6.9.09

Os pragmáticos

O que eu não entendo é como, em consciência, se pode ir votar no PS do agora mansíssimo Sócrates (também Eduardo Pitta se mostra já mais brando na propaganda em que urgentemente vinha). Porque quem vota no PS de Sócrates & Cia, devia votar no PSD. A coisa é a mesma e mais clara, e, em desfavor do PS, Sócrates precisa, pelo menos, de parecer sério tal como Cornélia, a mulher de Júlio César. Disse que não entendo. Mas entendo, sim, ou não conhecesse o pragmatismo socialista: sob a palavra pragmatismo cabe tudo, da demagogia arrivista ao governo mais à direita desde há trinta e cinco anos. Depois somos um país cujos eleitores se assemelham, em boa parte, aos fãs da clubite do futebol, com 1.ª, 2ª e 3.ª divisões. Outros votam como se comprassem marcas anunciadas na TV. Se pelo menos reparassem nas caras abúlicas e idiotas, estampadas em tantos cartazes.

27.8.09

Email com destinatário confidencial


Caro X Y Z

Ao contrário do que pensa — que por si me avalia —, estou-me nas tintas para aquilo a que chama poesia como acto social. Quantos como você se acotovelam no foyer deste teatro de algibeira, não para garantirem um lugar sentado, de onde possam ouvir poesia boa, mas para estarem na boca de cena a dizer da má e, com isso, a arranjar biscates, ou nem tão pouco assim, se conseguirem lugares de direcção ou perto dela, nalguma instituição cultural do Estado. Neste caso, dará para jantares no Terraço do Tivoli, mesmo que não se goste de cozinha de autor, tanto mais que se arranja sempre modo de o Tribunal de Contas aprovar o pagamento público de menus de degustação. É chique, dá currículo e, a dividir por milhões de contribuintes, é irrisoriamente barato. Depois, temos o gosto com que, em geral, esses, de que você é o mais refinado exemplo, escolhem poesia. Porque, tal como elegem a roupa que vestem, escolhem os autores. Fazem fila uns atrás dos outros e têm pavor de dizer em voz alta que aquela poesia não é como a pintam os más-línguas como eu. Como quer que o tome a sério?

Com os meus cumprimentos,


nd

26.8.09

Arroz de Salpicão



Entraram no restaurante perdido na terreiro-pacense palavra interioridade, um restaurante pouco mais que tasca do campo, onde se almoça por seis euros e meio. Eu estava no fim do arroz de salpicão e, com receio da mais que certa falta de qualidade do vinho, bebia uma espécie de tinto de verano dos castelhanos, mais pobre, só vinho e gasosa frescos, sem gelo e sem rodelas de limão. Eram seis os que tinham entrado, três homens e três mulheres, forasteiros pelo aspecto, topam-se à légua, caídos como que de pára-quedas nestas brenhas.

Os dois homens mais velhos, a beirar os cinquenta, usavam barba. Um deles, à minha frente, de esguelha, na mesa da esquerda, trazia uma t-shirt, onde li Funerária de Mora, e reparei que os outros dois, mas não aquele, tinham a pele estiolada, como penso suceder não poucas vezes a quem lida com funerais e coisas do divino.

O mais novo, de uns vinte e vagos anos, era magro, tinha um bigode ralo e largo, fora de moda, cabelo curto, cara de grão-de-bico, isto é, sem queixo, notoriamente pálida. Pareceu-me o mais estiolado dos dois e o mais gato-pingado, sendo que o da t-shirt era normal, imaginei que fosse um verde, quando reparei nuns símbolos vagamente ambientalistas da camisola, sob as palavras Flumário de Mora, que julguei ter lido melhor, sem saber, como não sei, eu e ninguém, o que seria um flumário.

Chegava o pedido deles, comigo já no melão. O da cara de grão-de-bico e a hipotética esposa de altar, que estava a seu lado, iam comer febras, daquelas deslavadas, que só levam sal. Batatas fritas, arroz, salada. O do Flumário, mais a sua avantajada consorte, foi para o arroz de salpicão. O outro gato-pingado e a mulher em frente receberam o pedido de entrecosto, tão sem sabor quanto as febras do outro. Tamanha vulgaridade de escolha, as febras e o entrecosto, talvez fosse, pensei eu, uma coisa comum a gente que lida com essas coisas do espírito, mais as funéreas que as divinas.

Eu tinha pressa e queria confirmar a palavra na t-shirt. Por fim, depois de alguma ginástica, consegui ler, desiludido: Fluviário de Mora. A palavra fluviário não existe, pelo menos na minha cabeça e no dicionário da Priberam on-line, não estou em casa para ir a outro, mas não será preciso, parece-me um neologismo tolo, originado em aquário, a que, com bem maior impacto, podiam ter chamado Aquário Fluvial de Mora.

