28.2.09

Maioria absoluta para o

camarão de Espinho, mais conhecido por camarão da costa, mas sem o Costa por perto. Ainda faz um caril com eles, e são muitíssimo melhores cozidos só com água e sal.

27.2.09

Ratoeiras confusas

O Português tem armadilhas q.b. para sermos sempre apanhados. Quero referir-me a esta frase equívoca. Tanto pode dizer respeito ao êmbolo como ao embolar, e embolar porque a coisa não merece o verbo fornicar, etc. Neste caso, como sempre fui hetero, trata-se do verbo embolar, para o qual o demonstrativo aquilo remete. Feita a rectificação, considero reposta a minha honra machista, salvo seja.

24.2.09

Courbet e Buonarroti

Eu, que em Florença não reparei nas medidas de David, fizeram-me reparar mais tarde no tamanho do membro daquele que iria vencer Golias, qualquer coisa como o meu polegar, que não é membro, é dedo. É que no Renascimento não existiam ainda anarquistas, embora não seja despiciendo imaginar que David houvesse tido por modelo um efebo de Michelangelo Buonarroti.

De qualquer modo, por essa época, praticava-se, na escultura, o culto inverso das monster de que cedo, na juventude, dei conta em Amesterdão, ali para os lados das Red Lamps, onde a polícia é muito mais despudorada que a de Bracara Augusta, e onde uma loira aguentava qualquer coisa parecida à coisa negra de um burro.


Isto não é racismo e não se escandalizem. Não só estive o tempo de apenas ver três ou quatro viagens do êmbolo, como também fiquei a saber o que aquilo resultava em mim e, logo a seguir, a conhecer a água das pedras holandesa. Oxalá esta inconfidência seja do conhecimento do governador civil e do arcebispo de Braga, porque isto se passou antes da adesão de Portugal à CE e depois do Tratado de Roma, e agora que somos partícipes (ia escrever membros) de pleno direito, a actualização da moral e dos costumes impõe-se tanto ou mais do que o neoliberalismo e a obsessão papagaiesca do deficit, que rapidamente se adoptaram como virtude e apenas servem para nos lixar os miolos.

Um livro de Amadeu Baptista

Mais que a unidade que se retém do livro de poemas Os Selos da Lituânia, de Amadeu Baptista, aliás sólida na forma e vasta no universo que une, salta a leitura do verso amplo, dos parágrafos longos a que obriga o emanar poético com uma força que o pensamento controla, por meio de uma disciplina exigente, sem concessões a desbordamentos automáticos, digamos não tanto para referir esse mito do Surrealismo, quanto aparentemente para se despojar da ganga que toda a emanação poética torrencial tende a trazer. Mas escrevi aparentemente, e quero com isso significar que a disciplina da gestação da escrita de Amadeu Baptista já o faz, quando o pensamento, atravessando a memória em estado de subconsciência, define com clareza o que e como está a ser dito no momento. Trata-se pois de uma escrita consciente e controlada, em que está programada, como exigência e necessidade, a vontade expressa de inteligibilidade da linguagem.

Ou seja, parece surgir de novo o assunto polémico da escrita do real versus a herança dos vários modernismos que, em ondas concêntricas cada vez mais afastadas, se vêm sucedendo há quase um século. Mas não. A meu ver, isso assume o carácter de uma questão extemporânea. A exigência ética de clareza no discurso poético é uma necessidade, diremos que pós-moderna, que, em contracorrente, já Jorge de Sena invocava, poeta tutelar cujo nome não poucos calam cuidadosamente. E essa necessidade de expressão poética clara alargou-se, com o acesso facilitado ao conhecimento de outras poesias, quer pelos meios de informação quase instantânea, quer por o desenvolvimento económico crescente exigir cada vez mais e maiores consumidores, neste caso de objectos de cultura. Tudo isto para fundamentar, se preciso fosse, a contemporaneidade do discurso de Amadeu Baptista.

