando nestes livros todos. Vivemos juntos e sonhamos juntos enquanto durmo. Sem elas eu não existia. O que escrevo, em sua maior parte, não me pertence. Pertence-lhes. E hoje escrevo para resistir, para que nenhuma delas morra senão quando eu morrer.

© nd

23.7.08


Fresco de Pompeia, séc. I (d.C.), Museu Nacional de Arqueologia, Nápoles.

Se entrasses pela porta de um filme de Antonioni, todos olhariam o enigma do teu rosto. Não o saberiam ler, no entanto haviam de ansiar dissolver-se nele como se, de repente, fosse a vida que nunca tocaram, o espelho de um vislumbre perfeito. A mim, que te vejo tantas vezes, sucedeu um dia não me bastar essa imagem, ter de ir buscar outra muito mais distante, e hoje és também a mulher do fresco de Pompeia.

© nd


21.7.08


Criança numa cadeira com a mãe, pintura em vaso grego do séc. V a.C.

Vês gente tua na margem do que era real. São vultos desfocados como se a sombra fosse luz, e a luz, as cores de um filme vago, em que a música de fundo parecesse o apito ao longe de um comboio antigo. Deixa-te estar e olha. Mas não anseies mais do que existe nem te mova a melancolia. Afinal, nesta margem, também há crianças e jovens mães em intervalos alegres de viver.

© nd

13.7.08

Compras



Quando acabarei de ler as cerca de 3.700 páginas destes livros? Hoje comprei o de Ariosto, que saiu no ano passado, pela Cavalo de Ferro. Na Feira do Livro deste ano (Lisboa), comprei os outros abaixo, que andava a namorar há muito. Pediam-me antes 150 euros pelos cinco volumes. Custaram-me 94. E havia aqui quem os vendesse a 25 euros. Pergunto-me se os compraria. Não, não comprava. E não sou lorpa. Se os comprasse, acho que era eu que me vendia.

Post scriptum do post: a raposa de Esopo não anda por estes lados.





11.7.08

"Uma Canção de Camões"



Disseram-me um dia que escrever a canção X devia ter sido de arrancar a pele.

Em Luís de Camões, 10 Canções Ditas por Luís Miguel Cintra

10.7.08

As Sete Partidas Lusitanas

Estou a pensar como poderei ler em diagonal as novéis Sete Partidas de Manuel Alegre, sem despender um cêntimo. Talvez vá à FNAC e me sente a folhear o poema de onze poemas. Não me passaria tal coisa pela cabeça, se não suspeitasse de que o infante D. Pedro pode ser, para Manuel Alegre, o que Virgilio foi para Dante. Nem menos, depois de ter medido e medir Camões e Pessoa. Ver aqui a amável recensão que Y. K. Centeno fez do livro. E ler os versos que lá estão, alguns deles heróicos, no sentido métrico e no sentido epopeico, e doutos. O certo é que ninguém pode exigir lucidez a ninguém. Cada um tem de se bastar com a sua (se a tiver).

FÉRIAS AO VENTO
















Nos flancos dos outeiros da aldeia acampavam extensões carregadas de mimosas. Na época das colheitas acontece que, longe da própria morada, se dê o encontro extremamente odorífero de uma rapariga cujos braços, durante o dia, estiveram ocupados com os frágeis ramos. Tal como uma lâmpada cuja auréola fosse feita de perfume, ela afasta-se, de costas voltadas para o pôr-do-sol.

Seria um sacrilégio dirigir-lhe a palavra.

Com as alpercatas a pisar a erva, cedei-lhe passagem no caminho. Talvez tenhais a sorte de distinguir sobre os seus lábios a quimera da humidade da Noite?

"Sozinhos permanecem" (1938-44), in Furor e Mistério (nota da tradutora).

Em René Char Este Fanático das Nuvens, antologia organizada por Marie-Claude Char e Y. K. Centeno, tradução de Y. K. Centeno, Edições Cotovia, 1995.

9.7.08

Os Atávicos



Este blogue devia ser de leitura obrigatória nas escolas, do 9.º ano para cima, inclusive. Com testes e tudo. Daqui a quinze anos podia acontecer que houvesse cidadãos suficientes para limpar o país do lodo que. Mas a ministra não vai nisso, nem o nosso primeiro, nem os que estão acima dele quer em Bruxelas, quer no globo (globo, para lembrar de onde deriva globalização).
























Ave-do-paraíso, Werner Horvath, 1960-70, óleo sobre tela.

