30.6.09

Conexões e desconexões



Limpei a lista de blogues realmente encerrados e de outros que encerrei porque estavam encerrados para mim, e fui escolher, com o cuidado de um gourmet, os que encontrei mais a meu gosto.

Sem ordem nenhuma:

Tempo Contado
Hospedaria Camões
Um Homem das Cidades
O País do Burro
Caderno de Poesia

E, last but not least, o reaparecido e por mim antes muito andado

Dias com Árvores

e o excelente

O Leitor sem Qualidades

que, por embirração do feed, não dá actualizações e ficou no honroso último lugar da lista, honroso porque às vezes os últimos são os primeiros.

29.6.09

Lançamento


Clique na imagem para ver melhor.

A margem e a canoa

Divas e Contrabaixos atribuiu o galardão Lemniscata a este blogue, tornado, quase só um depósito de versos, ainda por cima meus. Eu poderia agora seguir a corrente, mas o que se passa é que, em seis anos já cumpridos de blogosfera, tenho ficado comodamente na margem, sem me meter na canoa. Mas quem sabe não me ajuda a variar a cara e o coração a este lugar? O meu agradecimento a Maria do Rosário Fardilha.

15.6.09

Henrique Fialho

Já com atraso considerável, uma boa notícia para começar a semana. Encontrei de novo Henrique Fialho activo na blogoesfera. Retomou a velhinha Antologia do Esquecimento. Quem me conhece sabe que não digo isto por estar lá um texto que me diz respeito. Isso, o estar lá esse texto, é o menos desta nova. É por alegria. E apetece-me dizer ao Henrique ai daquele que não tem inimigos. Ele percebe, e os inimigos também. E percebem todos os que seguem o seu caminho, sem olhar para o lado.

13.6.09

Julgo que nasceram no mesmo dia

























Ricardo Reis, pormenor de mural, Almada Negreiros, 1958.

(De) Três Sonetos a Lídia,
em Louvor de Ricardo Reis


1

Nada nos sobrevive se não temos
ainda os olhos puros, e a corrente
não conseguimos ver na transparência
dos dias mais antigos e serenos.

A sombra não a queiras, Lídia, é turva
e, ao escurecer a água, turvas ficam
as águas que eram claras, e do rio
se quedam na memória as águas sujas.

Se sentires a sombra não esqueças
que antes dela brilhou o limpo sul
por detrás das colinas que então vias.

Somente assim a vida nos mereça,
os olhos dedicados a essa luz
que dos choupos a ti sempre volvia.

In Dispersão - Poesia Reunida, 2008, Nuno Dempster
.

7.6.09

Nada de ilusões

Ando a ler, entre outros, o livro Amantes dos Reis de Portugal, que aconselho (um trabalho sério, que merecia estar bem escrito). Vou ainda na Idade Média, a entrar no reinado de D. Fernando, passada uma série de casamentos de poder e uma inumerável soma de mulheres de todas as castas. A História não regista os gemidos delas e os roncos reais, mas os nomes e favores de doação e herança de povoações, propriedades e direitos que receberam em troca. E lembrei-me, pela inalterada natureza humana, do excerto abaixo, parte de um texto que me veio parar às mãos. Tem um ambiente tão medieval como o que vou lendo naquela obra. O texto está assinado por José Ricardo Costa. Se há factos nele confirmáveis, há outros que desconheço se o são ou não. Digo isto para os devidos efeitos, que voltamos a olhar em redor, a ver se algum bufo está a ouvir-nos.

"Um bom símbolo da nossa miséria é o casamento entre a filha de Dias Loureiro , amigo íntimo de Jorge Coelho, e o filho de Ferro Rodrigues , amigo íntimo de Paulo Pedroso , irmão do advogado que realizou a estúpida e milionária investigação para o Ministério de Educação e amigo de Edite Estrela, que é prima direita de António José Morais, o professor de José Sócrates na Independente, cuja biografia foi apresentada por Dias Loureiro, e que foi assessor de Armando Vara, licenciado pela Independente, administrador da Caixa Geral de Depósitos e do BCP, que é amigo íntimo de José Sócrates , líder do partido ao qual está ligada a magistrada Cândida Almeida, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, que está a investigar o caso Freeport, caso onde se tem evidenciado um presidente da Eurojust de seu nome Lopes da Mota que, por um acaso da vida, auxiliou essa indefectível democrata e grande defensora do poder local chamada Fátima Felgueiras. Felizmente que este país tem como ministro da Justiça um Alberto Costa que, a não ser aquela questão das pressões sobre um juiz em Macau, há cerca de 20 anos, pouco ou nada tem feito. A bem da pasta de que é ministro, claro."

