11.9.08

Imagens



Dresden, 1945

Hiroshima, 1945

Vietnam, 1972

Santiago do Chile, 11 de Setembro de 1973

Nova Iorque, 11 de Setembro de 2001

Nova Iorque, idem

Iraque, Março de 2003

10.9.08

Não podemos diminuir a escrita dos outros num meio tão aberto e tão novo como a blogosfera, sem nos diminuirmos a nós mesmos. Digo isto porque às vezes leio referências desdenhosas ou, no mínimo, paternalistas, a quem aspira a escrever mais do que apenas notas pessoais num caderno digital. É um desejo legítimo, muito para além da qualidade ou da falta dela, e tão legítimo como cada um escolher os blogues que visita. E se juntarmos a esta atitude, uns posts abaixo, a de louvaminhar o que é medíocre mas brilha, temos então rato escondido com o rabo de fora. Ou seja, temos alguém que não é capaz de banir sentimentos turvos, decorrentes da falta de lucidez acerca de si próprio, passe o eufemismo.

Convite

No próximo dia 18 de Setembro, quinta-feira, às 18:30, em colaboração com a Libritalia e nas instalações desta, sitas na Rua do Salitre, 166, junto ao Instituto Italiano, em Lisboa, a DiVersos - Poesia e Tradução, publicada por Edições Sempre-em-Pé, convida a assistir à apresentação da nova poesia de Turim e do Piemonte .

A introdução será feita por Gonçalo M. Tavares. Estarão presentes os poetas Tiziano Fratus e Francesca Tini Brunozzi, e alguns dos tradutores.

Na altura, o editor apresenta o novo número (n.º 14) da DiVersos, no qual estão incluídas quatro vozes da poesia turinense, Francesca Tini Brunozzi, Luca Ragagnin, Tiziano Fratus e Valentina Diana, além de outros poetas traduzidos de outras línguas e originais inéditos de poetas em português. Serão ditos poemas na língua original e em tradução.

9.9.08

das colinas de S. Stefano


Cesare Pavese faria hoje cem anos. Sou pouco dado a efemérides e menos ainda a lembrar-me das suas datas, e esta descobria-a no Henrique Fialho. Encontrei-me com Pavese na juventude adolescente e o ambiente da sua ficção marcou-me para sempre, como que de forma congénita porque eu já existia nele. O mais que pude fazer para lhe agradecer foi ter estudado italiano, lido tudo o que há para ler dele e escrito um poema longo, com o seu nome por título, que começa assim:


Quando eu me alimentava da luz
que o fluir melancólico das palavras
trazia das colinas de S. Stefano

e me abria esse mundo ao meu
que em mim guardava, lendo-nos aí,
nas águas do meu rio que gerara

quadros do Piemonte na outra banda
(…)

A pantera de Dante é outra

Pode dar-se por feliz aquele que descubra movimentos de gata na sua amada. Isto a propósito do que se lê neste barco cheio de flores. Acima, jóia assinada por Jean Cocteau, roubada de uma arca.


Esfinges em supermercados


Há uns anos já, "tive" uma Tatiana assim. Era de carne e osso, como Tatiana talvez seja. Chamei-lhe Mari Consuelo. Um dia desapareceu do supermercado de fronteira onde trabalhava. Perguntei por ela e pelo nome. Se casó, se llama Rosa. Moral da lembrança: nunca perguntes nada sobre esfinges, que logo se tornam humanas e vulgares. Dela só me ficaram uns versos indirectos:

Mari Consuelo

Terás de ver um dia Consuelo,
como os seus olhos são lindos
e como riem jovens quando passo.
Nem sequer imaginas os cabelos dela:
são quase iguais aos teus
e os sonhos que é possível ter com eles.
Depois, sabes, está próxima,
vejo-a todas as quartas-feiras
a arrumar as estantes do supermercado.
Se um dia namorarmos,
decerto não será por ser parecida
com aquela que já foste,
e se vier falar-me de alma como tu,
dir-lhe-ei a alma não existe,
é coisa de mulheres românticas,
pois não quero ver a dela
perder-se como a tua que não tive.