5.7.08

Empadas romanas do tempo de o Pacífico



Faça-se um pastelão de meio alqueire de farinha amassada em água e sal, cobrindo-o por cima como empada; como estiver feita, assopre-se por uma buraquinho, para que fique bem cheia de vento; depois de muito bem cozida, abram-lhe no fundo um buraco redondo, por onde lhe metam duas ou três dúzias de pássaros vivos, e tapando com a mesma massa, mande-se à mesa. Também se faz de pombos ou coelhos vivos.

Em Arte de Cozinha, de Domingos Rodrigues, Imprensa Nacional, 1987.
Nota: Domingos Rodrigues foi mestre de cozinha da Casa Real, no reinado de Pedro II, o Pacífico (1683-1709).

3.7.08

Ugetsu Monogatari (Contos da Lua Vaga) , 1954, Mizoguchi .


Ninguém me perguntou quais são os meus filmes preferidos, uma pergunta de inquéritos juvenis. Lê-se em muitas entrevistas de adultos, quando o entrevistador não tem nada para perguntar. Mesmo assim, irei respondendo. Sem nenhuma ordem.

2.7.08

O engenheiro


Era o que nos faltava para irmos “cantando e rindo” pelo cano abaixo. O inominável kitsch. A desmesura de quem chega de engenheiro técnico, com a assinatura de construções menos que chapa 7, a primeiro-ministro de um país de opereta.

e os doutores











Para retorquir ao Dr. Vital Moreira, que aqui e no Público virou economista de serviço, a Dr.ª Manuela Ferreira Leite podia muito bem mandar avançar a Dr.ª Zita Seabra. Talvez os dois se engalfinhassem por razões conhecidas de todos.

27.6.08

Um poema de Adair Carvalhais Júnior

O poeta brasileiro meu preferido na sua geração, nascido no princípio dos anos 60. Pouco se fala dele. Talvez por a sua poesia ser invulgar e tão contemporânea, fora dos tiques e dos toques que é costume e fora também do eixo S. Paulo-Rio. Lá como cá.

Disse-lhe um dia que a poesia dele tinha muito da música erudita do nosso tempo, pelo carácter muitas vezes atonal, que a dureza do seu ritmo poético tão próprio reitera . Aqui o deixo e também aqui.

26.6.08

Um elixir de longa vida?


Este blogue nunca conheceu o trânsito dos quatro anteriores que tive. Se os cães envelhecem sete anos por apenas um do homo sapiens, os bloguistas envelhecem aí uns quarenta, de modo que, ao fim de seis anos na blogosfera, me tornei numa espécie de fóssil, e os fósseis da blogo, como dizem nuestros vicinos, acabam por ser vítimas da sua própria condição.

Daí até o contador registar só uma visita diária nos últimos meses foi um saltinho lógico e um recorde imbatível, porque o contador também me regista a mim. No entanto, um blogue não é um armazém de palavras, que foi o que me apeteceu fazer deste até ontem, até aos meus duzentos e quarenta anos que tinha ontem.

Veremos se o meu elixir funciona: um blogue vive para os outros e para o dono dele nos dos outros, não interessam aqui números e qualidades. Cada um come do que gosta e quanto lhe apetece, segundo o tempo e o tipo de exigências, não pensando eu nas impossibilidades de toda a ordem que nos assaltam hoje, mais as que a previsibilidade aponta para amanhã.

24.6.08

É claro que as mulheres exercitam
o seu poder oculto
naqueles que se entregam para sempre
à sua protecção materna
depois de o amor ter ambos serenado.
“Não há nada mais belo”, ouço dizer,
“do que um casal assim, a passear
nas veredas de um shopping.
A história das colmeias, a rainha
e os zângãos sem mais préstimo, digo eu,

e penso na excepção:
uma mulher e um homem
à beira-mar, unidos pela música.


© nd

27.2.08

Fernando Pessoa

Quantos papéis voaram da arca
para o céu destes dias, ele morto
e apagados os trilhos de Lisboa.
Não sei se alguém
lhe sente ainda os passos,
dos velhos escritórios
ao delitro e aos poemas
no fim do dia
ou na falta que o vinho lhe fazia.
Um homem de bigode antigo e magro,
com óculos redondos
e elegante de mais na pose,
é útil não somente a Almada.
Suponho que o imagine desse modo
quem o não sinta
uma voz em excesso na cidade,
a multidão que ele nunca foi
e o estilhaçou em vários,
e destes um,
o ortónimo sem vida diferente
do Esteves do poema.
"Os génios não têm biografia",
a não ser umas quantas fotos
que dizem vagamente nada,
já a mão breve
vai dispensando os versos
que eram seus para serem só
de livros em estantes abstractas.