Enfim, os outros, por via da minha desilusão, já tinham deixado de ser gatos-pingados; o mais novo, o cara de grão-de-bico, andaria assim pálido porque a sua legítima lhe seria sumamente apetitosa e não se davam repouso; o outro, porque talvez fosse um terceiro escriturário das Finanças e não apanhasse luz do sol. Quanto ao verde, deixara de ser verde para ser não sei se um votante cor-de-rosa, se cor-de-laranja (confundem-se), com a louvável e proveitosa inclinação para escolher cozinha regional, o arroz de salpicão, que estava bem bom.

20.8.09

Condição


Two Figures Fucking in the Grass, Francis Bacon, óleo sobre tela, 1954.

"You are born, you fuck, you die." disse Francis Bacon, a propósito do quadro acima, cuja imagem já aqui pus. A meu ver, esta frase não corresponde de modo algum à nossa nascemos, reproduzimo-nos e morremos, ao contrário do que afirmou uma pessoa amiga. É muito mais intenso o que Bacon disse, como que nos dá um murro e expõe a tão grande precariedade da nossa condição de seres. A grande diferença reside nos verbos do meio das duas frases. To fuck, to reproduce. To reproduce é algo que fazemos nas nossas vidas, muitas vezes com alegria, mas muito espaçada e limitadamente. To fuck, dizem e eu concordo, é a melhor coisa da vida, que repetimos vezes sem conta por isso mesmo, e que o tempo e a morte hão-de levar-nos. Se pensarmos bem, se nos concentrarmos na frase do pintor irlandês, sentimos o dramatismo real do que ele disse. Mas não vale a pena. O melhor nestes dias de calor é bebermos uma cerveja e esperarmos pelas duas da manhã, a gozar o fresco da noite, repousadamente.

17.8.09

Dolce stil nuovo



Dei por findos os poemas sobre Pedro e Inês, cinquenta e oito mais um fora da contagem, fiquei a dois dos sessenta poemas programados. Quatro meses e meio certos, com cerca de mil cento e cinquenta decassílabos, a que eu mesmo chamei do velho, arcaico, «dolce stil nuovo», num desses poemas. Se o ritmo varia do comum verso livre e não pouca gente pensará que a métrica é um anacronismo, embora nos deparemos com exemplos contemporâneos, em Portugal, poucos, e muito mais fora dele, e cá dentro aponto Rui Pires Cabral, no seu Oráculo de Cabeceira, publicado pela Averno, apesar disso, dessa ideia errada (é mais difícil um bom verso dito livre que um bom verso metrificado), a abordagem do assunto e sua linguagem firmá-la-ão neste tempo muito pouco dado a ais e a uis, e às maiores ardências do ah e do oh, que reclamariam o ponto de exclamação no tema que abordei, e não é o ponto que tem culpa - se existe é para se aplicar -, é o sentimentaloidismo e o desbordamento confessional, tão fulanizados que não interessam a ninguém, muito menos à poesia de hoje, antes à coscuvilhice e ao sorriso face a intimidades pessoais, e é isso que muita gente não entendeu, nem Pedro Mexia em cuja explicação nada disse de plausível, nem, depois dele, os que se manifestaram totalmente contra, nem os que a seguir reagiriam a favor do ponto. Enfim, como a poesia tem a importância que tem, mais próxima de nenhuma que de alguma, não contando com o valor para quem a escreve (valor de urgência que sempre variou em grau) e para os trezentos leitores que dizem ter o nosso mercado, convenhamos que cada um faz o que quer sem quaisquer prejuízo ou benefício sociais, e a mim apeteceu-me, nessas circunstâncias desimportantes, pegar em Pedro e Inês e, sem pontos de exclamação pelas razões aduzidas, estourar a dois poemas da meta, digo-o assim porque aproveito a Volta ter acabado ontem.

11.8.09

Escravatura simplex


Ilustração de Maqamat d’Al-Hariri, manuscrito do séc. XIII. Mercado de escravos de Zabid, Yemen.

Não sei o que dirão os do Simplex e os da prima do Simplex, mais o sobrinho de ambos, e acima desses todos, no coruto da árvore pulytiológica , o Eng.º Sócrates e o seu belo aparelho, entenda-se, nomenclatura. Se há escravos em Portugal para trabalhar a terra, é porque isso é tolerado pela máquina pública, que tem um responsável, uma atitude de governo e um partido maioritário. Como querem que um tipo com consciência política leve a sério a palhaçada dessa gente rumo a S. Bento? Qual democracia, qual %$#=()@£=8! Rómulo-remozinhos de barro pintado a mamar nas tetas da loba exangue.

4.8.09

Cada vez mais do mesmo














Pelo menos, podia ser hipócrita.