© nd

8.9.08

Uma questão de bifes


Jorge de Reis Sá Reis-Sá (com tracinho), industrial e comerciante de livros por grosso, dá aqui uma curiosa receita para o "bife" de um escritor de horas vagas que queira tornar-se escritor a tempo inteiro. Mas sai tudo tão espartilhado, dirão, que até parece coisa militar. No entanto, para a promoção do livro que o escritor terminou, JR-S é um mãos largas. Três meses, pois então. Sem receber mais por isso e ainda tendo de inventar uns biscates por fora. Senão que vá para pedreiro, como diz, e que escreva nos tempos livres.

Não se faça caso desse bife, deve ser de filet mignon, é uma carne deslavada e, além disso, parece vir com as inevitáveis batatas a murro. De resto, dir-se-ia ser mais a cenoura da história do burro do que aquilo que se vê.

Se apetecer um bife a alguém nessas condições, deixo aqui um bem melhor. O molho é de queijo da serra e o que se vê a nadar nele são míscaros. À direita, polme de tomate assado; por cima, rúcula. Esse alguém vai ver que não precisa de trabalhar de borla. Porque tem de o pagar com as suas mãos livres, e não custa nem um milésimo do outro. Dou a receita a quem a pedir.


7.9.08

O deus SE


Às vezes penso no acaso, melhor dizendo, parte do que penso fundamenta-se no acaso. Como outrora Deus, o acaso é o princípio. Somos quem somos porque, em determinado dia, metemos por uma rua em vez de metermos por outra e existimos porque, há mil anos, um tetravô nosso se cruzou com uma moura que gemeu sob ele, engravidou e pariu o nosso tetravô seguinte, e antes o mesmo com os tetravós deles. Até onde? Nós sabemos, todos sabemos isso: até ao primeiro ovócito humano fecundado, há dois milhões de anos mais umas centenas de milhar. Se então esse ovócito e o espermatozóide que o buscava não se tivessem encontrado, nenhum de nós existiria. O acaso é mais forte que o mais poderoso dos deuses que se tenha imaginado. E muito mais desconfortável. E é deste desconforto que as divindades nasceram, sossegando as perguntas tornadas heréticas e a noção honesta e lúcida do absurdo dos nossos comportamentos e da ignorância do nosso próprio tamanho.

31.8.08

Aquele Querido Mês de Agosto





Arrisco-me a dizer que Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, não é o filme que parece ser. É um documentário, não o sendo de todo, apesar de o realizador o ter assumido assim de início. E podemos dar conta disso no final do filme, quando descobrimos a sua forte unidade, constituída de acasos, actores amadores e personagens reais. Apeteceu-me escrever o guião depois de ver o filme, seguindo a irreverência que é a montagem, a mistura de todos, personagens, reais, de ficção e membros da equipa técnica, e a metamorfose definitiva do documentário em filme.

Uma das suas marcas é a ironia que roça a ternura, obtida por cenas de opostos, como logo a abrir o cantor pimba a dizer João de Deus e depois a cantar a sua canção de letra primária (e até a escolha de João de Deus e do poema tem que se lhe diga); a cena da raposa e dos garnisés; a banda da terra a tocar, a ouvir-se aquele fungagá antigo, enquanto a câmara passava pelo acampamento dos motards; um autotanque dos bombeiros a percorrer uma estrada de macadame e uma canção pimba a ouvir-se com clara nitidez, vinda da festa da vila; um casal de jovens (não fixei nomes) a beijar-se na ponte, enquanto passava uma procissão de andor e tocadores de bombo a zurzir forte nos tambores. Este jogo era nítido e tinha, a par dessa ironia ternurenta, a marca de um grande prazer de realização, como a cena da armação de fogo de artifício que ficou em grande plano a fumegar, suspensa uma porção de tempo, sem mais préstimo, até que saiu dela o cartaz de uma Nossa Senhora, não sei qual, há muitas, o mais certo era ter sido o da padroeira, aplaudida pelos fiéis off que a esperavam.

Uma outra situação de prazer de realização, e também nosso, que assistíamos, foi a a participação dos técnicos do filme no próprio filme, o realizador, o director de produção (que viria a assumir o papel de chefe da banda pimba), o de som e depois, todo o staff técnico, pessoa a pessoa, a intervir, enquanto o seu nome e função surgia no ecrã, num final de uma irreverência deliciosa.