Mas a poesia, na qual se inclui a de Os Selos da Lituânia, não é, naturalmente, apenas uma questão de escolhas formais, fundamentadas no tempo em que surge face à época de que descola (e de que evolutivamente Amadeu Baptista vem, mas isso é outro assunto). É também, por um lado, o testemunho humano do seu tempo; por outro, o tratamento dos temas que conformam a condição humana, manifestada desde os sinais primitivos que contiveram a sua expressão e realidade. E – tão visível neste livro - é também vibração, intensidade, encadeadas num sábio registo coloquial, ritmo, prosódia, descrição fílmica de imagens da realidade que nos suscitam, de outro modo, o que a poesia exige de si mesma: alcançar o âmago da sua própria humanidade, ao dizer mais do que as palavras, por si só, seriam capazes. E, ao contrário do que li algures, é uma poesia que, a comprovar a superficialidade de aí se ter julgado prosaica, ganha em ser dita ou lida em voz alta, resgatando assim o carácter primeiro da poesia, que é ser ouvida, agora já não em paços e salões, mas em lugares públicos onde ela é dita e no complexo contemporâneo das artes performativas.

A temática é ampla, numa obra que inventaria a vida do poeta, “escrever pode ser provavelmente / um ajuste de contas com o passado”, sem sombra desse confessionalismo que impede as palavras de se juntarem esteticamente em poesia, sendo frequente a descrição, diria mais, o reconhecimento e assunção do seu meio social, “substituí o coração do meu avô, que era barqueiro, / por este homem que morava no segundo andar”, num avanço de peito aberto que, nos poemas mais intensos e doridos, me fez lembrar Camões e cuja franqueza me remeteu, como atitude poética, para Walt Whitman, afirmo-o apenas como sugestão por mim colhida, sem qualquer carácter objectivo. Um livro a ler e também a reler, não por dificuldade de entendimento, mas pelo prazer sem cansaço que dá entrarmos de novo nos seus poemas, como sucede com as peças de música de que gostamos.

Os Selos da Lituânia, Amadeu Baptista, edição da & etc, 2008.

22.2.09

A eternidade é neste mundo (antes que se acabe)


Vejo no Da Literatura que Maria Teresa Horta saiu pela esquerda baixa com um volume de 850 páginas. Pelo menos evitou as escadas de serviço do show off. E no que respeita a poesia, o vinho tem dessas coisas.

Estrangeiros

O Henrique Fialho tornou a referir o livro em que juntei a minha poesia, e transcreve um poema onde os dois nos encontrámos. E a propósito deste verbo, é difícil imaginar, através do ecrã, como serão as pessoas que escrevem no lado oposto ao de quem as lê. Um dia, não há muito, depois de anos de vizinhança na blogo, fui até à realidade conhecê-lo. Foi com alegria que os meus olhos e ouvidos o confirmaram como do mundo que também habito e onde preferia viver sempre. Porque quem se fez dele, passada a fronteira, será sempre um estrangeiro, quantas vezes em guerrilha nesse terreno armadilhado.

12.2.09

Fred Matos


Não sei se alguém um dia terá feito um poema comigo dentro. Se isso sucedeu, nunca o soube. Daí a surpresa ao ler o belo poema de Fred Matos, de S. Salvador da Baía, em que estou nas palavras que fui escrevendo. Saravá!

10.2.09

25.1.09

Duas

Disseram-me e fui ver: a primeira livraria onde o Dispersão pousou foi na Poesia Incompleta, o que me agrada, talvez por estar sempre perto de nós e por o projecto ser um acto de coragem, além do mais que o motivou. Veja aqui.

O José Quintas pôs três poemas do obituário no seu blogue. Agradeço e aproveito para dizer que a série ainda não fechou. Intervalou, ao contrário do que tencionei: levar tudo a eito. Não contava é que seria necessário espaçar um pouco a verve para não bocejarmos de tédio, eu e quem me lê.

Trocadilho



À mulher de César não basta parecer séria.

17.1.09

Dispersão














Viu a luz na segunda quinzena de Dezembro, por iniciativa da Edições Sempre-em-Pé. Com 290 páginas e 216 poemas revistos, engloba toda a minha produção poética de dez anos, de Março de 1998 a Fevereiro de 2008, tendo rejeitado o que, não constando do livro, foi porém dado a ler neste meio até final do dito mês de Fevereiro.

Cessada a azáfama das vendas de Natal, a editora prevê que até ao fim de Janeiro esteja nas livrarias, sobretudo do Porto e de Lisboa, a seguir em outras cidades e desde já na própria editora online.

