18.5.09

Mario Benedetti

Morreu ontem um poeta dos afectos deste blogue. Ia dizer que os poetas de que gostamos nunca deveriam morrer ou ter morrido. Mas isso era a pior das penas a que poderíamos condená-los. Morrerão com a nossa própria morte, e assim é que está bem.

SÍNDROMA

Todavia tenho quase todos os meus dentes
quase todos os meus cabelos e pouquíssima brancas
posso fazer e desfazer o amor
subir a escada de dois em dois
e correr quarenta metros atrás do autocarro
ou seja não deveria sentir-me velho
mas o grave problema é que antes
não pensava nestes detalhes.

Retirado daqui e traduzido agora mesmo.

13.5.09

Obituário #26



O pior é que, morto, despertando,
a vida já não é o que era,
mas hoje sabes nada ter mudado.
Se vês subir às nuvens um choupo surreal,
por certo está na terra com as suas raízes.
Na altura, não sabias isso,
o ecstasy, como o choupos, elevava-te
aonde a brisa afável nasce,
e agora outro sol dá um tom diverso
à serra por que passas cada dia
e onde os giestais floridos
se estendem, amarelos —
ou de ouro, como sói dizer-se em casos destes.

© nd

18.4.09

Maiorias












O clarinetista António Saiote revelou, numa entrevista à Antena 2, que Jorge Peixinho desconfiava da qualidade das suas próprias obras se, na primeira audição, fossem muito aplaudidas. Morreu novo, aos quarenta e cinco anos, mas já sabia tudo de aplausos.

16.4.09


Os deuses são criados de algo que desconhecemos ou receamos. Para T seria muito confuso imaginar o Big Bang e a longa arrumação do Caos como o princípio da nossa origem. Ficaria mesmo bastante em baixo se eu o convencesse de que somos todos filhos do acaso, desde os humanóides que dão como nossos antepassados, não sei se para sossego mais imediato. As certezas têm efeitos ansiolíticos. No entanto, a origem remete-nos para a primeira célula que ninguém sabe ao certo como surgiu, embora não me seja desagradável pensar que o meu antepassado decisivo tenha sido o Sol. Isso causa-me mesmo conforto. Vim da luz, sou luz e gosto da luz do Sol como coisa física.

T também ficará alegre com uma manhã luminosa, mas não deduz dela a sua Génesis. Ficaria horrorizado. E, no entanto, penso, estamos muitíssimo mais perto dessa luz que nos explica do que da visão religiosa de T, que não trata tanto da vida quanto me parece tratar da morte.

24.3.09

Para alguma coisa se é advogado


em proveito próprio. Este está a tentar livrar-se dos companheiros. Isso não se faz. Depois - lembro - não há sentença proferida. E a Justiça, garantem-me, é a estátua ao lado, já do tempo do Ballet Rose e de muito antes. Maioria absoluta! - berremos como badanas.

22.3.09

Pouco tolos —


diria Sancho Pança de Durão Barroso, de Vital Moreira e de Zita Seabra. O primeiro, vindo do MRPP, parece ter garantida a reeleição para o cargo, pelo qual deixou nos braços de Santana Lopes um bebé com novecentos anos; vindos do PC, o segundo (trans)mudou-se de bagagens e linguajar para o PS e não tarda está em Bruxelas; e a terceira, atulhando-se ainda mais (?) à direita , mandou à fava a vanguarda da classe operária, fez-se deputada do PSD e, segundo a revista Ler, que cita o Expresso, agora vai abrir uma livraria que "privilegiará o público elitista". Gente linda.

Ainda Camões abaixo


Afinal, os Lusíadas foram lidos ontem, no CCB, em voz alta e de fio a pavio, por figuras do establishment, pelo menos por algumas, entre todos por quem passaram as oitavas. E também sonetos. Lembrei-me do poema Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos, de Jorge de Sena, e de como poderá ser um bom assunto para outro poema o nome de Camões usado na circunstância da política instalada.

21.3.09

Quem diz que Camões já era?




Não sei se alguém o lembrou neste dia e deu disso testemunho público. Possivelmente, sim. Mas quantas mil vezes mais são citados e ditos muitos outros? E os que se esganiçam para serem vistos? Dia Mundial da Poesia? Sim, é bom, valoriza a mais desvalorizada das artes. O que não presta é a inevitável babujem que se vê sempre a boiar neste dia (e noutros.) E também agir-se como se a poesia tivesse começado no séc. XX.