© nd

10.2.08

A poesia na era dos replicants

Há algum tempo que venho pensando na importância social contemporânea da poesia, e agora que me sinto desapegado do seu halo exterior, que só na juventude me ofuscou, mais fácil me é falar dela sem aparentar queixumes contra o mundo que não sabe aplaudir, queixumes frequentes, a maioria das vezes porque se é jovem ou porque não se tem valor que o mereça e se exige para si próprio, mais raras vezes por falta de sorte ou recusa do sentido de oportunidade, e muitíssimo mais raras ainda por se escrever à frente do seu tempo.

Se da mediocridade ao talento vai uma distância grande; se do talento à genialidade vai uma distância maior; se a importância social da poesia é cada vez mais invisível na sociedade neoliberal, podemos medir o esbracejar de aspirantes a esta arte com alguma distância sincera e olhá-los como uma espécie de acrobatas num aquário redondo, tão mais circences quanto mais exigem aplausos dos outros, não interessa a qualidade de quem chegam.

Não falo da juventude contemporânea que emerge e em que descobrimos valor e para a qual, por isso mesmo, não há reconhecimento e apoio. Embora hoje a poesia não dê de comer a quem a escreve, é preciso à mesma ter-se patronos. Não se comem migalhas da mesa feudal, mas come-se o que há de um feudo sem terra nem água: devora-se, sem modos, um brilho social que não existe senão na cabeça dos comensais da parquíssima mesa. E se a juventude com talento não aceita esse caminho e inicia o seu próprio – que não é mais que isso mesmo -, a outra toda irá envelhecendo sem amargura e sem dar conta da indiferença e da estranheza que a sociedade lhe dedica. E é ver-se, ao lado dela, gente de gerações anteriores esticar igualmente a mão. Como se alguém na mesa a visse e fosse aceitar essa concupiscência absurda.

A poesia, que esta falta de lucidez não demove do seu caminho (mas encurta-o), será cada vez mais uma excrescência no meio do cálculo dos computadores e um bem, às vezes amargo, para os que, com ela, têm necessidade honesta de testemunhar-se a si mesmos no seu tempo. E é por seres humanos assim que a poesia sobrevive, escrita, desde Gilgamesh e, cantada, de muito antes. Amada hoje por uma minoria relativa talvez mais estreita, mas sempre tenaz, sobreviverá na ditadura dos números como uma actividade inútil de seres cada vez mais esquisitos. Basta pensarmos nos (des)caminhos da Cultura no seio do Ensino e na evolução da economia neoliberal feroz, que aquele serve como uma fábrica de
replicants.

13.1.08

So What


Miles Davis e John Coltrane ao vivo, 1958.


The one and only Erroll Garner (1921 - 1977), appearing on 2 consecutive airings of the legendary BBC TV programme Jazz 625 circa 1964 accompanied by Eddie Calhoun on bass and Kelly Martin on drums.

8.1.08

Um soneto de Louise Labé (Lyon, 1525-1566)

Retrato de Louise Labé. Água tinta de Guidu Antonietti di Cinarca (a partir de uma gravura de Pierre Woeiriot, 1555, nota minha.)


Ó belos olhos, ó cílios descidos,
ó suspiros, ó lágrimas choradas,
ó negras noites em vão tão esperadas,
ó dias vãos em vão tão repetidos!

Ó tristes prantos, ó tempos perdidos,
ó desejos, ó penas sufocadas,
ó mil mortes em redes enlaçadas,
ó males pra meu mal acontecidos!

Ó riso, ó fronte, ó braços, mãos e dedos!
ó alaúde, ó viola dos enredos:
archotes sois para uma fêmea a arder!

De ti me queixo, que tais fogos tendo,
só a mim afinal deixas ardendo,
sem faúlha nenhuma te atingir!

in Imagens da Poesia Europeia - II (Roteiro dos programas de televisão da autoria de David Mourão-Ferreira), tradução do mesmo, edição da Fundação Calouste Gulbenkian, pág. 60.