Deixo o poema de abertura:

ÍTACA

Quando partires, em direcção a Ítaca,
que a tua jornada seja longa
(...)
Konstantinos Kavafis

Se ao longe imaginares Ítaca,
que não te dê saudades.
Uma ilha é um monte sem caminhos.
Descansam nela as aves migratórias,
e a gente que a povoa
gasta o tempo a sonhar aonde irão
as aves no seu alto voo
quando partirem.
E sobretudo Ulisses há-de
segui-las com os olhos,
lembrando-se de Circe.
O azul, digo-te, é uma cor volúvel,
e o céu e o mar são só desertos.

15.1.09

Clique
























(e. e. cummings)

Aqui, aqui (ler comentários), e aqui não desista, leia tudo. E se escreve poemas só com minúsculas como e.e. cummings (1894-1964) ou como valter hugo mãe (1971), portanto nascido setenta e cinco anos depois, e sete a seguir à morte do poeta que tinha, além de outras, aquela atitude estética então de vanguarda, de coisa nova com o seus custos, se está neste caso das minúsculas não se enerve, leia até final. É de outro assunto que se trata, embora com poesia pelo meio.

14.1.09

Finalmente














D. Policarpo, ao fim de seis séculos, ergue-se contra Mafoma. D. João, O da Boa Memória, estremece no seu frio sono.

13.1.09

O assim, o assado e o cozido










Quando me disseram, com superioridade parva, que Medina Carreira era sempre assim, respondi:

― Felizmente. O nosso mal é o sempre assado que lixa o sempre cozido.

12.1.09

Os pés de HH


De repente o monge saiu à rua. Desde que Herberto Helder se isolou, nunca deixei de pensar que o fazia, objectivamente, por excesso de auto-estima, por atitude de pose levada ao extremo, tornando-se, de ricochete, uma forma eficaz de promoção própria. Agora, aos 78 anos, parece colher os frutos da clausura, não sei se por a vida ser curta. Chama-se a isto borrar a pintura ou raspar o palimpsesto patético em que se tornou. Ou ainda acabar mal, se bem tivesse começado. O Prémio Pessoa recusado em 1994 evidencia a contradição em que agora se meteu, com este barulho no mercado livreiro. Depois de A Faca não Corta o Fogo, o Ofício Cantante, um a seguir ao outro. Se houvesse anjos, todos eles teriam pés de barro ― há homens e os seus pés, o que vai dar ao mesmo.

Imagem recolhida aqui.

1.1.09

Virtual(h)idades

Houve um tempo em que andei cansado das palavras, porém não tanto nem tão longamente como aqui. Abri nessa altura uma espécie de restaurante na blogo, em que eu era o chefe e único trabalhador. De vez em quando escrevia uns versos, mas acho que o resto me sabia então melhor. Os meus clientes eram gente que, penso, não queria saber de poesia para nada, tal como 99,8% das pessoas destes país. E mesmo esses 0,2% remanescentes ainda me parecem muito. É que a percentagem traduzida em números dá 20.000 almas. Metade estou certo de que preferiria o bife que lhes deixo a ouvir pela primeira vez a Canção X de Camões, dita por Luís Miguel Cintra. O restaurante fechou porque a crise chegou ao fim, ao contrário de hoje, em que os restaurantes da real fecham porque a crise entrou por eles dentro.

30.12.08

A grandeza não se esquece


Ontem à noite, de regresso à cidade, na Antena 2, Grande Auditório, Olivier Messiaen (1908-1992). La Transfiguration de Notre Seigneur Jésus-Christ. Retardei a marcha, passava pouco das nove da noite, mas não escutaria a obra toda. Não a conhecia. Agora tenho de ir por ela. Uma obra-prima de grande fôlego, monumental, do nosso tempo, bebendo na memória da música, uma leve ressonância de Mozart e inesperados mergulhos no passado remoto de sinos e cantochões. A primeira audição da obra, encomendada a Messiaen pela Gulbenkian, foi no Coliseu de Lisboa, em 1969. Levou cerca de quatro anos a compor, de 1965 a 1969. A direcção da versão que escutei é a que me dizem ser a que melhor traduz o compositor. Foi Reinbert de Leeuw quem conduziu o Coro da Rádio Flamenga e o Coro e a Orquestra Filarmonica da Rádio Holandesa. Dois coros. Cem vozes. Impressionante .