Claro. O engenheiro da marca Simplex não tem nada a ver com isto. Nem com o IRC mais baixo por que a banca é taxada.

A palavra povo é uma abstracção romântica? É. E um engodo? Também.

29.7.09

O relapso ponto de exclamação

Foi Inês Ramos , no seu Porosidade Etérea, que me alertou para o fumo que vai por aí. A causa é a fogueira a que foi condenado o relapso ponto de exclamação.

E isto de pontos de exclamação, afinal, tem pouco que se lhe diga, apesar de outros tiques gráficos terem muito mais que contar e nada se dizer. O caso, porém, é que estou pelo uso menos que parco do ponto berrante. Aqui, noutros lugares e em papel impresso, quanto me lembre, usei-o uma vez, refiro-me a poesia. Afinal, se o ponto de exclamação existe, é para ser usado, pese a arrelia e o trabalho que o dito me deu, posto e tirado de um poema dez vezes, pelo menos, e finalmente deixado ficar (em boa hora).

Pedro Mexia afirma que o uso do ponto de exclamação prejudica a ambiguidade do texto, justificando: «(…) quando a ambiguidade me parece uma das características mais fascinantes da linguagem.» Ora, se opiniões cada um tem as que quer, já o ser-se propositamente ambíguo (se ambíguo significar polissémico) me parece batota e não uma boa característica da linguagem. Não será por aí. É o próprio ritmo do texto, a sua construção e seu sentido que vão determinar a anulação do mal-educado grito pontuado. Pode ser isto a que Pedro Mexia chame «formas engenhosas».

Todavia,

experimente ir a um bom restaurante de cozinha de autor e leve uma companhia que raciocine como eu. Ao longo do menu de degustação, vão referir-se baixinho à excelência das matérias-primas, às ligações divinais e menos divinais de texturas, sabores, temperaturas e suas oposições e sinergias mútuas, à descoberta de outras cozinhas na cozinha base, ao prazer do calor de vinhos escolhidos por quem saiba e não engane. Não lhes passará pela cabeça sequer usar pontos de exclamação.

Afinal tudo é delikatessen.

No entanto,

se for uma pessoa como eu, tão eclética de lugares como esquisita de boca, e se, num restaurante de terceira, tiver comido uma portuguesíssima feijoada com tudo, desde a orelha fumada ao salpicão do cachaço, passando, pela moira, chouriça e pelas carnes gordas com sal de três dias (sem esquecer o rabo) e um tintíssimo de 14º que não mereça dúvidas, além da sorte que teve, não vai falar assim:

- ai, pá      valente feijoada. e o vinho      grande vinho

Usará pelo menos dois pontos de exclamação, endireitando a escrita, para não parecer que está com os copos:

- Ai, pá, valente feijoada! E o vinho? Grande vinho!

Mudar os nomes aos bois?

Casamento entre pessoas do mesmo género? Diabo de eufemismo. Quer dizer, são dois substantivos que se casam, António com Antonino. Mas também pode significar casamento entre duas pessoas do mesmo calibre ou do mesmo gosto, entre outras especificidades, modo, qualidade, força, estilo, etc. Ver mais aqui.

Heterossexual, não tenho nada a opor ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Votaria sim num referendo, respeitando deste modo a liberdade inteira de se ser diferente, mas não só: fá-lo-ia também pela justiça fiscal e pela igualdade no direito sucessório e em outros ramos do Direito. Não se trata pois disso. Estou é contra o delicado pudor que, ainda por cima, leva a escrever asneiras. Género? Qual género, qual carapuça. Sexo. Nem notam que, escondendo a coisa, estão a ajudar a discriminação contra quem, como na imagem, luta contra ela.

28.7.09

As desventuras da propaganda

A marca Simplex tornou a surgir, agora com algum chinfrim e não sei se outra grafia (parolamente simbólica). Eduardo Pitta, reconhecido activista de Sócrates e cada vez mais defensor do indefensável, parece ter-se indignado por não haver surgido ainda o vídeo da sessão de esclarecimento, sessão feita para a blogoesfera, passe a sinédoque, pelo engenheiro das casas da Guarda. Creio que a Eduardo Pitta falta algum calo político: corre o risco de ficar à espera desse vídeo para lá das eleições de 2017. Entretanto, li, no blogue da dita marca, que a transmissão quase em simultâneo de tão honroso evento, via Sapo, ficou-se pela mira técnica. Apetece-me ajudá-los com uma frase publicitária:

Tudo é simples com Simplex

16.7.09

As Bocas do Bokassa Branco


Qualquer dia desembarca no Terreiro do Paço e, do palanque da imagem, proclama o Império Madeirense do Continente e Ilhas, enchendo enfim os estádios, enquanto põe o bom povo português a dançar o bailinho, para gáudio da sua maioria conterrânea.