Detesto contar filmes e não vou fazê-lo, mas tenho de dizer que tudo se passa nas serras de Arganil, em Agosto, com um povo ainda pouco tocado pela globalização (ou dela escondido), com figuras que nos apaixonam de tão simples e reais, no meio da festa omnipresente, cantigas pimba, bailaricos, amores, vinho, cerveja, coisas antigas que ainda vivem.

Tudo isto na sessão das 21 h, num cinema de oito salas da cidade onde moro. Comigo, estavam mais sete pessoas na sala, três rapazolas comedores de pipocas e dois casais de namorados, que tinham cara de ter procurado ali refúgio para o tédio. Hoje é comum Portugal ter a arte que merece, com as honrosas execpções de que Sena falava. Desta vez não a mereceu. Pelo menos a cidade, nessa sessão. Éramos oito, e resta-me saber quantos viram o filme.

Não o perca, claro. Fica-se agarrado desde o princípio por tão subtil simplicidade. Foi o único filme português presente no Festival de Cannes deste ano, na Quinzena do Realizador, embora este facto para mim não queira dizer nada ou quase nada, mas isso é já outra coisa.

27.8.08

O Gosto de Ler



Sem ligações, isolado lá por onde andaram Afonso Henriques e o Cristo do milagre, está o Ouriquense. Longe da blogo in, dá-nos o prazer da bela língua que nos calhou, e tanto que Tatiana já me passa diante dos olhos e o Chibanga uiva na grande abóbada do luar de Ourique.

23.8.08

Queda


Não somos deuses e, mesmo assim, abandonamos as mãos do outro, numa espécie suicídio, os pulsos golpeados por vidros da janela de onde olhávamos o mundo que nos salvava.

© nd

22.8.08

Eurípedes


Medeia, Alfons Mucha, litografia, 1898.

"É verdade que a peça parecia (...) demasiado distante das nossas inquietudes." No entanto, P.M. acabou por descobrir o carácter coetâneo de Eurípedes, via Medeia.

18.8.08


Buçaco, fotografia de João Almeida Santos.

A floresta varia com a cor do nosso olhar. As vezes pode ser uma espécie de paraíso lustral, de onde surge um rosto purificado de mulher, como me sucedeu um dia no Buçaco. Trazia os olhos claros, limpos de quanto era humano, salvo ela, a mulher, a única que podia ser humana, porque tinha roubado à floresta o que um dia pertencera aos deuses, o carácter breve e irreal de outro mundo, onde o tempo parecia ter deixado de se medir pelo pulsar do coração e das cidades.

© nd

12.8.08

Os critérios-consequência


Desenho colectivo de alunos do 4º ano de uma escola algures.

Ontem dizia-lhe: o que hoje é mau gosto (estético) poderá ser bom gosto amanhã. É já mais fácil cultivar a vulgaridade e a mediania comum, e estas passarem a medida-padrão qualitativa, do que aceitar que o rei vai nu.

10.8.08

Bolinhos & Pastéis


Roubei aqui estes bolinhos de bacalhau com tão bom aspecto. Os que comi no sábado ao almoço não eram tão bonitos, mas estavam bem feitos. Dispensaria o esparregado, a tolice vulgar do omnipresente arroz de feijão como acompanhamento de tudo, na imagem com arroz agulha em vez de carolino (por exemplo) e mandava o limão embora. Ficaria só a alface. Enfim, acabei por escolher feijão-frade frio com salsa e cebola picadas e uma alface parecida à da imagem.

Falo disto, porque os bolinhos definiram na minha cabeça o motivo da aversão ao nome pastéis de bacalhau que não poucas vezes dão aos bolinhos do dito (seria um assunto para Helder Guégués). Pastéis são constituídos por uma massa cozida no forno (ou frita) e por um recheio salgado ou doce, como pastéis de massa tenra, pastéis de Tentúgal, de nata, de feijão e por aí fora. Pelo menos é o que os dicionários de português on-line rezam (a massa frita é acrescento meu). Ora todos nós já vimos fazer bolinhos de bacalhau: 1 kg de batatas reduzidas a puré, 0,8 kg de bacalhau bom desfiado, salsa picada, ovos q.b. para a massa ficar moldável. Formam-se com a ajuda de duas colheres de sopa e fritam-se em óleo bem quente. Quem quiser genuínos pastéis de bacalhau use esta massa como recheio, envolva-a em massa brick ou mesmo filo, e leve os pastéis ao forno até dourarem. A textura estaladiça exterior dará um toque de cozinha criativa ao almoço e protege a língua portuguesa de confusões.

