19.5.10

Apresentação no Conservatório de Viseu


No próximo sábado, 22, pelas 17 horas, realiza-se no auditório do Conservatório Regional de Música de Viseu a apresentação pública de Divina Música, Antologia de Poemas sobre Música, editada pela Proviseu, Associação para a Promoção de Viseu e Região, com a participação da classe de canto e coros do conservatório e a presença de poetas antologiados e do seu antologiador, Amadeu Baptista.

A edição e apresentação desta antologia inserem-se nas comemorações do 25.º aniversário do Conservatório de Viseu.

9.5.10

Notícias

Nestes quinze dias de silêncio no blogue, algo pouco recomendável para a saúde dele, sucederam-me três coisas, entre tantas outras que são do meu de certo modo agitado dia-a-dia.

Uma foi ter iniciado um projecto que requer tempo e paciência, e é, em boa parte, responsável por este silêncio.

Outra, ter assistido, pela terceira ou quarta vez, à representação de Antígona, de Sófocles, agora pela companhia do Teatro Nacional São João, com encenação de Nuno Carinhas.

Houve algo nesta encenação que não me pôs a levitar, ao contrário da que anteriormente vira, de um grupo galego, cujo nome não recordo. Esse algo, concretizo agora, teve a ver com a rigidez da colocação e interligação dos actores, que o próprio cenário, por demasiado óbvio, impunha, mantendo-se assim mais perto do que teria sido a representação original, vulgarizando-se com o não uso de meios cénicos, de que a encenação contemporânea se vale, para fazer do Teatro a mais expressiva das artes, que todas chama a si para o conseguir, do cinema à poesia.


Ontem, o Coro de Câmara da Universidade de Lisboa veio a este velho burgo, e trouxe consigo a contralto Maria João Fernandes, também pintora, licenciada pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, dona do blogue Eco e autora da capa deste e de outros livros. Com o Coro, veio o seu fundador e antigo maestro, José Robert, que terminou o concerto em apoteose, com peças de Rossini do período em que deixou de compor óperas, uma das quais se pode escutar no vídeo acima, mas em outra interpretação. O coro Schola Cantorum do orfeão local, iniciara o concerto com cinco cantochões monótonos e com uma bela composição laica e medieval a fechar.

Entretanto, o piano que era para duas das peças de Rossini, ficou-se nas covas, não apareceu (um piano pesa), e foi substituído por um ligeirinho piano eléctrico de timbre esquisito. Não lembrava ao diabo. O que vale é que somos todos portugueses, pianistas incluídos, e é suma a nossa arte do desenrascanço.

25.4.10

Efeméride como estatuto




(...) «Tão novos e mandados para a guerra»,
choravam as mulheres de Raul Brandão
na praia de Belém
ao ver passar o barco,
agora comandado por três dos cavaleiros
de João Evangelista(...)

© nd

15.4.10

Poemas na memória #2


Stephanie Kornfeld, Lua Cheia, latex e acrílico sobre tela, 2009.

DUNAS

Que vemos aqui, entre as dunas de areia batidas
     de luar, sozinhos com os nossos pensamentos, Bill,
sozinhos com os nossos sonhos, Bill, tão leves como
     os véus que adejam sobre a cabeça das mulheres
     que dançam,
sozinhos com urna imagem, uma imagem a seguir
     a outra, de todos os mortos,
os mortos mais numerosos que os grãos de areia
     amontoados um a um aqui, sob o luar,
amontoados no horizonte e com a forma que as mãos
     do vento lhes querem dar,
que vemos aqui, Bill, além daquilo que desespera
     os sábios,
além daquilo que faz chorar os poetas, que faz com
     que os soldados se lancem para a frente e percam
     a vida à luz do sol: que será, Bill?

Carl Sandburg (EUA, 1878-1967), Antologia Poética, selecção e tradução de Alexandre O'Neill, Edições Tempo, Lisboa,1962.

Original aqui.

14.4.10

Poemas na memória #1



O guincho do ganso selvagem
Incapaz de resistir
À tentação do meu isco.

Enquanto eu, na confusão do amor,
Incapaz de o apanhar,
Fico a ver a ave levar as redes com ela.

E quando a minha mãe voltar carregada de aves,
e me vir de mãos vazias,
que lhe vou dizer?

Que não apanhei ave alguma?
Que fui eu a ficar apanhada nas tuas redes?

In Poemas de Amor do Antigo Egipto, tradução do Inglês de Hélder Moura Pereira, Assírio & Alvim, 1998.

Nota: este poema, como os restantes do livro, terá entre 3.085 e 3.567 anos.

13.4.10

Da quarentena

Um projecto que me veio de repente à cabeça tem-me afastado do blogue, e os blogues, como o amor, requerem assiduidade e persistência. É certo que tenho feito do Esquerda da Vírgula armazém dos versos que vou escrevendo. Este facto inclui-me na classificação de vate blogueiro, cuja principal característica é mostrar versos próprios a quem passe, antes de, se calhar, impressos em papel. Se a uns move igual atitude, a outros move a atitude oposta. Cada qual manipula o que é seu como quer. No entanto, julgo adivinhar na cabeça de alguns que, havendo carimbos para tudo, também haverá um para gente que dá a ler os seus poemas neste meio. Por mim respondo. A poesia tem a importância que tem e, dentro desta, aquela que a tiver, ou seja, pouca na mesma. Refiro-me, claro, à importância que muitos buscam com a poesia e não àquela que, felizmente, bem mais lhe dão como gozo de criação e de partilha pela leitura.

Tudo isto por causa deste silêncio que dura há cinco dias e do tal projecto que, dadas as suas características, não irei pôr aqui, ficando na gaveta onde, afinal, não tenho nada. Vamos ver o que vai surgindo.

Hoje é este vídeo para maiores de 18 anos. Tem cenas eventualmente chocantes, com 2.500 anos e mais.

8.4.10


De Amadeu Baptista, com ilustrações de Ana Biscaia, publicado pela Editora Calendário de Letras, acabou de sair Zoo Musical, o terceiro livro para crianças de Amadeu Baptista, desta vez em quadras.

1.4.10

KO = OK

Julgo que seja incómodo a blogueiros da "especialidade" congratularem-se com comportamentos como o de Morais Sarmento. O mesmo sucede aos "taxonomiólogos" da política. Andam com dois sacos no cérebro: um diz esquerda; outro, direita, sem saberem com clareza o que está dentro deles. Fora dos sacos, é o caos, o politicamente incorrecto, a desobediência civil.

Este texto foi escrito por mim, nos comentários do Meditação da Pastelaria, a propósito de uma entrada sobre a audição daquele ex-ministro do PSD pela Comissão de Ética da Assembleia da República, depois de inquirido, a propósito do caso TVI, por Manuel Seabra, na imagem, deputado do PS .

Veja-se a que monos este país está entregue. Não quero deixar de dizer que, não tendo nunca pertencido a esse naipe, prefiro gente de direita civilizada, como Nuno Morais Sarmento, a medíocres de esquerda ou ditos de esquerda, fingidos, ineptos, trampolineiros e outros adjectivos que o tempo não sei se confirmará.

21.3.10

Marcial e o Dia Mundial da Poesia

Marcial, Marco Valério Marcial, nasceu na Hispânia romana cerca de 40 d. C. em Augusta Bilbilis, perto de Calatayud, cidade esta que foi republicana, mártir da Guerra Civil Espanhola, e hoje, sem dúvida, mais conhecida pelos seus bombons de fruta cristalizada, coberta com chocolate negro. Segundo Plínio, depois de muito andar por Roma, Marcial terá morrido na sua terra natal entre 103 e 104 d. C.

Chegou, com os seus epigramas, na quinta-feira passada, em quatro volumes, enviados pelo Sr. Changuito. Quando os vi, nem hesitei em os comprar, afinal trata-se da sua obra completa, pensei, e eu só o lera avulsamente em antologias, sobretudo epigramas de carácter obsceno. Marcial, como Bocage que nele se inspirou, são bem mais, embora mestres nesse tema de que muito gosto em poesia boa, deles e não só.

Por essa e por outras razões, segue abaixo um epigrama de Marcial, sobre outro assunto, por ser coisa tão comum hoje como há dois mil anos. Festejo assim, condignamente, o meu Dia Mundial da Poesia.