19.3.09

Partiu em busca










A vida nunca foi aqui. Nem nas palavras que escrevemos. A vida está sempre lá fora e também no que vemos, ouvimos e lemos. Lá fora, onde? Preacher não disse nada no fim de Pale Rider. Uns ficam, outros partem, às vezes encontram-se e riem. Hasta luego, Henrique, essa forma castelhana de nunca se dizer adeus.

18.3.09

Arzak, que o grande cozinheiro me desculpe


Se eu disser que hoje salvei o meu cão Arzak de morrer afogado, isso não terá significado senão para quem o conhece. No entanto, poder-se-ia extrapolar este caso particular para o mundo e imaginar milhares de pessoas a salvar ao mesmo tempo os seus bichos, e milhões de médicos a salvar milhões de humanos, e concluir-se que a vida é uma luta contra a morte. Mais, e principalmente, que desta luta se retira o absurdo do desfecho final, que o esquecimento oblitera ou torna em ideia abstracta, como se não fosse nada connosco. E ainda bem. A vida vai-nos pagando com essa defesa e com os intervalos de existirmos para a alegria, a alegria de termos salvo um bicho, entre outros motivos para ela, neste tempo de misérias várias e muitas, eu sei.

8.3.09

Os títulos às vezes atrapalham


O Henrique Fialho abalançou-se à tarefa árdua de comentar no seu Volumen o livro aí ao lado, tarefa árdua porque é extenso, e fê-lo com visível facilidade e com este começo alegre e irónico (não resisto à tentação do copy paste):

E agora? Todos entretidos a discutir anos 90, heranças e herdeiros; todos muito azafamados na discussão dos futuros, como se houvesse futuro, ainda mais para a poesia; todos muito novíssimos, de rosto eximiamente rapado, já sem passado e só com futuro, tanto futuro que até estonteia.

Também transcreve, no Insónia, um poema desse livro, sobre a desgraça de um cordeiro de rosto ingénuo.

Deixo aqui esta nota de agradecimento, acima do convite, publicada na mesma data que ainda não chegou, enquanto vou colocando em baixo, nas suas datas reais de publicação, o que for surgindo.

28.2.09

Maioria absoluta para o

camarão de Espinho, mais conhecido por camarão da costa, mas sem o Costa por perto. Ainda faz um caril com eles, e são muitíssimo melhores cozidos só com água e sal.

27.2.09

Ratoeiras confusas

O Português tem armadilhas q.b. para sermos sempre apanhados. Quero referir-me a esta frase equívoca. Tanto pode dizer respeito ao êmbolo como ao embolar, e embolar porque a coisa não merece o verbo fornicar, etc. Neste caso, como sempre fui hetero, trata-se do verbo embolar, para o qual o demonstrativo aquilo remete. Feita a rectificação, considero reposta a minha honra machista, salvo seja.

24.2.09

Courbet e Buonarroti

Eu, que em Florença não reparei nas medidas de David, fizeram-me reparar mais tarde no tamanho do membro daquele que iria vencer Golias, qualquer coisa como o meu polegar, que não é membro, é dedo. É que no Renascimento não existiam ainda anarquistas, embora não seja despiciendo imaginar que David houvesse tido por modelo um efebo de Michelangelo Buonarroti.

De qualquer modo, por essa época, praticava-se, na escultura, o culto inverso das monster de que cedo, na juventude, dei conta em Amesterdão, ali para os lados das Red Lamps, onde a polícia é muito mais despudorada que a de Bracara Augusta, e onde uma loira aguentava qualquer coisa parecida à coisa negra de um burro.


Isto não é racismo e não se escandalizem. Não só estive o tempo de apenas ver três ou quatro viagens do êmbolo, como também fiquei a saber o que aquilo resultava em mim e, logo a seguir, a conhecer a água das pedras holandesa. Oxalá esta inconfidência seja do conhecimento do governador civil e do arcebispo de Braga, porque isto se passou antes da adesão de Portugal à CE e depois do Tratado de Roma, e agora que somos partícipes (ia escrever membros) de pleno direito, a actualização da moral e dos costumes impõe-se tanto ou mais do que o neoliberalismo e a obsessão papagaiesca do deficit, que rapidamente se adoptaram como virtude e apenas servem para nos lixar os miolos.

Um livro de Amadeu Baptista

Mais que a unidade que se retém do livro de poemas Os Selos da Lituânia, de Amadeu Baptista, aliás sólida na forma e vasta no universo que une, salta a leitura do verso amplo, dos parágrafos longos a que obriga o emanar poético com uma força que o pensamento controla, por meio de uma disciplina exigente, sem concessões a desbordamentos automáticos, digamos não tanto para referir esse mito do Surrealismo, quanto aparentemente para se despojar da ganga que toda a emanação poética torrencial tende a trazer. Mas escrevi aparentemente, e quero com isso significar que a disciplina da gestação da escrita de Amadeu Baptista já o faz, quando o pensamento, atravessando a memória em estado de subconsciência, define com clareza o que e como está a ser dito no momento. Trata-se pois de uma escrita consciente e controlada, em que está programada, como exigência e necessidade, a vontade expressa de inteligibilidade da linguagem.