9.8.08

Foi ontem, há trinta anos

























Com a morte de Ruy Belo, um mês e meio depois da de Jorge de Sena e, muito antes, com a de Fernando Pessoa, formou-se e sobrevive a minha tríade de poetas portugueses do séc. XX. Ler aqui, onde se cita o poema abaixo.

VAT 69

Era depois da morte herberto helder
Ia fazer três anos que morrêramos
três anos dia a dia descontados no relógio
da torre que de sombra nos cobriu a infância:
rodas no adro — gira a borboleta que se atira ao ar
o jogo do berlinde o trinta e um pedradas
nas cabeças nos ninhos nas vidraças
Foi quando verdadeiramente começou
a conspiração dos líquenes cabelos e avencas
na mina onde molhámos nossos jovens pés
e tirámos retratos pra morrer mais uma vez
Os nossos filhos — nós outra vez crianças —
comiam e gostavam das laranjas essas mesmas laranjas
que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal
no quintal que as máximas mãos deixaram já depois
                                                  [abandonado
Era a seguir à morte meu poeta
era na meninice havia festa e na sala da entrada
pensávamos na morte — nunca mais — pela primeira vez
Trincávamos cheirávamos maças no muro sobre a praia
roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos
Era nas férias havia o mar e íamos à missa
ouvíamos a campainha e o padre voltava-se pra nós
—orate frates — ou íamos ao cemitério apesar do catitinha
Era depois da morte sobre a plana infância
o primeiro natal o cheiro do jornal
lido na adega ou na casa do forno
sentados pensativos sobre a terra húmida
Era na infância o sol caía enquanto água corria
entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras
calcados prontamente pelas botas
soprava o vento e vinha a moinha da eira
o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira
e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores
Havia casamentos o meu pai falava
e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças
E os registos mistério tempo da prenhez
Era talvez no outono havia asma
havia a festa da azeitona havia os fritos
ao domingo havia os bêbados estendidos pelas ruas
havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia
Era a primavera o rio rápido subia
os barcos navegavam entre a vinha
e alastrava a sombra e a tarde adensava-se
num espesso e branco nevoeiro de algodão
noite dos candeeiros sombras nas paredes
e minha mãe pegava na espingarda ia à janela
e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe
O leovigildo o marcolino o sítio do miguel
a sesta a monda das mulheres
a queda do bizarro exposto na igreja
isso e o almoço a saber mal
quando vinham da escola pra saber significados
Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das
                                                          [viagens
Eram as festas era o roubo dos melões
era a menstruação oculta da criada
Era talvez em tempos de tormenta
havia ferros entre a palha por baixo da galinha
que chocava os ovos dentro de um velho cesto
eram as nossas casa em adobe
e era o carnaval os bailes os cortejos
Íamos para a praia e eu lia camilo
ouvia o mar bater sem conseguir compreender
como podia estar ali se tinha estado noutro sítio
Era o tempo dos primeiros amores
eu via o pavão adoecia e só muito mais tarde lia
o trecho que me competia entre as amadas raparigas
A casa não ficava muito longe dos montes
não havia a cidade nem os outros
punham ainda em causa o meu reino de deus
senhor de tudo o que depois não tive
Era depois da morte ou era antes da morte?
Mas haveria a morte verdadeiramente?
Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava
se tudo aquilo tinha acontecido
Era o meu pai era esse sonhador incorrigível
sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias
Eram as folhas novas eram os perdigotos
saídos não há muito ainda da casca
Era era tanta coisa
Seria realmente após a morte herberto helder

Ruy Belo, Obra Poética I, Editorial Presença, 1990.