Recitas lindamente, advogas causas, Átalo, lindamente;
     histórias lindas, poemas lindos tu escreves;
compões lindamente mimos, compões epigramas lindamente;
     és um lindo gramático, és um lindo astrólogo,
e lindamente cantas e danças, átalo, lindamente;
     és lindo a tocar a lira, és lindo a jogar a bola.
Conquanto nada faças bem, fazes tudo lindamente.
     Queres que te tiga o que tu és? És uma grande seca.


Marcial, Epigramas, Vol. I, livro II, 7, edições 70, 2000

17.3.10

Às vezes, o melhor. Ontem, no Cineclube.



E o mais elevado, porque em Los Olvidados, de Luis Buñuel, se desce ao mais baixo e se deixa entrever a promessa falhada de crianças delinquentes nos subúrbios miseráveis de uma megalópole, a cidade do México no final da primeira metade do séc. XX. Uma tensão permanente sem apologia nem sentimentalismo, sempre num nível alto, muitas vezes quase insuportável, que nos compromete fortemente com o filme todo. Aqui e além, imagens do surrealismo, sobretudo de rostos e num sonho, mas também em mais cenas, como as do cego e do homem sem pernas.

O amigo com quem fui ver o filme falou-me em neo-realismo, de resto à semelhança de algumas opiniões que pesquisei depois, mas em Os Olvidados não há intervenção apologética, nem bandeiras e salvações, nem confronto de classes, há o ambiente de tensão e de delinquência sem saída, que a câmara e os actores amadores apenas nos mostram. Este filme, que é justamente considerado uma das grandes obras de Luís Buñuel e da História do Cinema, foi declarado Memória do Mundo, pela Unesco, em 2003.

4.3.10

H. G. Cancela - Londres


Wayne Roberts, Piccadilly, carvão, tinta nanquim, tinta sumi, grafite sobre papel prensado a quente, sem data.

H. G. Cancela publicou hoje no seu blogue Contra Mundum um texto de crítica sobre o livro Londres. Têm-me surpreendido aspectos que nunca me haviam saltado aos olhos, e mais uma vez isso sucede neste texto, a mim, que pensava abarcá-los com clareza. Longe disso.

Foi-me difícil encontrar uma imagem de pintura de Piccadilly Circus, como forma de agradecimento a H. G. Cancela que, além de poeta, romancista e ensaísta, é professor na Faculdade de Belas Artes do Porto. Aqui fica, também como espelho dos versos que transcreveu.

27.2.10

Uma conferência há meio século e quatro anos


A propósito da sua recensão no Público acerca do livro O Formato Mulher, de Anna M. Klobucka, baseado na tese de doutoramento da autora, penso que Eduardo Pitta deveria ter referido Jorge de Sena e a sua conferência sobre Florbela Espanca nos Fenianos, Porto, em 1946 (1). Serviria para cotejar ideias com as da novel autora, tanto mais que Eduardo Pitta já citara a dita conferência neste post e portanto sabia dela, muito embora, na brevidade de um só período em que se lhe refere, dê não só uma ideia errada do que Sena proferiu então, mas também não aborde o essencial dessa conferência, que é precisamente o que O Formato Mulher sugere e a recensão confirma.

Entretanto, Eduardo Pitta obteve ontem o Prémio Especial Jornalista ou Imprensa de Edição, na sua qualidade de crítico literário, entre um conjunto de prémios atribuídos pela Revista Ler e pelos consultores Booktailors.

(1) - Ver Estudos de Literatura Portuguesa - II, Jorge de Sena, p. 29 a 45, e nota bibliográfica, p. 313 e 314, Edições 70, 1988.

23.2.10

Tradução de poesia




O Trapézio, sem Rede e Mudanças & Cia são dois blogues exclusivamente de tradução de poesia. Ambos estão há muito nas ligações à direita. Como não há duas gotas iguais, segundo dizem, vejamos as diferenças entre ambos:

- O Mudanças & Cia parece ter ressuscitado de um longo sono de cinco meses, depois de, imediatamente antes, ter dormido meio ano. O Trapézio, sem Rede dorme pouco e tem tanto de actividade quanto o Mudanças & Cia tem ou teve de hibernação.
- Este blogue é colectivo de dois; aquele, individual.
- O Trapézio apresenta em geral poetas não tão conhecidos como o como os do Mudanças, o que pode ser um ponto a favor. Ou não. Depende do tipo de leitor.
- Não têm poetas em comum.
- O Mudanças traduz do inglês e do castelhano, tal como o Trapézio, mas ainda acrescenta o francês e o italiano.
- O Mudanças faculta os poemas na língua sobre que traduz, o Trapézio devia fazê-lo. Em vez disso, remete para a obra e respectiva página. O Mudanças não o faz, talvez por incluir o original que serviu à tradução.

Tendo em conta o ponto acima, o Trapézio parece traduzir bem. Do Mudanças pode dizer-se com segurança que o faz com qualidade, num tempo em que as traduções sabem vezes de mais a aviltamento.

22.2.10

A rainha celta Boadicea



Orgia Literária publicou hoje, segunda-feira, um texto de crítica de Teresa Sá Couto, sobre o livro Londres. Não digo de caras que vale a pena ser lido, porque sou parte interessada. Não digo, mas devia dizer, e assim fica dito. O monumento acima, da rainha celta Boadicea, sito em Londres, cuja referência aparece no final do livro, surge no topo do post como agradecimento a Teresa Sá Couto, a Orgia Literária e a Gonçalo Mira, que aqui destaco da página web que dirige, por haver, além do mais, um bom motivo para isso.


14.2.10

Antologia sobre gatos




















Imagem tirada daqui.

Só à Noite os Gatos São Pardos, Textos Inéditos de Autores Contemporâneos, antologia temática de poemas sobre gatos, com organização de Jorge Velhote e Patrícia Pereira, e ilustrada por Ricardo Ayres. A edição é de Cantinho do Tareco, Associação de Protecção Animal, com o fim de obter fundos para ocorrer aos encargos da sua acção. Colaboraram nesta antologia A. Dasilva O., Alexandra Malheiro, Amadeu Baptista, Ana Luísa Amaral, António Barbedo, António Ferra, António José Queirós, Aurelino Costa, Bruno Béu, Carlos Lizán, Carlos Poças Falcão, Cristina Carvalho, Diogo Alcoforado, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Francisco Duarte Mangas, Gabriel Mário Dia, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, João Manuel Ribeiro, Jorge Velhote, José Álvaro Afonso, José Emílio-Nelson, José Leon Machado, José Miguel Braga, José Viale Moutinho, Luís Filipe Cristóvão, Luísa Ribeiro, Maria do Carmo Serén, Mário Anacleto, Nuno Dempster, Renato Roque, Rosa Alice Branco, Rui Amaral Mendes, Rui Lage, Sara Canelhas, Soledade Santos, Tiago Worth Nicolau, Teresa Tudela, Vergílio Alberto Vieira, Victor Vicente e Vítor Oliveira Jorge.

11.2.10

Henrique Fialho - Roundhouse



Henrique Fialho escreveu sobre o Londres, em Rascunho, com transcrição para o seu blogue Antologia do Esquecimento. Em jeito de agradecimento, deixo ligação para uma foto da Roundhouse, o pub do poema, e, em cima, a imagem do mesmo pub numa pintura a óleo, de Robert E. Wood, Canadá (n. 1971).

10.2.10

Cícero disse: errare...





















Não há duas sem três. Ainda a antologia Divina Música. Por informação de um amigo providencial, faltou-me referir como de Timor-Leste o poeta João Aparício, de quem transcrevo o poema abaixo (pág. 88). A informação sobre a dança, que dá o título ao poema, é muito mais detalhada, pelo que só cito o que me pareceu essencial para bom entendimento. Entretanto, corrigi aqui não só essa falta, mas também a de um nome trocado, o de João Rasteiro: chamei-lhe Rui, que não é nenhum nome feio. Nessa altura, eu devia estar a pensar em aliterações.