6.1.08

A Poesia Não Há-de Morrer

Pêndulo – poesia – é o primeiro livro de Paulo Tavares (n. 1977), um poeta que já tinha surgido na blogosfera e nela se mantém. Pensei em analisar a estreia de Paulo Tavares em livro, como indicador do que poderá vir a ser a sua futura obra poética. Isto porque, felizmente, a organização do livro não obedece às normas quase programáticas de abordar um só tema, que vi em alguns livros de poetas da sua geração ou vizinhos dela. Paulo Tavares não seguiu esse caminho, e colher-se-ão as razões disso no antepenúltimo poema de Pêndulo, O Palco dos Dez Mil Poetas, que poderia ser o primeiro, o que, convenhamos, daria um tom provocatório que o livro não tem, nem o poema, afinal, se atentarmos no seu remate, um acto de esperança: “[(...)e se no final formos vencidos pela vida / pois que cantemos a saudade ou rebentemos os miolos / para outros mais jovens nos tomarem o lugar]”. Continua aqui.

2.12.07

Humanos

Cromeleque dos Almendres, Évora. Fotografia do IPPAR.
Vão retirando desordenadamente, muito velhos, gelados, de granito e neve.

13.11.07

Anotações #2

O divino é criado em virtude de algo que desconhecemos e receamos. Para T. seria muito confuso imaginar o Big Bang e a longa arrumação do Caos como a nossa origem. Julgo, pensou, que T. ficaria bastante em baixo se eu o convencesse de que éramos todos filhos do acaso, desde os humanóides que os antropologistas dão como nossos antepassados, não sei se para sossego de todos, se pela visão mais imediata da ciência. Na verdade, a origem remete-nos para a primeira célula que ninguém sabe como surgiu, embora não seja desagradável pensar que o meu antepassado foi o Sol, a sua acção. Isso causa-me mesmo conforto, concluiu. Eu vim da luz, sou luz e amo a luz do Sol como coisa física. T. também ficará contente com uma luminosa manhã de Junho, mas não deduz dela o seu princípio. Ficaria horrorizado. E, no entanto, pensou, estamos muitíssimo mais perto dessa luz que nos explica do que da visão teológica de T.

© nd

8.11.07

Anotações #1

Talvez o segredo seja a inanição total, despedido de afectos e de preocupações, pensou. Os dias tornam-se tão repetidos que sair dessa inanição é não sair dela, e assim o segredo deixa de o ser e passa a estado imanente. Parece haver uma altura na vida em que se perde o direito a si próprio. Talvez esta usurpação tenha a ver com a morte, concluiu, talvez a inanição esteja muito próxima da morte.

Sei de alguém que atropelou um arrumador de carros para sair do mundo, continuou. Queria ser preso e foi dado como inimputável. Pouco depois suicidar-se-ia.

O cárcere e a inanição são em tudo semelhantes a um suicídio frustrado, por o desespero não ter sido suficientemente fundo. Esse grau de insuficiência, que impede o suicídio de facto, está ligado, como o medo, a alguma esperança remanescente. O que atropelara o arrumador não só vencera o medo, como não devia ter esperança nenhuma.

© nd

7.1.07

Pêndulo, de Paulo Tavares


Paulo Tavares consegue em Pêndulo uma unidade coleante e, mais que isso, e a meu ver mais importante num livro inicial, a afirmação dos seus temas poéticos, que isolei em três grandes grupos, de forma incompleta e, na aparência, algo redutora, tanto que dos cinquenta poemas que compõem o livro, só quarenta e um me parece caberem nestes grupos.

O tempo, quer como abstração (no poema Pêndulo, um pouco também no poema Sonora Apatia), quer como relação, seja passado, presente ou futuro, nos poemas em que se entrecruza com os assuntos que o definem: Chuva de Verão, Tela Mágica, Criaturas de Zinco, Vozes Convulsas, Bordel, Os Grilos, Luzes Dispersas, Do Tempo Antigo, Tejo, Superfícies, Cerejeiras em Flor, Antes, O Pescador, Cicatriz.

A inadequação do real – muitas vezes descrito como abjecção suja, lixo – a si mesmo, aos seus anseios, sendo frequente a esperança como saída, ou intenção e rumo de vida como no poema de abertura Quando Cresci, em Estio, Allegro, Promessa. Cabem também neste grande tema da inadequação O Domador de Feras, Pela Manhã, Bonecos de Plasticina, O Rasto da Madrugada, Ferro sobre Ferro, Setembro, Sol, O Jogo dos Vivos, Rua Sésamo, Insustentável, Antes, O Palco dos Dez Mil Poetas.