30.6.09

Conexões e desconexões



Limpei a lista de blogues realmente encerrados e de outros que encerrei porque estavam encerrados para mim, e fui escolher, com o cuidado de um gourmet, os que encontrei mais a meu gosto.

Sem ordem nenhuma:

Tempo Contado
Hospedaria Camões
Um Homem das Cidades
O País do Burro
Caderno de Poesia

E, last but not least, o reaparecido e por mim antes muito andado

Dias com Árvores

e o excelente

O Leitor sem Qualidades

que, por embirração do feed, não dá actualizações e ficou no honroso último lugar da lista, honroso porque às vezes os últimos são os primeiros.

29.6.09

Lançamento


Clique na imagem para ver melhor.

A margem e a canoa

Divas e Contrabaixos atribuiu o galardão Lemniscata a este blogue, tornado, quase só um depósito de versos, ainda por cima meus. Eu poderia agora seguir a corrente, mas o que se passa é que, em seis anos já cumpridos de blogosfera, tenho ficado comodamente na margem, sem me meter na canoa. Mas quem sabe não me ajuda a variar a cara e o coração a este lugar? O meu agradecimento a Maria do Rosário Fardilha.

15.6.09

Henrique Fialho

Já com atraso considerável, uma boa notícia para começar a semana. Encontrei de novo Henrique Fialho activo na blogoesfera. Retomou a velhinha Antologia do Esquecimento. Quem me conhece sabe que não digo isto por estar lá um texto que me diz respeito. Isso, o estar lá esse texto, é o menos desta nova. É por alegria. E apetece-me dizer ao Henrique ai daquele que não tem inimigos. Ele percebe, e os inimigos também. E percebem todos os que seguem o seu caminho, sem olhar para o lado.

13.6.09

Julgo que nasceram no mesmo dia

























Ricardo Reis, pormenor de mural, Almada Negreiros, 1958.

(De) Três Sonetos a Lídia,
em Louvor de Ricardo Reis


1

Nada nos sobrevive se não temos
ainda os olhos puros, e a corrente
não conseguimos ver na transparência
dos dias mais antigos e serenos.

A sombra não a queiras, Lídia, é turva
e, ao escurecer a água, turvas ficam
as águas que eram claras, e do rio
se quedam na memória as águas sujas.

Se sentires a sombra não esqueças
que antes dela brilhou o limpo sul
por detrás das colinas que então vias.

Somente assim a vida nos mereça,
os olhos dedicados a essa luz
que dos choupos a ti sempre volvia.

In Dispersão - Poesia Reunida, 2008, Nuno Dempster
.

7.6.09

Nada de ilusões

Ando a ler, entre outros, o livro Amantes dos Reis de Portugal, que aconselho (um trabalho sério, que merecia estar bem escrito). Vou ainda na Idade Média, a entrar no reinado de D. Fernando, passada uma série de casamentos de poder e uma inumerável soma de mulheres de todas as castas. A História não regista os gemidos delas e os roncos reais, mas os nomes e favores de doação e herança de povoações, propriedades e direitos que receberam em troca. E lembrei-me, pela inalterada natureza humana, do excerto abaixo, parte de um texto que me veio parar às mãos. Tem um ambiente tão medieval como o que vou lendo naquela obra. O texto está assinado por José Ricardo Costa. Se há factos nele confirmáveis, há outros que desconheço se o são ou não. Digo isto para os devidos efeitos, que voltamos a olhar em redor, a ver se algum bufo está a ouvir-nos.

"Um bom símbolo da nossa miséria é o casamento entre a filha de Dias Loureiro , amigo íntimo de Jorge Coelho, e o filho de Ferro Rodrigues , amigo íntimo de Paulo Pedroso , irmão do advogado que realizou a estúpida e milionária investigação para o Ministério de Educação e amigo de Edite Estrela, que é prima direita de António José Morais, o professor de José Sócrates na Independente, cuja biografia foi apresentada por Dias Loureiro, e que foi assessor de Armando Vara, licenciado pela Independente, administrador da Caixa Geral de Depósitos e do BCP, que é amigo íntimo de José Sócrates , líder do partido ao qual está ligada a magistrada Cândida Almeida, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, que está a investigar o caso Freeport, caso onde se tem evidenciado um presidente da Eurojust de seu nome Lopes da Mota que, por um acaso da vida, auxiliou essa indefectível democrata e grande defensora do poder local chamada Fátima Felgueiras. Felizmente que este país tem como ministro da Justiça um Alberto Costa que, a não ser aquela questão das pressões sobre um juiz em Macau, há cerca de 20 anos, pouco ou nada tem feito. A bem da pasta de que é ministro, claro."
 
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