24.5.09

Para lá do jardim à beira-mar













Brevemente, Amélia Pinto Pais vai ver publicados pela editora Companhia das Letras, de S.Paulo, os seus dois livros mais recentes, Fernando Pessoa, o Menino de Sua Mãe e Padre António Vieira, o Imperador da Língua Portuguesa, ambos editados em Portugal pela Âmbar. Ver mais bibliografia. Amélia Pinto Pais mantém, com invejável regularidade, o blogue Ao longe os Barcos de Flores.

21.5.09

A propósito do que aí vem



O Sócrates lusitano, e não só ele, deve estar a contar com o que se lê no poema abaixo, um poema com dois mil e seiscentos anos. E eu também, mas a minha vontade é inversa à do estadista. Vão ver que nem Berlusconi lhe chega aos calcanhares.

DEMOCRACIA

Esmaga com o teu pé o povo insensato, fere-o
com a ponta do aguilhão e põe-lhe na cabeça um jugo pesado.
Entre os homens que o sol do alto contempla, ninguém acharás,
de facto, tão amigo da escravidão como o povo.


Teógnis, in Antologia da Poesia Grega Clássica, tradução e notas de Albano Martins, Portugália Editora.

18.5.09

Mario Benedetti

Morreu ontem um poeta dos afectos deste blogue. Ia dizer que os poetas de que gostamos nunca deveriam morrer ou ter morrido. Mas isso era a pior das penas a que poderíamos condená-los. Morrerão com a nossa própria morte, e assim é que está bem.

SÍNDROMA

Todavia tenho quase todos os meus dentes
quase todos os meus cabelos e pouquíssima brancas
posso fazer e desfazer o amor
subir a escada de dois em dois
e correr quarenta metros atrás do autocarro
ou seja não deveria sentir-me velho
mas o grave problema é que antes
não pensava nestes detalhes.

Retirado daqui e traduzido agora mesmo.

13.5.09

Obituário #26



O pior é que, morto, despertando,
a vida já não é o que era,
mas hoje sabes nada ter mudado.
Se vês subir às nuvens um choupo surreal,
por certo está na terra com as suas raízes.
Na altura, não sabias isso,
o ecstasy, como o choupos, elevava-te
aonde a brisa afável nasce,
e agora outro sol dá um tom diverso
à serra por que passas cada dia
e onde os giestais floridos
se estendem, amarelos —
ou de ouro, como sói dizer-se em casos destes.

© nd

18.4.09

Maiorias












O clarinetista António Saiote revelou, numa entrevista à Antena 2, que Jorge Peixinho desconfiava da qualidade das suas próprias obras se, na primeira audição, fossem muito aplaudidas. Morreu novo, aos quarenta e cinco anos, mas já sabia tudo de aplausos.

16.4.09


Os deuses são criados de algo que desconhecemos ou receamos. Para T seria muito confuso imaginar o Big Bang e a longa arrumação do Caos como o princípio da nossa origem. Ficaria mesmo bastante em baixo se eu o convencesse de que somos todos filhos do acaso, desde os humanóides que dão como nossos antepassados, não sei se para sossego mais imediato. As certezas têm efeitos ansiolíticos. No entanto, a origem remete-nos para a primeira célula que ninguém sabe ao certo como surgiu, embora não me seja desagradável pensar que o meu antepassado decisivo tenha sido o Sol. Isso causa-me mesmo conforto. Vim da luz, sou luz e gosto da luz do Sol como coisa física.

T também ficará alegre com uma manhã luminosa, mas não deduz dela a sua Génesis. Ficaria horrorizado. E, no entanto, penso, estamos muitíssimo mais perto dessa luz que nos explica do que da visão religiosa de T, que não trata tanto da vida quanto me parece tratar da morte.