TEBE-TEBIDAI-BIDU

Laveiras – Caxias, 4 de Abril de 1955

Que forte e pura
A melodia das tebe-tebidai-bidu!
Anima a semente que ainda dorme,
Ergue-lhe o rosto da terra
Para o bálsamo de Janeiro.

E quando o sol da minha vida
Se enlaça com a melodia,
Uma novíssima semente coroada de kaibauk,
Fecunda e madura, germina
Entre os lábios do meu lindo coração,
Rasgando colinas e montes,
Abalando o céu azul,
Cobrindo de canções todo o universo!

Notas do autor, João Aparício:
Tebe-tebidai-bidu: Danças e cantares tradicionais.(...)
kaibauk: Adorno em forma de meia-lua, em ouro ou prata, utilizado na testa, preso à cabeça, em cerimónias solenes.

8.2.10

O post corrigido





Talvez por João Rasteiro fazer parte, julgo eu, de um projecto híbrido chamado "Oficina de Poesia", é que fui deparar, no seu Centro do Arco, com a minha notícia devidamente corrigida, três dias depois de eu a ter publicado aqui. O meu prosear em texto alheio vai a negrito imediatamente abaixo.

Acaba de sair o livro Divina Música, Antologia de Poesia sobre Música, organizada pelo poeta Amadeu Baptista, com capa e paginação de Inês Ramos, comemorativa do 25.ºAniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu (1985-2010), em edição deste mesmo conservatório, com patrocínio da Proviseu - Associação para a Promoção de Viseu e Região. Esta antologia, onde tenho o prazer de estar incluído, acolhe cento e trinta poemas de outros tantos poetas de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Timor-Leste, onde constam quase todos os nomes "mais importantes" da poesia portuguesa contemporânea. O trabalho de Amadeu Baptista e Inês Ramos resultou num belo e mesmo luxuoso volume de 188 páginas e num livro com poemas de grande qualidade. Parabéns a ambos e especialmente ao Conservatório de Música de Viseu.

Esta última correcção de João Rasteiro parece querer imputar-me o pecado da ingratidão. Mas não o cometi. Tive a oportunidade de dar os parabéns aos promotores da antologia num óptimo jantar, que agradeci, em que até fui o escanção e aconselhei o vinho (Vinha Paz, 2006) e em que elegi, para mim, vitela assada à moda de Lafões, cuja receita muito recomendo a quem gostar de faenas culinárias. Quanto às outras correcções, não as comento.

4.2.10

Cento e Trinta Poemas sobre Música





















Com mais de uma semana de atraso sobre o dia em que tive um exemplar nas mãos e o levei para casa, noticio a saída de Divina Música, Antologia de Poesia sobre Música, organizada por Amadeu Baptista, com capa e paginação de Inês Ramos, comemorativa do 25.ºAniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu, em edição deste mesmo conservatório, com patrocínio da Proviseu - Associação para a Promoção de Viseu e Região. Acolhe cento e trinta poemas de outros tantos poetas de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique e Cabo Verde. Os seus nomes constam deste, como de outros blogues. O trabalho de Amadeu Baptista e Inês Ramos resultou num belo e mesmo luxuoso volume de 188 páginas e num livro com poemas de grande qualidade. Parabéns a ambos.

28.1.10

Saiu depressa e bem














Clicar na imagem se quiser maior tamanho.

A capa é de Maria João Lopes Fernandes, que faz companhia aos versos do miolo, do qual retiro este excerto:



(...) Afinal, em Lisboa, os sem-abrigo cobrem-se com o
[Público,
lembraria uma turista portuguesa,
lavando as mãos diante de vagabundos intoxicados
de álcool e de fome,
provavelmente de solidão,
e sem dúvida de maldade.

Não estou a vê-los em Portugal
agasalharem-se do frio com o Diário da República.
Ainda que o imaginassem, não o fariam com medo
de a polícia os expulsar da casa que não têm
e de os fiscais lhes cobrarem o imposto de habitação,
e assim o meu país europeu mantém-se
na cauda dos índices de conforto.

Eis as notícias que me chegam a Londres
da capacidade de revolta nessa parte ocidental da
[Península Ibérica. (...)

26.12.09

William Blake: Night Thoughts (1797)





















(para Nuno Dempster)


Não há síntese,

mas só mundos paralelos
onde a graça e a desgraça
se encontram
para delimitar o inferno
e o acrescentarem

com a essência e o erro,
a tontura e o desequilíbrio.

Por isso, a minha vida é isto:

trabalhar com as mãos,
amalgamar na boca as cores da ferrugem
e descrer nos triângulos de ouro
da omnipotência:

Deus, a existir, é uma convergência
de patifarias,
com predicados de morte nos cabelos
e os olhos cegos à miséria
que em nome do homem reproduz.

Por isso, ilustro os meus cadernos
com sóis antigos,
adubos incomuns
– e ponho nos meus sonhos

os fantasmas,
a imagem de uma pulga,
com o seu perfil
ausente e circunspecto,
porque assim se faz a perenidade
e, até agora,
nenhuma linguagem foi criada
para tanta inocência.

A norte sobrevivo,
com a neve a queimar-me o coração
e os anjos sobre as árvores:

os anjos negros de que as visões
se iluminam
e de que o meu choro se expande
em cântico e oferenda
para que Urizen e Ahania
respirem,
ainda que ofegantes,
sobre a página.




















Ilustro a profecia
e sou, na terra,
também eu profeta,
fazendo dos azuis e dos vermelhos
horas nocturnas,
sensíveis sagrações,
golpes de chumbo
na intensidade
com que entre nós e os mortos
o provir se estabelece,

e o que é divino recupera
do rosto numeroso da horda
do momento.

O mundo é isto:

Satã a observar Adão e Eva,
o círculo da luxúria,
as canções de inocência,
Bathsheba no banho,

e o rastro de sangue
do exílio
em que reconheço os meus contemporâneos
a subverter a agonia,
sempre sitiados pelo nojo
e a insânia.

O que mais amo é o meu temor
perante as lanças,
o doce anjo,
o tigre:

e as minhas lágrimas secam
nesse páramo,
onde, após o deserto,
só o deserto perfaz a casa,
a minha casa sob o firmamento.

De onde vim
só vi devoração

– tenho nos ombros os sinais dos ferros,
e os meus olhos cegaram pela insídia
com que outros olhos me viram
ao passar;

e ensurdeceu o meu ouvido,
e perdi o olfacto,
e, às minhas mãos,
chegou a febre
de Job,
a febre da ignomínia.

Tigre, meu tigre,
no bosque cintilante
a tua simetria
perdura além dos séculos,

enquanto os astros lançam os seus dardos
para que subsistas na floresta nocturna
e eu te reconheça como único aliado.

E assim volto às chamas do desígnio,
e canto,
e pinto:

porque sei bem que não tenho nome.

O mundo é isto:
cristal fundido e baba
de que os cavalos se afastam
para que a serena viagem tenha início.

E ri o ar,
e ri a floresta

– e ri a verde colina
e a sombra dos pássaros,

e a nossa estridência é como uma fábula
onde só há crianças,
e pão,
e corvos sobre as águas.













Não odeio ninguém.

Sobre a pobreza
juro
fidelidade à terra,
este lugar de sonhos ancorados
e hinos a exaltar
o pastor,
a vigília,

o leite e o mel.

E, pela minha morte,
conjugarei o silêncio profundo,
Sísifo no espelho
e o arco-íris:

topázio,
ocre,
azul fumo,
índigo,

um branco de zinco,
verde absoluto,

vermelho
arenisco,

mínio,
cinábrio,
rosa violáceo
e negro,

negro como o infinito espaço.

Não há síntese:

mas só mundos paralelos
onde os animais rastejam,

que eu vi a pomba e vi o sacrifício,
a pedra e o punhal ─

e o poder do galope,
e os cavalos como cristais nas árvores.

O que mais amo é o meu temor
das lanças:

as anilinas fervem
nessa febre,
penetram-me os ossos,
fundem-se ao meu corpo,
pulsam no meu crânio

e do leve fascínio
sei que o meu nome
é o nome de um foragido ou um proscrito,
que avança sempre em frente,
em linha recta,
em círculos,
até que, numa vitória rasa,
a terra ganha
e à morte outra morte se sucede.