6.8.08

Sobre um romance em início


Hoje respondi ao e-mail de um amigo. Depois de ter editado o seu primeiro livro de poesia, começou há pouco a escrever um romance. Disse-lhe o que sabia, dei-lhe outra comparação, mas a que estará mais próxima da gestação de um romance é a de um edifício como obra de arte. A ideia, o esboço, o anteprojecto, o projecto, a construção a pouco e pouco, vigiada, alterada aqui e além, os acabamentos tão demorados. Tudo muito mais difuso, se é que existe alguma aproximação com a construção meticulosa de um edifício, e, a existir, penso, não será regra. Regra, exigência é possuir uma enorme capacidade de trabalho e uma persistência de rocha. Robert Musil demorou mais de vinte anos com Um Homem sem Qualidades, e não viveu para o acabar. Não sei quanto tempo demorou Jorge de Sena com o também incompleto e admirável Sinais de Fogo, para que tinha um projecto de grande amplidão que a morte não deixou concluir. É certo que o tempo mudou, que tudo é mais breve e que os exemplos que dei são extremos. Mas hoje estar sentado meses, não sei se mais de um ano, a escrever x horas por dia, quando não de atacado, é um feito. Com as excepções que sabemos do passado, por isso é que os autores só de poesia são em geral ociosos, sobretudo os contemporâneos, tão fácil é escrever duas dúzias de versos (que me perdoem a verdade). E mesmo a organização de um livro de poesia, para muitos o cabo dos trabalhos, e sou dos que concordam com isso, o que é essa organização face à disciplina, à força de vontade, à exigência para consigo próprio que a criação de um romance impõe? Impressionante abnegação e persistência, quantas vezes a entrega a uma vida paralela e irreal, com o mundo a cintilar no exterior. Oxalá o meu amigo não ouça as sereias que estão para lá da janela. Que corra as persianas, que se esqueça dos poemas, enquanto preenche as folhas tão longas que os romances têm quando ainda brancas.

3.8.08

de (O) Réquiem




(Mozart) Introitus e Kyrie, direcção de John Eliot Gardiner, com o os Solistas Barrocos Ingleses e o Coro Monteverdi, al Palau de la Música Catalana, Barcelona, Dezembro de 1991.

31.7.08

É pelos livros arderem mal que



Leia-se a saga de Osvaldo M. Silvestre, que foi à procura das Obras Completas de Jorge Luis Borges, em Coimbra. Se O.M.S. pegasse no carro para ir a Salamanca, à Cervantes, e andasse 650 km, ida e volta, talvez poupasse em arrelias o que não pouparia em dinheiro. Mesmo assim, eu telefonaria antes, que o mundo está a mudar até nos redutos mais inesperados. São coisas da democrácia, como por lá pronunciam o malévolo conceito: tu votas, mas comerás sempre o que a gente te der; és livre de expressão, mas não podes ser culto, porque então a tua liberdade acaba onde a nossa começar. Compra e sê feliz a comprar, porém desconfia sempre do que sai pouco e pouco se vê.

E orgulha-te, porque é a partir de ti, cidadão da maioria silenciosa, que educamos meticulosamente as gerações futuras. Os livros ardem bem é em hipermercados e outras grandes superfícies. Ar, ar, ar! gritemos todos AR! para que ardam melhor ainda e se esgotem sem cansaço nesses passeios públicos de sábado. Nos lugares alternativos, o que há é fungos, e compete aos governos democráticos legislar sobre a matéria, que é de saúde pública.

28.7.08


Maya con Muñeca, Picasso, óleo sobre tela, 1938.

Às vezes, arranjamos um dia para nos sentarmos à mesa, sob a figueira. Repartimos como antigamente a carne, o vinho, o pão, a frescura sumarenta dos pêssegos, e fingimos viver sem cuidados. Ao longe, as cidades ardem, a multidão nas ruas, a morte nos guetos, os poderosos em seus prédios altíssimos, guardados por tanques e polícia. E, quando nos levantamos, vemos a mesma miúda a fitar-nos, fugida das cidades, os olhos opacos de futuro. Não têm uma boneca que possa chamar-se Matilde? — pergunta-nos sempre.

© nd

27.7.08


Imagem retirada daqui.