Disse inadequação. Com mais ligeireza teria empregue o termo inadaptação. O que se passa é que o poeta não é inadaptado. Porquê? Porque recusa a sociedade em que vive e aspira a um mundo onde caiba, que possa adequá-lo a si mesmo e à sua visão dos outros. A diferença é tão grande que inadaptação tem um carácter negativo, de amorfismo, enquanto a inadequação, neste caso, é positiva, porque é um motivo de recusa, e o estado individual de recusa, sendo hoje o único possível nas circunstâncias do meio, é também uma semente que germinará com as outras, não sabemos quando. E a recusa, formulada na poesia de Paulo Tavares, é a dignidade da resistência ao meio que perpassa em alguma da poesia de hoje mais recente. Posto este esclarecimento, voltemos à taxinomia em que me meti.

O amor é terceiro grande tema, menos presente do que os antecedentes, atravessado com frequência pelo anterior, o da inadequação, e em geral abordado muito contidamente. A Caverna das Noites sem Fim,, Acredito, Anestesia, Theory of Everything, Queda no Abismo, A Tempestade, Poema Inicial, O Sabor dos Lábios, Theory of Everything II.

Desta arrumação, sobram nove poemas. Três não sei como classificá-los, porque, além de muito pequenos, não consigo em mim inteligibilidade para eles, a inteligibilidade que os outros quarenta e sete poemas permitem facilmente. Refiro-me a Se Eu Pudesse Apenas, De Tão Luminoso e Palavra de Honra. E se entram ou não a contrapelo dos restantes, isso é outro assunto, e um assunto menor no geral do livro.

Dos seis que ficam, dois são descrições poéticas do olhar, O Rapaz da Pandeireta e A Cidade Magnética; Miragem de Estilhaços é uma descrição introspectiva (com um saborosíssimo atrevimento sintáctico, que tem algo de concrectista); outro, Nas Árvores, refere-se à protecção da capacidade de sonhar, com algo de ficção científica, ficção onde outro poema, Nebulosas, vai beber para gravar uma relação de desencanto.

O último poema, Teorizar Magnólias é claramente um poema de fecho, de carácter metafórico e de poética.

Mas estas classificações nunca poderiam ser estanques entre si e apenas servem para melhor avaliarmos a riqueza temática de Paulo Tavares. Nem tudo fica dito. Poderíamos subdividir o primeiro tema, o tempo, em subtemas, como a morte, em Bordel, Os Grilos, Tejo (que no poema me parece o Letes), a infância, etc. E os outros, do mesmo modo. Seria fastidioso ir mais longe. E o que escrevi basta para imaginar a amplidão temática.

De versos largos a versos mais curtos, com eles surpreendeu, entre outros, no poema de abertura Quando Cresci; no poema de grande hausto Do Tempo Antigo “- gente morta antes de morrer que gastou os dias / a esconder as mãos com frio do destino. // Quiseram ser isto ou aquilo / - mudar o mundo – e perderam-se nestas ruas / a fragmentar as pedras, a tentar criar pele e carne / para os seus esqueletos nus.”; no Anastesia, em que surgem versos tão fundos como estes, que nos sangram, mudando o “Transforma-se o amador na coisa amada” de Camões numa espécie de maldição do nosso tempo – e assim suscitando a revolta por nos irem levando o que a vida tem de bom -: “(...) beijaram-se / os dois / no confronto da noite /com uma paixão maior do que a força das navalhas / e depois de brindarem ao desespero / penetraram os destroços / abraçaram as sombras // renasceram anestesiados / na aflição contrária.”; na Tristeza Maligna; o desoladíssimo Ferro sobre Ferro, de uma beleza pungente e a mestria destes versos: ”(...) e eu olho este desinteressante corroer de almas /que friccionam os corpos dia após dia após dia”, imitando a cadência do comboio em que o poema se passa; O Sabor dos Lábios; o fascínio do poema Os Pescadores, e outros, peco por omissão.

Um livro que me apressei a comprar e que veio confirmar o que eu já sabia: a qualidade poética de Paulo Tavares, Astrophil na blogosfera.

Quando descobri este poeta num blogue, há anos já, recordo-me da alegria que tive. É que, nascido em 1977, representou para mim a certeza de que a poesia não morreria, que poderia viver por muitos anos fora do espectáculo mercantil da nossa Betesga literária e da vulgaridade de palavras e métodos de que ela se alimenta e vive.




 
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