Não odeio ninguém,
ponho nos meus sonhos os fantasmas,
a imagem de uma pulga,



















– eu, que incerto e ágil,
sou como o tigre
que uma mão imortal
aproximou
do lugar dos segredos
e da vida.

E assim volto às chamas do desígnio,

e canto,
e pinto.




Nota: as aguarelas intercaladas no texto são da autoria de William Blake e foram gravadas, entre as mais de quinhentas que pintou com o mesmo fim, para ilustrar o poema The Complaint: or Night-Thoughts on Life, Death & Immortality (1742-45), mais conhecido por Night Thoughts, de Edward Young . Foi nessas aguarelas que Amadeu Baptista se baseou para escrever o presente poema, cuja dedicatória agradeço, agora publicamente, e que pertence ao livro saído recentemente, cuja capa reproduzo acima.

22.11.09

Risos



Estávamos ambos a almoçar umas bifanas e falávamos obviamente de poesia e de projectos, quando, a propósito dos poemas que aqui pus sobre Pedro e Inês, todos eles em decassílabos, me disse:

─ O meu nome é um decassílabo, veja lá.

E comecei a contar pelos dedos Hen/ri/que/ Ma/nu/el/ Ben/to/ Fi/a/(lho), de facto dez sílabas métricas certinhas, repondi, e ainda por cima um decassílabo heróico, tem acento na sexta tónica. Gargalhada do Henrique Fialho.

E continuámos com a poesia às voltas, até que um de nós disse mais ou menos isto, a propósito da fidelidade com que muitos jovens, nos seus poemas, seguem Joaquim Manuel Magalhães, o patrono do desencanto e patrono de outro patrono, que é para muitos Manuel de Freitas:

─ Fazem poemas devastados, tristes, de uma abulia sem saída, e depois vamos encontrá-los por aí a rir às gargalhadas.

8.11.09

Escalpe, Amadeu Baptista



Antes do mais, não sei se não será necessário lembrar aos zeladores da moral pública e às "vestais do puro"(1) que sempre se escreveu poesia erótica, e não somente erótica, também obscena, que é a irmã daquela outra, vulgarmente tímida, quase casta e envergonhada como os dicionários, que nunca trazem a gíria dos órgãos com que fomos feitos e seguramente, depois, instrumentos de nosso prazer e dos próprios dicionaristas.

A propósito deste tema, não vou desfilar nomes de poetas, que tantos são, mas apenas citar o de Marcial,

"(…)Porém os meus livrinhos,
tal como às suas consortes os maridos,
não podem sem caralho dar prazer." (2)

e parte de um texto de Almada Negreiros que convém a este livro: ”Luxúria estimula as energias e desencadeia as forças. É preciso ser consciente na Luxúria. É preciso dispor da Luxúria como um ser inteligente e raffiné dispõe de si próprio e da sua vida; é preciso fazer da Luxúria uma obra de arte.” (3)

Para além disso, há toda uma tradição de poesia obscena portuguesa que reforça, como género poético contemporâneo, o assunto deste livro, conveniente ou pouco conveniente a adolescentes , segundo sejam. Sublinho, de novo e não apenas, o carácter obsceno de uma poesia franca, presente neste novo livro de Amadeu Baptista, composto por um só poema que, na sua vertente explícita, hardcore, se quisermos, não deixa porém de remeter para o Cântico dos Cânticos, não como modelo, nem sequer como influência, que não se sente, muito menos como modo de tratamento, mas como relato da condição humana comum de dois corpos que se consomem de paixão repetidamente num e noutro livro, com linguagens e tratamento diversos. Escalpe busca a exaustão evidente do corpo, não se sabe se de uma noite, se de uma cama, se de uma manhã ou de uma tarde, se de um amor, de que todos nascemos ou deveríamos ter nascido, para alegria de quem viemos.

Nesta cidade de exílio a que Amadeu Baptista calhou chegar, vindo do Porto como eu, e onde a polícia apreendeu o livro de banda desenhada a um ex-eventual editor meu - intitulava-se, ingénua ou talvez provocatoriamente, As Mulheres não Gostam de Foder –, o livro Escalpe, de Amadeu Baptista, não vingará às claras. Mas este assunto sempre se alimentou do gozo em segredo, sabemos lá nós de quantos modos, se o prazer e a satisfação do corpo é um dos motivos mais secretos e centrais da nossa alegria e dos pecados que o divino nos imputa, não sabendo ele, diz-se, das suas delícias.

No entanto, o poema único de que o livro se compõe remete também para uma humanidade lateral a esta, a humanidade dos sentimentos pensados poeticamente, que não é uso surgir em temas de luxúria licenciosa, passe este qualificativo que não me agrada, pelo preconceito que pode deixar perceber e que não tenho, prefiro qualificá-lo com o eufemismo do esvaimento de dois amantes, ou simplesmente com o redutor hardcore.

A este propósito, repare-se no desespero dos versos abaixo, além da força que se realça da contradição entre os dois contendores – que é isso que são, embora dois em um, são sempre dois. E atente-se, para quem goste destas coisas, na beleza formal das duas oposições, a do primeiro verso citado com o segundo, e a do terceiro com o quarto:

"Eu peco por luxúria
e tu pela redenção que vem dessa luxúria:
o ilícito instrumento,
o lícito penhor, que só por este amor nos salvaremos."

Seria bastante curto assentarmos superficialmente numa classificação do tema estrito do livro, quando se lêem descrições de grande beleza como esta:

"(…)Tu levantas o coração no meu
e o meu coração levanta‑se contigo."

Ou então admitirmos a verdade de que é um livro de poesia obscena, que, na sua humanidade, vai mais além do que as baias em que é uso colocar-se o assunto:

"Nos meus e nos teus rins se acumulam
segredos desusados, o real é um cúmulo de árvores e areais
desoladores,
visões devastadoras do silêncio"

Ora é aqui que reside, digamos, a marca registada do poeta, não fala só de cama e de secreções, fala da experiência que recolheu do mundo e que transvaza para a paixão amorosa, e é aí que podemos ver, por entre os adereços da descrição crua, a base da sua voz contra a dos outros, a dos tais zeladores e “vestais do puro”:

"Por mais que queiram,
não nos suportam a pureza da carne
e os seus ritos primordiais
e derradeiros."

Não só Deus, há também poetas que escrevem por linhas tortas, perdoe-se-me este adjectivo, aplicado apenas para se seguir melhor o aforismo. Ou seja: leia-se o livro não apenas naquilo que porventura todos sabemos, mas no que nos é revelado, ou por nos identificarmos com a experiência, ou por descobrirmos nela uma outra dimensão até aí desconhecida em nós.

Escalpe, Amadeu Baptista, &Etc, 2009

(1) Aviso de Porta de Livraria, Exorcismos, Jorge de Sena, Poesia III, Edições 70, 1989.
(2) Epigramas, Marcial, Edições 70, 2000.
(3) (Revista) Portugal Futurista, Almada Negreiros, Contexto, 1990.

26.10.09

Escrever com gozo e alegria: Hugo Milhanas Machado




Hugo Milhanas Machado (HMM) foi para mim uma revelação, quando li, no seu blogue, poemas admiráveis de alegria, tendo como cenário o Tour de France na montanha. Para outros de gosto diverso (não deveria ser este o qualificativo), infelizmente bem mais numerosos, lê-los poderá muito bem ser uma chatice, não sem previamente terem arrumado os poemas com um pensamento lapidar: não se escreve poesia sobre a Volta à França. O gosto das maiorias, mesmo muito minoritárias como é a dos leitores de poesia, enquanto maioria, nunca foi fiável, e não se chame a isto elitismo. Chame-se lucidez sobre a impreparação. Daí o fácil alinhamento pelo que é mais consensual: o que é moda e o que é considerado intocável pela generalidade. O rei nunca pode ir nu, mesmo que vá em pelote.

Dito isto, o que me faz escrever agora sobre o livro Entre o Malandro e o Trágico, de Hugo Milhanas Machado (n. Lisboa, 1984), editado este ano por Sombra do Amor, é o mesmo motivo que me fez contestar uma referência sem base de afirmação, acerca do poeta que HMM é desde os primeiros livros que dele conheço, Masquerade (Sombra do Amor, 2006) e Clave do Mundo (idem, 2007).