24.3.09

Para alguma coisa se é advogado


em proveito próprio. Este está a tentar livrar-se dos companheiros. Isso não se faz. Depois - lembro - não há sentença proferida. E a Justiça, garantem-me, é a estátua ao lado, já do tempo do Ballet Rose e de muito antes. Maioria absoluta! - berremos como badanas.

22.3.09

Pouco tolos —


diria Sancho Pança de Durão Barroso, de Vital Moreira e de Zita Seabra. O primeiro, vindo do MRPP, parece ter garantida a reeleição para o cargo, pelo qual deixou nos braços de Santana Lopes um bebé com novecentos anos; vindos do PC, o segundo (trans)mudou-se de bagagens e linguajar para o PS e não tarda está em Bruxelas; e a terceira, atulhando-se ainda mais (?) à direita , mandou à fava a vanguarda da classe operária, fez-se deputada do PSD e, segundo a revista Ler, que cita o Expresso, agora vai abrir uma livraria que "privilegiará o público elitista". Gente linda.

Ainda Camões abaixo


Afinal, os Lusíadas foram lidos ontem, no CCB, em voz alta e de fio a pavio, por figuras do establishment, pelo menos por algumas, entre todos por quem passaram as oitavas. E também sonetos. Lembrei-me do poema Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos, de Jorge de Sena, e de como poderá ser um bom assunto para outro poema o nome de Camões usado na circunstância da política instalada.

21.3.09

Quem diz que Camões já era?




Não sei se alguém o lembrou neste dia e deu disso testemunho público. Possivelmente, sim. Mas quantas mil vezes mais são citados e ditos muitos outros? E os que se esganiçam para serem vistos? Dia Mundial da Poesia? Sim, é bom, valoriza a mais desvalorizada das artes. O que não presta é a inevitável babujem que se vê sempre a boiar neste dia (e noutros.) E também agir-se como se a poesia tivesse começado no séc. XX.

19.3.09

Partiu em busca










A vida nunca foi aqui. Nem nas palavras que escrevemos. A vida está sempre lá fora e também no que vemos, ouvimos e lemos. Lá fora, onde? Preacher não disse nada no fim de Pale Rider. Uns ficam, outros partem, às vezes encontram-se e riem. Hasta luego, Henrique, essa forma castelhana de nunca se dizer adeus.

18.3.09

Arzak, que o grande cozinheiro me desculpe


Se eu disser que hoje salvei o meu cão Arzak de morrer afogado, isso não terá significado senão para quem o conhece. No entanto, poder-se-ia extrapolar este caso particular para o mundo e imaginar milhares de pessoas a salvar ao mesmo tempo os seus bichos, e milhões de médicos a salvar milhões de humanos, e concluir-se que a vida é uma luta contra a morte. Mais, e principalmente, que desta luta se retira o absurdo do desfecho final, que o esquecimento oblitera ou torna em ideia abstracta, como se não fosse nada connosco. E ainda bem. A vida vai-nos pagando com essa defesa e com os intervalos de existirmos para a alegria, a alegria de termos salvo um bicho, entre outros motivos para ela, neste tempo de misérias várias e muitas, eu sei.

8.3.09

Os títulos às vezes atrapalham


O Henrique Fialho abalançou-se à tarefa árdua de comentar no seu Volumen o livro aí ao lado, tarefa árdua porque é extenso, e fê-lo com visível facilidade e com este começo alegre e irónico (não resisto à tentação do copy paste):

E agora? Todos entretidos a discutir anos 90, heranças e herdeiros; todos muito azafamados na discussão dos futuros, como se houvesse futuro, ainda mais para a poesia; todos muito novíssimos, de rosto eximiamente rapado, já sem passado e só com futuro, tanto futuro que até estonteia.

Também transcreve, no Insónia, um poema desse livro, sobre a desgraça de um cordeiro de rosto ingénuo.

Deixo aqui esta nota de agradecimento, acima do convite, publicada na mesma data que ainda não chegou, enquanto vou colocando em baixo, nas suas datas reais de publicação, o que for surgindo.
 
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