O homem, na esplanada, come amêijoas de uma travessa. Eu tinha andado na falésia à procura de vestígios árabes e encontrara um concheiro pré-histórico de cascas de amêijoas como aquelas, e agora o tempo tornou-se vibrátil, com seus cílios inteligentes, e dele emerge o desconforto de não ter pela frente senão o destino que vai do concheiro à esplanada. Como espécie, não valemos muito, dissera-me Judite. Falávamos de outra coisa, mas esse desencanto também serve aqui. Nunca fomos divinos, nunca incendiámos até ao céu a revolta do deus, para a darmos a nós mesmos. Vamos em um largo, escuro rio anónimo, que nasce na fonte de um acaso distante para desaguar em foz nenhuma, enquanto o homem, tranquilo como o Esteves da Tabacaria, vai picando as amêijoas e deitando as cascas no concheiro pré-histórico.


© nd

26.7.08

Pietà



Pietà, Paula Rego, óleo sobre tela, 2002.

O monge tinha fé e por isso imolou-se no fogo e, como ele, tantos ao longo da corrente do tempo, desde a eclosão das divindades. Dir-se-ia que vêm ao mundo só para morrer assim. No entanto, esse destino não existia, nada está decidido, o fim é, todo ele, uma síntese de cruzamentos e, em última análise, o fruto que a mãe, sem saber, pousa no reverso da alegria.

© nd

25.7.08



Sinfonia n.º 3 ( Sinfonia das Canções Tristes), de Górecki
- 2.º andamento -.

24.7.08


Biblioteca, Vieira da Silva, óleo sobre tela, 1949.

Adolescente ainda, as palavras eram sons que me levavam de fulgor em fulgor, de febre em febre: escrevia como olhava o mar, imaginando cidades na margem invisível do horizonte. Escrevia pela ânsia de viver, pela luz em que julgava ir tornar-me. Há muito que essa luz se apagou e que não escrevo assim. Nem já para fingir viver. Foi longo o caminho de aprendizagem, e trago comigo as personagens que ficaram em mim e que fui encontrando nestes livros todos. Vivemos juntos e sonhamos juntos enquanto durmo. Sem elas eu não existia. O que escrevo, em sua maior parte, não me pertence. Pertence-lhes. E hoje escrevo para resistir, para que nenhuma delas morra senão quando eu morrer.

© nd

23.7.08


Fresco de Pompeia, séc. I (d.C.), Museu Nacional de Arqueologia, Nápoles.

Se entrasses pela porta de um filme de Antonioni, todos olhariam o enigma do teu rosto. Não o saberiam ler, no entanto haviam de ansiar dissolver-se nele como se, de repente, fosse a vida que nunca tocaram, o espelho de um vislumbre perfeito. A mim, que te vejo tantas vezes, sucedeu um dia não me bastar essa imagem, ter de ir buscar outra muito mais distante, e hoje és também a mulher do fresco de Pompeia.

© nd


21.7.08


Criança numa cadeira com a mãe, pintura em vaso grego do séc. V a.C.

Vês gente tua na margem do que era real. São vultos desfocados como se a sombra fosse luz, e a luz, as cores de um filme vago, em que a música de fundo parecesse o apito ao longe de um comboio antigo. Deixa-te estar e olha. Mas não anseies mais do que existe nem te mova a melancolia. Afinal, nesta margem, também há crianças e jovens mães em intervalos alegres de viver.

© nd

13.7.08

Compras



Quando acabarei de ler as cerca de 3.700 páginas destes livros? Hoje comprei o de Ariosto, que saiu no ano passado, pela Cavalo de Ferro. Na Feira do Livro deste ano (Lisboa), comprei os outros abaixo, que andava a namorar há muito. Pediam-me antes 150 euros pelos cinco volumes. Custaram-me 94. E havia aqui quem os vendesse a 25 euros. Pergunto-me se os compraria. Não, não comprava. E não sou lorpa. Se os comprasse, acho que era eu que me vendia.

Post scriptum do post: a raposa de Esopo não anda por estes lados.





11.7.08

"Uma Canção de Camões"



Disseram-me um dia que escrever a canção X devia ter sido de arrancar a pele.