Entre o Malandro e o Trágico compõe-se de vinte e cinco poemas, escritos aos vinte e dois anos, que no pequeno preâmbulo o autor diz terem partilhado papéis com os últimos poemas escolhidos para Clave do Mundo. Julgo pouco mais terem partilhado do que esse espaço, ainda que na última parte desse livro, Cantata, nos poemas Bandoleiro e Fisherman’s Blues, se entreveja este livro, acrescentando eu que poderiam ter feito parte dele sem perda de unidade.

Lidos os livros acima, Entre o Malandro e o Trágico, que todos encomendei e paguei, é uma ruptura com a linguagem poética que neles maioritariamente encontrei, em que HMM dá a ler a sua poesia de iniciação. De um modo geral, abundam nela imagens, símbolos e metáforas, poder-se-ia dizer que HMM seria, entre tantos outros, mais um novíssimo, herdeiro do pequeno segundo modernismo que foi em Portugal o Surrealismo (e não a Presença como querem alguns) . Mas não. A ruptura guardou dos poemas dos livros anteriores, a nível da estrutura interior, as elipses e a repetição de palavras ou de frases no mesmo verso ou que passam para o verso seguinte, não como anáforas, mas, na minha leitura, como um modo diferente de realce: “Amanhece / que não vemos/ que não vemos/antes/ vínhamos andando/ pelas lagoinhas(…)” ou “(…)domingo à noite/ quando se querem/ coisas e tanto mundo/ sobram nomes/ é que sobram nomes.” , etc.

Esta ruptura tem uma qualidade bem mais complexa do que porventura poderá descobrir-se numa leitura ligeira. Para se poder falar com acerto, às vezes é preciso demorar-se e ser-se conhecedor de poesia de todos os tempos, e não apenas, digamos, da poesia do séc. XX e XXI, que é o mais que se vê, e ainda estar-se atento e de espírito aberto ao que nos chegue.

Digo isto, porque esta mesma ruptura tem um carácter culto, não de assuntos, não no sentido erudito, mas no do conhecimento técnico da Língua e também no conhecimento histórico da poesia. No entanto, HMM, leitor de Português numa universidade espanhola, não se coíbe de recorrer à impureza da Língua de hoje, cruzada de termos de gíria, meke, cool, em meke usando o k das SMS juvenis, com línguas estrangeiras, o Galego em primeiro lugar, o Castelhano, o Inglês (naquele cool, eventualmente no título de poema Oh, Promenade) e também a variante brasileira do Português, além de uma expressão do português antigo, no último verso do poema de abertura. Talvez HMM saiba de modo menos sobressaltado do que eu que “as línguas (…)/ se derretem/(…) na caca de outras.”(1) , que se transformam, violadas pelas mais fortes, e que a velocidade da luz instalada na informação multilingue, a par de circunstâncias políticas, lhes apressa derreterem-se e morrerem. A verdade é que, em poesia, não é incomum recorrer-se pontualmente a outras línguas, e não é isso que vai contribuir para corrupções puritanas do vernáculo, não sejamos tão castos que morramos virgens ou não façamos da poesia um lugar de proibições, tantas vezes está ela, e bem, longe da gramática. De resto, é fácil saber de onde surgem as contribuições de facto, da tal caca diária que nos entra pelos ouvidos e pelos olhos dentro.

Esta liberdade de HMM é um prazer que se sente, que HMM usufruiu e que nos transmite: “olha deica deica (2)/ que é de voltar/ quando chove do sul” ou, entre mais casos, no poema notável, que transcrevo na íntegra, onde surge o castelhano namorarte, com o clítico não separado.

Terna
destreza para namorarte
diz da onda
sobre as praias
aportadas a sul
a que vens?
a que vens?
Já faz frio
que a lua balalança
de teus braços


Mas temos também neste poema algo que é comum no livro: a busca de significação já não só por imagens da realidade, mas também por subversões da Língua, neste caso subversão morfológica, balalança. De facto a Lua balalança na ondas, todos já o vimos, o que torna a imagem muito mais expressiva e tanto que balança me parece curto e apagadamente vulgar.

As subversões sintácticas, elipses e cortes de sentido, esses então são comuns e só por si jogam um papel muito importante no dizer mais do que as palavras dizem, substituindo-se, com uma grande frescura, à-vontade e alegria, aos processos analógicos do passado, fatigados de tão repetidos.

Cool
o rapaz está atinado
medrou depressa
a pequena
e agora
oh que pena
vimos nós para a morte
se dizemos saúde
à mesa
se o azar até
na praia nos acena
ontem a exemplo
cool
apagaram a infância
somos da mesma narrativa
e ena a sobremesa.

Muito prazer deve ter dado a HMM este último verso, talvez escrito de repente, como parece ter sido. É como que um resgate da infância apagada, dois versos acima. Tanto do indizível comporta que me ponho a pensar para que serve a artilharia de tropos, presente ainda, como artilharia, em poesia vária de hoje.

Escrever com gozo e alegria afirmativa, sem sombra de futilidade, escrever para si mesmo em primeiríssimo e único lugar, é não só um acto de liberdade, como, no caso de HMM, de alguma alforria, não enjeitando o passado, usando mesmo, ó pecado fatal, a rima aleatória, às vezes bastante divertida como a do primeiro poema, Meia-Lua, uma monorrima irregular em ente, um pouco como na poesia árabe, daí talvez a toada peninsular que HMM refere na nota introdutória.

Enfim, este livro dava pano para mangas. Devo referir ainda a capa, propositada e irreverentemente anacrónica: contrasta não só com o apuro da edição, mas também e sobretudo com os poemas. Ilídio J. B. Vasco, autor da capa e da paginação, soube interpretar, pela contradição provocatória, a poesia tão de hoje de Hugo Milhanas Machado.

Notas
(1) de Noções de Linguística, de Jorge de Sena, Poesia III, Exorcismos.
(2) deica deica, expressão galega que pode traduzir-se por adeus adeus.

19.10.09

Poesia e Bacalhau à Brás

Bom, Sr. de Máscara e Chicote, então o Brás fica para o bacalhau, com um cheirinho de Glenfiddich (40 anos) a temperá-lo sem (grande) acento, acompanhado por Vat 69 com água lisa del grifo, à temperatura de Agosto. Ligação estupenda. É que eu não sabia o que era Fortinbras, não o ligava a Hamlet, daí que a mão me tenha fugido para um meio português de preto (ou de branco, é o mesmo), digo isto porque, com a minha mania do vernáculo, deveria ter escrito FORTIMBRÁS. Enfim, fiquei a saber que é o seu alter ego, mas do seu nome de baptizo, nicles. Assim é fácil bater.

Devolvido o seu mimo de abertura, leia o que escreveu (em estilo tardo-barroco):

"Há nitidamente poetas que ensaiam o não levar a sério o escrever livros de poesia – o que, sejamos sinceros, é comedidamente hipócrita numa pessoa que se dá ao trabalho de publicar – e outros que não levam mesmo o escrever livros de poesia a sério e que, não sendo hipócritas por publicarem, são, antes, parvos. Hugo Milhanas Machado, com Entre o malandro e o trágico, corre o risco de cair no limbo entre estas duas categorias."

Foi contra este seu leviano e semi-insultuoso arrumar de um poeta bastante jovem, em quem vejo valor e diferença, que me insurgi. Não o tivesse feito, e eu estaria calado, à espera do livro que afirmei claramente não ter lido. Quando se classifica um autor, como acima, e não apenas um livro, tem de se lhe conhecer a obra, e quando se fala de poesia é preciso saber falar dela, não ficar pelo comum das recensões, ainda por cima mal digeridas, e ser-se intelectualmente honesto. Não só não o foi no modo como argumenta em relação à minha reacção, mas também porque já trazia o HMM ferido na asa, numa entrada de Agosto passado, em que demonstra má-vontade para com o criticado e total ignorância acerca da poesia contemporânea espanhola, infelizmente muito mais viva e publicamente partilhada do que a nossa. Escreveu aqui:

"Vukusic, Fanjul, Clark, Martínez, Marqués, Moreno y De Ory: a nova poesia espanhola (ou sérvia ou inglesa) ou sete novos jogadores para o Villareal?
Aparentemente a nova poesia espanhola anda a seguir de perto as tendências da selecção portuguesa relativamente a estrangeiros. Só é pena não naturalizarem também o Hugo Milhanas Machado."