Ou seja, parece surgir de novo o assunto polémico da escrita do real versus a herança dos vários modernismos que, em ondas concêntricas cada vez mais afastadas, se vêm sucedendo há quase um século. Mas não. A meu ver, isso assume o carácter de uma questão extemporânea. A exigência ética de clareza no discurso poético é uma necessidade, diremos que pós-moderna, que, em contracorrente, já Jorge de Sena invocava, poeta tutelar cujo nome não poucos calam cuidadosamente. E essa necessidade de expressão poética clara alargou-se, com o acesso facilitado ao conhecimento de outras poesias, quer pelos meios de informação quase instantânea, quer por o desenvolvimento económico crescente exigir cada vez mais e maiores consumidores, neste caso de objectos de cultura. Tudo isto para fundamentar, se preciso fosse, a contemporaneidade do discurso de Amadeu Baptista.

Mas a poesia, na qual se inclui a de Os Selos da Lituânia, não é, naturalmente, apenas uma questão de escolhas formais, fundamentadas no tempo em que surge face à época de que descola (e de que evolutivamente Amadeu Baptista vem, mas isso é outro assunto). É também, por um lado, o testemunho humano do seu tempo; por outro, o tratamento dos temas que conformam a condição humana, manifestada desde os sinais primitivos que contiveram a sua expressão e realidade. E – tão visível neste livro - é também vibração, intensidade, encadeadas num sábio registo coloquial, ritmo, prosódia, descrição fílmica de imagens da realidade que nos suscitam, de outro modo, o que a poesia exige de si mesma: alcançar o âmago da sua própria humanidade, ao dizer mais do que as palavras, por si só, seriam capazes. E, ao contrário do que li algures, é uma poesia que, a comprovar a superficialidade de aí se ter julgado prosaica, ganha em ser dita ou lida em voz alta, resgatando assim o carácter primeiro da poesia, que é ser ouvida, agora já não em paços e salões, mas em lugares públicos onde ela é dita e no complexo contemporâneo das artes performativas.

A temática é ampla, numa obra que inventaria a vida do poeta, “escrever pode ser provavelmente / um ajuste de contas com o passado”, sem sombra desse confessionalismo que impede as palavras de se juntarem esteticamente em poesia, sendo frequente a descrição, diria mais, o reconhecimento e assunção do seu meio social, “substituí o coração do meu avô, que era barqueiro, / por este homem que morava no segundo andar”, num avanço de peito aberto que, nos poemas mais intensos e doridos, me fez lembrar Camões e cuja franqueza me remeteu, como atitude poética, para Walt Whitman, afirmo-o apenas como sugestão por mim colhida, sem qualquer carácter objectivo. Um livro a ler e também a reler, não por dificuldade de entendimento, mas pelo prazer sem cansaço que dá entrarmos de novo nos seus poemas, como sucede com as peças de música de que gostamos.

Os Selos da Lituânia, Amadeu Baptista, edição da & etc, 2008.

22.2.09

A eternidade é neste mundo (antes que se acabe)


Vejo no Da Literatura que Maria Teresa Horta saiu pela esquerda baixa com um volume de 850 páginas. Pelo menos evitou as escadas de serviço do show off. E no que respeita a poesia, o vinho tem dessas coisas.

Estrangeiros

O Henrique Fialho tornou a referir o livro em que juntei a minha poesia, e transcreve um poema onde os dois nos encontrámos. E a propósito deste verbo, é difícil imaginar, através do ecrã, como serão as pessoas que escrevem no lado oposto ao de quem as lê. Um dia, não há muito, depois de anos de vizinhança na blogo, fui até à realidade conhecê-lo. Foi com alegria que os meus olhos e ouvidos o confirmaram como do mundo que também habito e onde preferia viver sempre. Porque quem se fez dele, passada a fronteira, será sempre um estrangeiro, quantas vezes em guerrilha nesse terreno armadilhado.

12.2.09

Fred Matos


Não sei se alguém um dia terá feito um poema comigo dentro. Se isso sucedeu, nunca o soube. Daí a surpresa ao ler o belo poema de Fred Matos, de S. Salvador da Baía, em que estou nas palavras que fui escrevendo. Saravá!

10.2.09

 
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