Em Luís de Camões, 10 Canções Ditas por Luís Miguel Cintra

10.7.08

As Sete Partidas Lusitanas

Estou a pensar como poderei ler em diagonal as novéis Sete Partidas de Manuel Alegre, sem despender um cêntimo. Talvez vá à FNAC e me sente a folhear o poema de onze poemas. Não me passaria tal coisa pela cabeça, se não suspeitasse de que o infante D. Pedro pode ser, para Manuel Alegre, o que Virgilio foi para Dante. Nem menos, depois de ter medido e medir Camões e Pessoa. Ver aqui a amável recensão que Y. K. Centeno fez do livro. E ler os versos que lá estão, alguns deles heróicos, no sentido métrico e no sentido epopeico, e doutos. O certo é que ninguém pode exigir lucidez a ninguém. Cada um tem de se bastar com a sua (se a tiver).

FÉRIAS AO VENTO
















Nos flancos dos outeiros da aldeia acampavam extensões carregadas de mimosas. Na época das colheitas acontece que, longe da própria morada, se dê o encontro extremamente odorífero de uma rapariga cujos braços, durante o dia, estiveram ocupados com os frágeis ramos. Tal como uma lâmpada cuja auréola fosse feita de perfume, ela afasta-se, de costas voltadas para o pôr-do-sol.

Seria um sacrilégio dirigir-lhe a palavra.

Com as alpercatas a pisar a erva, cedei-lhe passagem no caminho. Talvez tenhais a sorte de distinguir sobre os seus lábios a quimera da humidade da Noite?

"Sozinhos permanecem" (1938-44), in Furor e Mistério (nota da tradutora).

Em René Char Este Fanático das Nuvens, antologia organizada por Marie-Claude Char e Y. K. Centeno, tradução de Y. K. Centeno, Edições Cotovia, 1995.

9.7.08

Os Atávicos



Este blogue devia ser de leitura obrigatória nas escolas, do 9.º ano para cima, inclusive. Com testes e tudo. Daqui a quinze anos podia acontecer que houvesse cidadãos suficientes para limpar o país do lodo que. Mas a ministra não vai nisso, nem o nosso primeiro, nem os que estão acima dele quer em Bruxelas, quer no globo (globo, para lembrar de onde deriva globalização).
























Ave-do-paraíso, Werner Horvath, 1960-70, óleo sobre tela.

5.7.08

Empadas romanas do tempo de o Pacífico



Faça-se um pastelão de meio alqueire de farinha amassada em água e sal, cobrindo-o por cima como empada; como estiver feita, assopre-se por uma buraquinho, para que fique bem cheia de vento; depois de muito bem cozida, abram-lhe no fundo um buraco redondo, por onde lhe metam duas ou três dúzias de pássaros vivos, e tapando com a mesma massa, mande-se à mesa. Também se faz de pombos ou coelhos vivos.

Em Arte de Cozinha, de Domingos Rodrigues, Imprensa Nacional, 1987.
Nota: Domingos Rodrigues foi mestre de cozinha da Casa Real, no reinado de Pedro II, o Pacífico (1683-1709).

3.7.08

Ugetsu Monogatari (Contos da Lua Vaga) , 1954, Mizoguchi .


Ninguém me perguntou quais são os meus filmes preferidos, uma pergunta de inquéritos juvenis. Lê-se em muitas entrevistas de adultos, quando o entrevistador não tem nada para perguntar. Mesmo assim, irei respondendo. Sem nenhuma ordem.

2.7.08

O engenheiro


Era o que nos faltava para irmos “cantando e rindo” pelo cano abaixo. O inominável kitsch. A desmesura de quem chega de engenheiro técnico, com a assinatura de construções menos que chapa 7, a primeiro-ministro de um país de opereta.

e os doutores











Para retorquir ao Dr. Vital Moreira, que aqui e no Público virou economista de serviço, a Dr.ª Manuela Ferreira Leite podia muito bem mandar avançar a Dr.ª Zita Seabra. Talvez os dois se engalfinhassem por razões conhecidas de todos.

27.6.08

Um poema de Adair Carvalhais Júnior

O poeta brasileiro meu preferido na sua geração, nascido no princípio dos anos 60. Pouco se fala dele. Talvez por a sua poesia ser invulgar e tão contemporânea, fora dos tiques e dos toques que é costume e fora também do eixo S. Paulo-Rio. Lá como cá.

Disse-lhe um dia que a poesia dele tinha muito da música erudita do nosso tempo, pelo carácter muitas vezes atonal, que a dureza do seu ritmo poético tão próprio reitera . Aqui o deixo e também aqui.
 
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