É preciso dizer que HMM nasceu em Lisboa em 1984 e que é professor leitor de Filologia Portuguesa numa universidade de Espanha.

Agora atente no que escrevi, a começar pelo título:

Um poeta e um só livro

Ainda não me chegou o último livro de Hugo Milhanas Machado, Entre o Malandro e o Trágico, que encomendei. Demoras que sucedem a quem vive mais perto da Cervantes do que da Poesia Incompleta ou da Trama. Dirão, por isso, que não posso falar do livro, como não posso, de facto. Mas posso abordar o que conheço da poesia de HMM.

Estou habituado a fintas e rasteiras, porque estou atento a elas. O seu alter ego incha tanto que até se esqueceu de pôr o fundamental para a compreensão do que afirmei na segunda transcrição que faz das minhas palavras:

mais, não toca, nem valoriza, em termos de marca de whisky, algo que é bastante saboroso na sua poesia e que me dirão ter sido já feito por certo modernismo, nomeadamente o concreto e sua deriva lusitana. É um gosto e um gozo seus, e também meus como leitor, a subversão sintáctica da Língua. Consegue ultrapassar a estafada desconstrução pela desconstrução, usando-a para construir a sua linguagem poética em termos consequentes, inteligíveis e honestos.”. E a seguir engoliu o que não lhe convinha: Uma lufada de ar fresco nunca foi uma corrente de ar. Lá irei ao livro depois de me chegar, dando a mão à palmatória se estas características não estiverem em Entre o Malandro e o Trágico.

Mais afirmo que a poesia de Hugo Milhanas Machado é, em tudo, diferente, senão quase oposta ao que escrevo, e este quase fica para a expressão inteligível de assuntos comuns do humano. Não há aqui "companheirismo cego" e "protecção", mas o mesmíssimo entusiasmo de quando descubro poetas jovens, bons e promissores, e HMM não é o primeiro. Não sou crítico de poesia como o Sr. Fortinbras pretende ser, mas gosto de pensar sobre ela.

Tudo o que afirmou, Sr. Fortinbras, cai por terra apenas com uma ligeira brisa. Sei bem e penso o que escrevo. Julgo que devia tentar fazer o mesmo. Já o conheço de outro blogue que estimava e que, vivendo ainda, me cansou. Vai ver que com este está a passar-se o mesmo.

Ah, e sabe uma coisa? Havia nesta cidade um restaurante célebre de um homem célebre por ter esse restaurante. Vinha gente de todo o país, gulosa de gastronomias regionais, que não poucas vezes eram um bluff. Fui lá, se tanto, três espaçadas vezes, e não pus mais os pés nele, desde que o dono, no auge da celebridade, apresentou a ministros a iguaria regional nec plus ultra: sardinhas assadas com pão-de-ló. Dizia que era comida das aldeias, e não mentia. Talvez não soubesse é que provinha dos garimpeiros do volfrâmio. Estavam tão ricos que lhes parecia pouco adequado comerem sardinhas com a velha broa, e que coisa melhor para a substituir que um pão rico? Pão-de-ló com sardinhas portanto. Assim, os seus whiskies. Não se ofenda, mas olhe que o comportamento de mau-gosto é idêntico.

17.10.09

Um poeta e um só livro

Ainda não me chegou o último livro de Hugo Milhanas Machado, Entre o Malandro e o Trágico, que encomendei. Demoras que sucedem a quem vive mais perto da Cervantes do que da Poesia Incompleta ou da Trama. Dirão, por isso, que não posso falar do livro, como não posso, de facto. Mas posso abordar o que conheço da poesia de HMM.

Fortinbrás faz uma leitura pela rama do poeta e, por essa razão, não a faz exactamente naquilo que é diferente de poetas ditos novos e novíssimos que tenho lido. Diz que é humor o que é uma lucidez clara (clara como antónimo de pesada) e a recusa do tom puído da lamentação e do eu amachucadamente cliché. E mais, não toca, nem valoriza, em termos de marca de whisky, algo que é bastante saboroso na sua poesia e que me dirão ter sido já feito por certo modernismo, nomeadamente o concreto e sua deriva lusitana. É um gosto e um gozo seus, e também meus como leitor, a subversão sintáctica da Língua. Consegue ultrapassar a estafada desconstrução pela desconstrução, usando-a para construir a sua linguagem poética em termos consequentes, inteligíveis e honestos. Uma lufada de ar fresco nunca foi uma corrente de ar. Lá irei ao livro depois de me chegar, dando a mão à palmatória se estas características não estiverem em Entre o Malandro e o Trágico. Posso estar errado e não tenho a verdade de nada, a não ser que o sol se porá daqui a umas horas e outras coisas no género, pela simples razão de que a verdade absoluta não existe e não porque seja moda e bonito não se terem verdades.

14.10.09

Home, de Ursula Meier, 2008



Filme visto ontem, no cineclube do burgo, que um dia ajudei a ressurgir, como membro da direcção. Passou por cá com o título parvo Lar, Doce Lar. Uma história ingénua e idealista, de denúncia sem saída, em defesa do meio ambiente, com uma militância demasiado visível e, além disso, a tocar por vezes o melodrama e outros exageros. Com o pressuposto de denúncia, ou é uma obra forte, concisa e seca, ou desbordante, mas forte, ou arrefece, quando não soçobra. Isto, a meu ver é válido para as artes em geral, embora não tanto para as artes plásticas, ainda que haja obras inolvidáveis de denúncia e génio, refiro-me à pintura.

O filme trata da história de uma família que tem a sua casa num descampado pouco bucólico (valha-nos isso), junto de uma auto-estrada abandonada que era, naquele troço, como que uma extensão da propriedade. A auto-estrada, com a posterior reactivação, tornou-se um símbolo, mas também a bandeira de uma luta sem solução. Quantas vezes travei, na estrada, à noite, para evitar a morte de coelhos, raposas, doninhas e mesmo javalis. É o máximo que podemos fazer, ou então todos mandarmos os carros às urtigas e passarmos de novo a conduzir cavalgaduras.

Apesar do que digo, ou por isso mesmo, um dia fizeram-me ver que as estradas dividem o território dos animais e os expulsam, sob pena de morte, e isso interiorizou-se em mim como uma aberração sem remédio. Assim aquela família, acossada pelos carros na auto-estrada reaberta, que lhe entravam, dia e noite, pela casa dentro, e que acabariam por a expulsar.

Saímos, eu e o amigo com quem fui, para a noite quente. Eu estava a meio-gás, morno. Ficou-me a verosimilhança daquela família, enquanto apenas agregado, e o desempenho de Olivier Gourmet, no papel de marido e pai, e do filho no filme, um miúdo talvez de oito ou nove anos, cujo nome não recordo, e ainda a qualidade da fotografia e aquela cor ambiente indefinível de cinema europeu, bem conseguida.

12.10.09

Lábio Cortado, de Rui Almeida
















Rui Almeida (n. Lisboa, 1972) estreou-se em 2008 com o livro Lábio Cortado e estreou o prémio Manuel Alegre de Poesia, instituído nesse ano pela Câmara Municipal de Águeda, obtendo o primeiro lugar. Não é despicienda a precisão acerca da origem do nome do prémio. Não é Manuel Alegre que o promove, é a autarquia, à semelhança de um número crescente de instituições, autárquicas ou não. Estes prémios constituem, para quem os ganha, a possibilidade de verem editado o seu primeiro livro (e não só esse). Esteja-se ou não de acordo com concursos de originais, queira ou não se queira concorrer a prémios de poesia, o certo é que deles vai crescendo a revelação de novos poetas, valorizando aos poucos uma arte tão socialmente pobre como é, entre nós, a poesia, e, mais, indo buscar-se o valor pecuniário do prémio, facto que é de ter em boa nota, porque se, sem falsos pruridos e pré-juízos snobs, o dinheiro dá sempre jeito, o que conta, e sempre deveria contar, é a poesia que se apresenta: premiada, sei-a da medíocre, para não dizer má, até à excelente.