28.12.08

Afinidades electivas




Eu diria que é o poeta do ano e da nação. Veja-se só o olhar dele a perscrustar-nos o além-alma, como diria Mário de Sá-Carneiro - o além-alma lusitano, digo eu. Camões, Garrett, Pessoa, e Manuel Alegre directo, no TGV, sem parar em mais nenhum nome.

(...)Triolets, villanelles, rondels, rondeaus,

Seeds in a dry pod, tick, tick, tick,

Tick, tick, tick, what little iambics,
While Homer and Whitman roared in the pines.
Edgar Lee Masters, in Spoon River Antology

Quanto ao engenheiro de aviário, saiu-nos um Perón de pechisbeque, e a Evita dele só pode ser a ministra malfadada. Como a maioria silenciosa é burra, vamos gramá-lo mais quatro anos.

Isto foi, em parte, o que o hmfb apontou. Temos ainda, acrescento eu, o herói internacional do ano, Muntader al-Zaidi, e a agilidade do grande inimputável, que muitos apoiaram e agora se apressam a sacudir dos ombros, como na anedota: Xô! bicho de um cabrão, onde houveras de poisar!

De resto, está tudo bem, salvo o tempo de hoje e o que os meteorologistas da crise nos prometem para os anos que aí vêm.

23.12.08

Boas festas


Tríptico de pintor anónimo, Etiópia, finais do séc. XVII, têmpera sobre madeira.

22.12.08

Historieta para Uma Pessoa que não Gosta de Perdizes


Cópia da aguarela de Audubon O Falcão a Atacar Perdizes, 1827

Era uma vez uma avestruz e uma perdiz. Um dia em que chovia se Deus a dava, o mesmo é dizer que chovia a potes, um dia ambas resolveram ir até Mondim, a perdiz montada na avestruz. A avestruz parecia mais um cavalo de duas patas a correr pela serra abaixo, com a perdigota em cima. Galoparam, galoparam, até que chegaram ao destino, e aí não chovia, estava um sol de Agosto, e viram uma dama magrinha à janela a chorar tanto como chovia na terra de ambas.

A avestruz parou, compadecida, e perguntou à dama magrinha e desgostosa:

― Porque choras tanto?
― Oh, não digo, a ti não digo! ― exclamou entre soluços.
― Mas diz, talvez eu possa dar remédio a tamanha tristeza.

Porém, a dama magrinha calava-se e chorava como chovia na terra das outras duas. E assim estiveram vai, não vai, diz, não digo, até que o senhor abade passou ali e parou diante da cena de uma tristeza bucólica mais própria de éclogas que de prosa.

― Porque choras? ― perguntou o padre. ― E que está aqui a fazer uma perdiz a cavalo numa avestruz? Fugiram de algum circo?

A dama magrinha nem teve tempo de responder. A perdiz, ao ouvir tamanho insulto (e muito maior será se pensarmos que é uma ave livre), a perdiz lançou-se como um toiro contra o cura, que tentou enfrentá-la e depois não teve outro remédio senão fugir aos gritos:

―Vade retro, Satanás! Vade retro! Excomungo-te para sempre!

O certo é que a dama magrinha deixara de chorar e ria tanto, tanto que os seus olhos pareciam duas estrelas de luz.

― De que te ris agora? ― perguntou a avestruz, apalermada. Não percebia nada, porque era grande como um cavalo e tinha o cérebro mais pequeno do que uma avelã, aliás como todas as avestruzes.

― Uma pessoa só se ri do mal, mas foi castigo de Deus ― disse a dama. ― Enquanto as confissões foram frequentes, a penitência era sempre a mesma: perdiz! O pecador devia trazer-lhe uma, duas ou três perdizes, consoante o peso da absolvição das suas culpas.

Moral da história, que são três, como as perdizes do confessionário:

Primeira: não há sol que sempre dure nem noite que nunca acabe.
Segunda: o mal que se faz paga-se e não se paga neste mundo.
Terceira e última: as aves não se medem aos palmos e a história passou-se no tempo em que a caça abundava e os homens pareciam um nada mais parvos.

© nd
 
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