Não vou atribuir pontos, nem estrelas, nem marcas de whisky (como aqui) a Lábio Cortado, senão tentar indicar os aspectos essenciais, como possível guia de leitura e, melhor ainda, de confronto de ideias, de modo a que cada um confirme a sua própria visão do livro e, em primeiro lugar, o autor, que é quem sabe ao certo as suas escolhas.

Devo esclarecer que este texto é uma evolução do que li a Henrique Fialho no seu Antologia do Esquecimento, pessoa e blogue dos meus afectos.

Quero referir-me à(s) forma(s), aos recursos da linguagem poética e à prosódia; ao tempo em que veio e onde se encaixa; aos assuntos e ao seu resumo em apenas um tema, o modo de o poeta estar no mundo e na vida; à inserção da poesia no seu presente e também no seu passado estéticos, e ainda no presente social e portanto político em que se inscreve a gestação dos poemas.

Na forma exterior, por contraposição taxonómica, à forma interior, ou seja, nesta, o modo de o discurso se articular no poema, parece haver, à primeira vista, a intenção de disciplina estrófica em quase metade dos poemas, quinze em trinta e um, dos quais cinco transbordam o período final da estrofe anterior para a estrofe seguinte, criando falsas estrofes sob o ponto de vista formal clássico, sendo que dois destes (pág. 35 e 49) são uma subversão da ordem das estrofes no soneto italiano (sem métrica nem rima) e um, com um muito saboroso encavalgamento no fim, que anula a regularidade estrófica em que vinha (pág. 31): “Nunca é sombra o gesto de apagar/ O cigarro que esteve aceso./ Sabendo que antes e depois de agora, /o sono.

Portanto, feitas as contas, haveria nove poemas com estrofes aparentemente perfeitas, e um destes, um conjunto de dísticos sem ligação, senão por numeração romana, o que nos induz no erro de buscarmos alguma continuidade no dístico seguinte, como se fosse um poema e não apenas um conjunto de dísticos, e, destes, os três últimos com carácter aforístico, o que me vem confirmar a independência de cada par de versos. No mais, não há metro regular, nem acentuação tónica predominante subjectiva, nem combinação de metros deliberada. Acabamos assim por ficar com oito poemas com estrofes, digamo-lo momentaneamente, regulares.

No entanto, destes oito, só quatro poemas se compõem de estrofes regulares verdadeiras, isto é, contêm em si uma parte do poema, independente das estrofes que a limitam antes e depois, mas que as interliga, e não são passíveis de divisão ou de junção, o que arruinaria irremediavelmente o poema (ver pág. 7, 21, 30, 61). Os restantes quatro poemas têm estrofes falsas, porque podem dividir-se ou unir-se a uma estrofe vizinha, sem prejuízo da unidade, quando muito apenas da mancha do poema. Daí não ser excessivo concluir que a disciplina versificatória é menos que residual em Lábio Cortado. Limita-se a quatro de trinta e um poemas, uma disciplina escassa na exigência, de resto muitíssimo facilitada pelo tipo de períodos sintácticos que predominam no discurso poético deste livro.

Aliás, se Rui Almeida tivesse optado por uma disciplina inequívoca, estaria a manifestar o interesse pós-moderno por composições de forma fixa simples ou composta, pensando eu aqui mais na questão métrica e não no modo de a poesia se resolver esteticamente, interesse esse demonstrado por poesias estrangeiras contemporâneas, nomeadamente, em Espanha, pela Poesía de la Experiencia, opção quase não sentida na poesia portuguesa que vai saindo. Estou a lembrar-me dos decassílabos de Fernando Pinto do Amaral (n. 1960) e ainda das episódicas quadras em redondilha maior de Rui Pires Cabral (n. 1967). Não é o caso de Lábio Cortado, o que se deduz do que ficou dito.

Rui Almeida exprime-se em geral em períodos curtos, o que nos sugere, na leitura, uma dureza brusca, afinal um modo abrupto de dividir o poema, à semelhança de quando era falta grave, na poesia moderna, manifestar qualquer tipo de regras (que nunca deixou de as ter, embora outras). Tome-se, como exemplo, um pouco excessivo, o primeiro poema do livro, aliás um belo poema em seis quintilhas imperfeitas. Se contarmos os períodos sintácticos, o poema tem um de meio verso, três de um verso, oito de dois versos, um de dois versos e meio e três períodos de três versos. Dezasseis períodos sintácticos para trinta versos, uma média de 1,9 versos por período (no geral do livro, esta média não andará longe dos 2,5 versos por período). Esta característica mascara o balanço de uma composição estrófica, mesmo irregular como é a deste poema, e torna dura e heteróclita a sucessão dos versos. A ser assim, as quintilhas, e noutros poemas outro tipo de estrofes, poderão constituir uma opção do autor acerca da mancha do poema, que tem a sua importância estética, e não uma opção de forma clássica tout court. E não será abusivo ir uma pouco mais adiante, sabendo eu que Rui Almeida é um poeta leitor de muita poesia: pensemos então nas aqui mais que faladas estrofes, quase todas irregulares, nos sonetos subvertidos, no inicio dos versos com maiúscula, na numeração romana de alguns poemas, misturada à numeração árabe, nos períodos curtos, que negam o fluir da poesia discursiva, o que insere Lábio Cortado em determinado tipo de poesia e num dos seus dogmas mais importantes, que é a liberdade versificadora (sabendo nós que é bem curta essa liberdade).

Posto isto, será de nos perguntarmos se Rui Almeida deseja alguma forma clássica e se, em vez disso, não a mascara na paródia dela. Julgo que o autor do posfácio de Lábio Cortado, Paulo Sucena, ao referir-se a “uma sólida austeridade formal”, deveria estar a fazê-lo em relação a um tipo de poesia fora das regras tradicionais da versificação, porque essa poesia também tem forma e obedece, em cada poeta, a regras mensuráveis.

Curiosamente, em contraponto, associa-se à particularidade prosódica dos períodos sintácticos curtos uma musicalidade em geral macia, diria clássica, das palavras no verso, com uma sensível alternância vocálica e, frequentemente, com fluidez das consoantes, tudo isto, e mais uma vez, em grande contraste com os períodos curtos. Também aqui, em Lábio Cortado, o poeta é o resultado da leitura de muitos outros poetas, bem como da escolha do ouvido próprio, que é sempre uma comodidade, um sentir-se bem com o som das próprias palavras.

Pela linguagem, numa teia em que são abundantes símbolos e metáforas, e também imagens que se convertem nessas figuras, dando ao texto o dito carácter de teia, por vezes fortemente hermética, que a própria poética da pág. 19 vem enunciar claramente: “(…) Retrocedes a boca ao acaso e falas,/ Projectas na dicção o desequilíbrio enquanto dormes,/ Na inerte sintaxe afeiçoas a voz/ E subvertes as palavras simples. // Um vocabulário marcado por conflitos,/ Desvelamentos de afectos e emoções/ Ampliações de modos e sentidos/ Derramados por uma outra vida.”, é por esta linguagem, ia dizendo, que pode incluir-se Lábio Cortado na sequência modernista (surrealista), como base tradicional de uma parte da recente poesia portuguesa, e não só portuguesa. No entanto, há neste livro , poemas e partes de poema que alargam a malha e propiciam uma leitura mais cómoda, deixando o leitor repousar do esforço hermenêutico e sensitivo da decifração de outros poemas.

A par deste facto, o ambiente central, a desesperança, o sentimento de impotência, o quotidiano repetido sem milagres, mas também alguma claridade, os limites físicos e, em Rui Almeida, também os metafísicos, ocultos em símbolos e metáforas que tentam baixar o tom, e baixam, de um desconfortável conflito ontológico entre o real e o divino, trazem a sua poesia para o nosso tempo pós-moderno, com o respectivo cortejo cinza de situações restritivas, consequência social de um tempo de neoliberalismo selvagem e de perverso avanço tecnológico que, por efeito de os viver, o poeta testemunha, desde logo no seu primeiro livro.

Lábio Cortado, Rui Almeida, Livrododia, 2009.

Nuno Dempster

8.10.09

Sequência Real



vem a caminho a surpresa dos anos setenta e seguintes, tão longe deles e dos circos. São 656 páginas. Nem hesitei, como estou a hesitar com as mil páginas de Bolaño, tão faladas que são de recear. Vou a jogo só com cartas boas na mão. Depois verei se é bluff. Não porque jogue a dinheiro, o 2666 custa quase metade. Jogo o tempo.

28.9.09

Síndroma de Berlusconi



O Alberto João, eleito pela enésima vez imperador da Madeira, disse, com aparente razão, que o povo português devia estar doido, ao ter votado num fulano que anda metido em casos, foi mais ou menos assim, pelo menos é este o sentido de uma declaração sua à TSF, feita já hoje. Esqueceu-se de que com ele sucede, psicologicamente, o mesmo. O "povo" - que é isso de "povo"? - que votou no Alberto João é o mesmo que votou no Sócrates e no Berlusconi. Parte desses eleitores é cúpida, escolhe-os como modelo sonhado para as suas vidas medíocres, tal como gostaria de ser padrinho da Máfia (assunto de largo culto); outra é burra, muitos são oportunistas e, vá, admito que haja gente sincera e honesta, sim, mas clubisticamente invisual, surda e tartamuda.

Veremos agora não poucos flick-flacks e pinos em S. Bento. O "povo" que os elegeu é que se lixa, e lixa-se com toda a justiça, enquanto as metástases dos epizoários, na sequência dos séculos, se vão aproximando do Tesouro Público cheio de dívidas. É bom que assim seja, porque alguém se ri dos patifes e dos parvos, embora se duvide bastante de que nada adianta, de que a atávica maneira lusa de estar mude algum dia. É mais fácil o país desaparecer enquanto tal do que os rómulos e remos de pechisbeque largarem as tetas do animal, a que, de boca cheia, todos esses chamam nação.

26.9.09

Eu sei que a vida está difícil


Fotografia tirada na Cervejaria Trindade, de autor desconhecido.

Mas não era preciso transformar o Da Literatura na trombeta semi-oficial do projecto privado do eng. Sócrates. O blogue mostra a foto que aí roubei e que parece dizer o óbvio. O tempo vai para berluscões e berlusquinos e para as meninas e rapazes que adejam à volta deles. Eduardo Pitta é o primeiro do género masculino, ao lado da mão direita do engenheiro. De braços cruzados, pois então. Tal como o companheiro a seguir, tão sorridente e com os dentes a alvejar tanto que logo me lembraram os do dr. Portas. O que vale é o povo adorar que o lixem, e nada há de mais legítimo.

17.9.09

Uma Prenda

Amadeu Baptista trouxe-me hoje o livro da imagem acima, no regresso de ter ido a Setúbal receber o Prémio de Poesia Bocage 2009. Tinha-lhe dito não sei quando e sem mais, que andava, há muito, à procura desse título de Erskine Caldwell, para o reler e para o ter. Li-o em jovem, na primeira edição (o da imagem é da segunda), livro que perdi ou deixei perder nas andanças e mudanças da vida. Telefonou-me de Lisboa a dizer que tinha uma prenda para mim, tão longe estava eu de a surpresa ser A Estrada do Tabaco, mas não longe da sua gentileza: Amadeu Baptista é um gigante amável, propenso a esses gestos.

Fomos almoçar juntos; Amadeu, umas belas tripas à moda da nossa cidade(1); eu, a olhar para a feijoada, uma mísera dieta de perder peso, por antes ter andado a comer como um gourmet descontrolado. Durante o almoço, falámos da cerimónia da entrega do prémio, que me deixou bastante bem-disposto (bebi água). Não fui a Setúbal, é longe, e a minha vida anda ocupada de mais para meu gosto, mas Inês Ramos foi e escreveu o que abaixo deixo copiado, retrato incluído, e colo, igualmente daí, o poema que Amadeu Baptista leu na íntegra, durante a cerimónia, com a sua voz poderosa e bem colocada, estou a imaginar a cena e o palco. Seria digna de um vídeo no Youtube, para efeitos da campanha e não só.

(1) Nasci em Ponta Delgada, de onde saí com menos de dois anos. Considero-me do Porto, onde vi o mundo pela primeira vez e onde me sinto como se fosse a minha terra natal. Se sou de algum lado, é daí. Daí são as referências da minha infância.

"O poeta Amadeu Baptista recebeu ontem (dia de Bocage), no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, o Prémio Manuel Maria Barbosa du Bocage 2009, modalidade de poesia, promovido pela LASA (Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão).
O júri do concurso atribuiu por unanimidade os prémios a Amadeu Baptista, pelo trabalho “Atlas das Circunstâncias”, prémio de Poesia (2500 euros) e a Mário João Rosas Rebelo Correia, pelo trabalho “A Insónia”, prémio Revelação (1500 euros).
Na cerimónia de entrega do prémio, perante a ampla assistência e os membros da mesa composta pelo representante do Governo Civil de Setúbal, a Presidente da Câmara Municipal de Setúbal, o Presidente da LASA e o Presidente da Biblioteca Nacional em representação do Ministro da Cultura, Amadeu Baptista explicou que, sendo um poeta desempregado e porque tendo várias vezes solicitado ao Ministério da Cultura o estatuto de mérito cultural (do qual nunca obteve resposta, apesar de ter 30 livros publicados e ter recebido até ao momento 10 prémios literários, sendo este o 11.º) concorre a concursos literários para não ser um indigente. E perante a mesma assistência e plateia, Amadeu leu, do primeiro ao último verso, o poema que escreveu há poucos dias sobre Jorge de Sena, que me enviou para publicação neste blogue e que pode ser lido aqui."

Trasladação dos ossos de Jorge de Sena

De Santa Bárbara chegaram os ossos do poeta
que a pátria exilou. Uns pulhas de um assim chamado Ministério
da Cultura, que não dão à poesia a mínima importância,
ergueram-se a esse gesto como se não se soubesse
quanto os poetas detestam, como tantas e tantas vezes
foi provado e a paródia eleiçoeira, desta vez,
fez promover, não por amor aos versos, certamente,
mas para marcar a determinação da pequenez
em que todos morrem de fome da fartura enfatuada
desta gente. A ocasião, como é comum dizer-se,
faz o ladrão, e a estes não escapam as oportunidades
que o brio predador lhes aconselha, sujando tudo em volta,
dando a tudo o que é grande a represália de sempre,
tal como a todos os poetas já fizeram,
tal como fizeram ao Botto e agora ao Sena fazem, que esperou
mais de trinta anos para que a terra portuguesa de vez o afeiçoasse,
notando-se que como clandestino aqui chegou, agora,
não pela obra dele ou os seus actos, mas pela solerte ratice da                                                                                                [canalha
que nunca subirá a púlpitos para pedir desculpa do mal que nos tem                                                                                        [feito
e à poesia sempre odiará por lhe saber o fantástico poder que a                                                                              [cilindra.
Brancos os ossos chegam às exéquias da trasladação que por                                                                                    [demais tardou
e não há corais de crianças das escolas a entoar-lhe cânticos,
não se promove gente a ler-lhe os livros, não se lhe divulga a obra,
nem os telejornais abrem com a notícia da chegada justa,
a todos convocando não só a que assistam e aprendam, mas que
                                                                             [usem
a sua arte de música e de palavras para ampliar a verdade e a

                                                                             [liberdade,
o corpo e os sentidos, a dignidade de resistir a tudo,
por mais que o vilipêndio se prolongue e se não salde nunca a dívida.
Não é para admirar. De humilhações, exílios e imbecilidades sofreu

                                                                             [Jorge de Sena
durante toda a vida e este misto de preito e de omissão está na linha
do que a pandilha execrável é capaz, tratando-se de dar com uma                                                                               [mão
para tirar com a outra, como é próprio do descaramento e do

                                                                             [
oportunismo
que, imparável, os há-de condenar ao esquecimento de nunca terem                                                                               [nome,
nem espinha dorsal, nem verticalidade, nem ossos que alguma vez
                                                                             [possam
passar por nossos.

Amadeu Baptista
(inédito)
 
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