10.9.10

Na vez de um caderno #2



Perante aquela avalanche de livros de toda a espécie, sobre mesas e em estantes atafulhadas, há só uma saída: escrever (se for uma necessidade não fisiológica).

Os que sonham adiar o seu êxito para a eternidade literária enganam-se. Vida há só uma, a eternidade é um balela. Que o digam os do show off & mainstream.

8.9.10

Na vez de um caderno #1



O futuro é anteontem, Amadeu Baptista há pouco.

Não se pode acordar um homem que finge dormir, provérbio índio navajo.

18.8.10

O Todo e a Parte



Eu teria acrescentado alguns ao título da transcrição da entrada abaixo, ou mesmo muitos, ficando Alguns Poetas ou Muitos Poetas. As generalizações são pouco exactas, passe a la palissada, e incluem, neste caso, poetas que não são tolos nem ambiciosos entre miseráveis ou entre gente fina, tanto dá, a atitude é exactamente a mesma. Feita esta ressalva, na qual não me incluo nem deixo de me incluir, mantenho o que transcrevi, e mais como sinédoque, tomando quem assim procede pela poesia que se empina, apesar de ser hoje a arte mais pobre, socialmente falando. É aqui que a transcrição bate certinha.

15.8.10

Conferindo ideias

É notório a todos que os poetas procedem por hipérboles: para Petrarca, ou para Gôngora, todo o cabelo de mulher é ouro e toda a água é cristal; esse mecânico e grosseiro alfabeto de símbolos desvirtua o rigor das palavras e parece fundado na indiferença da observação imperfeita. Dante proíbe esse erro a si mesmo; no seu livro não há uma palavra injustificada.

A precisão que acabo de indicar não é um artifício retórico; é afirmação da probidade, da plenitude com que cada incidente do poema foi imaginado. O mesmo cabe declarar dos traços de índole psicológica, tão admiráveis e ao mesmo tempo tão modestos.

Jorge Luis Borges, in Nueve Ensayos Dantescos, Alianza Editorial, Espanha, 2006, tradutor de serviço.

6.8.10

Curso Intensivo de Jardinagem, de Margarida Ferra


No final de ter lido Curso Intensivo de Jardinagem, de Margarida Ferra (n. 1977), doravante MF, publicado pela & etc em Maio deste ano, com capa de Luís Henriques, ficou-me não apenas a ideia, mas também o gosto de uma poesia urbana, limpa, sem tiques, sem cenários imaginariamente programáticos, sem as velhas complicações na exploração semântica das palavras que, caricaturando, por se quererem tantos significados quantos leitores haja, o mais certo hoje é, in extremis, nem o próprio escrevente saber o que escreveu. Por outro lado, a poesia de MF, que nos dá logo no seu primeiro livro, não é, nem precisa de ser uma poesia complexa, nem a complexa é mais do que a que nos parece linear, pouca o sendo, como se sabe, de resto como a de MF não o é.

Um dos atractivos desta poesia é o horizonte urbano, próximo do dia-a-dia, e o equilíbrio que nele se descobre, o qual, por identificação ou por vontade de nos vermos também assim, o tornam nosso enquanto leitores, ultrapassando desse modo o registo meramente pessoal. O poema Play, de que abaixo transcrevo excertos, faz-nos entrar num mundo de equilíbrio como pouco se vê na poesia portuguesa mais recente, sendo que equilíbrio será uma palavra maldita para alguns, desconfiando eu que esses não sabem nem o que é desequilíbrio, nem, muito menos, o seu preço.

«Não há na minha lista nenhum nome incompleto,
nenhum pacto sobrevivente,
nenhuma resposta extraviada. (…)

Não me lembro de números antigos,
qualquer palavra desnecessária,
fotografias com mais de quinze anos.
Na minha vida sempre tive dois filhos.

Nasci com dois seres inteiros —
uma menina e um menino —
dentro de mim,
toda a minha lista acabou de se fazer há dez segundos. (...)»


Mas também esse horizonte se torna complexo pela vontade da ocultação metafórica, não só por palavras e sintagmas isolados, mas igualmente por peças inteiras que os contêm, a começar pelo excelente título, Curso Intensivo de Jardinagem, que, não gostando eu de escrever sobre as minhas interpretações, me vejo forçado a fazê-lo, por me parecer importante e por me surgir unívoco o seu sentido figurado, bem como o de todos os poemas da primeira parte do livro, Jardinagem, que nos conduzem para o fazer poético e correlatos, mesmo o poema Curso Intensivo, cujos sapatos vermelhos nos indicam o caminho passado e presente. Este (de)curso, junto com o título da primeira parte, Jardinagem, formam o título do livro e justificam a aprendizagem, que é bem mais extensiva do que o título parece querer dizer, mas que, na verdade, não diz, não se refere a jardinagem (o fazer poesia), mas ao caminho dos sapatos vermelhos, à intensidade da vida que eles testemunham.

A chave da solidez, presente neste livro de estreia, qualidade a que já outros se referiram, e que vim a confirmar na leitura e releitura dos poemas de MF, na contenção, no corte dos versos e no ritmo a que este pertence, na musicalidade por vezes eufónica, não só se deve ao que aqui se escreveu, irá para três anos, mas também ao que o poema Álbum, desta primeira parte, nos deixa inferir:

«Dobro a roupa
em monte
os doze meses inteiros,
e tento juntar, incapaz,
duas peças com sentido.
As que ficam,
isoladas,
sem uso provável,
escondo-as dentro de páginas brancas (…)

Em dez anos encontro
um herbário inesperado:
folhas perenes e secas (…)»


Não é preciso ser-se hermeneuta encartado, nem sequer um hermeneuta de domingo, e eu não pretendo ser uma coisa nem outra, para se entender esta primeira parte e, por maioria de razão, as outras que não se socorrem da linguagem da parte inicial, cujo desejo de ocultação funcionou, a meu ver pelo motivo de que não era o ‘ocultismo poético’ que se queria, mas um discurso que possibilitasse a diluição da autodiegese, e também que tornasse mais eficaz o que havia a dizer num conjunto que trata da própria poesia de MF, sem dúvida um tema melindroso para quem o expõe e que MF ultrapassa com mão segura, a qual deu poemas tão belos como Flores Nocturnas, Álbum e Curso Intensivo e que fazem desta parte uma das mais notáveis, senão a mais notável do livro, não fosse injusto ignorar a parte Isto não São Versos, que contém, a meu ver, o poema entre os poemas todos, Algés, mas também Areeiro e Solstício de Verão, para citar três de cada uma.

Aquele desejo de ocultação volta pontualmente, penso que pelo mesmo motivo base, na terceira parte do livro, Playlist, agora de modo mais cerrado. Trata-se de outra forma de ocultação, em que o poema já não é a metáfora maior, mas referentes dele, assim os dissimulando por necessidade de discrição ou de não confessionalismo, ou por ambas as razões. Não deixa de ser curioso, como confirmação do que escrevo, que, no poema Play, muito parcialmente acima transcrito e de uma clareza transparente, a ocultação surja, forte, em contra-mão, na página seguinte, a 28, nos dois últimos versos e um pouco no primeiro dessa página, este, no entanto, levando-me para uma interpretação sensitivamente fácil:

«(…) És tu, eu, nas polaroids que nunca disparámos da ravina(…)

(…) e uma frase com a palavra xadrez
no lugar de um complemento.»

E, se afirmo que estes dois últimos versos do poema são bastante cerrados na sua significação, é porque a palavra complemento me desvia para o campo gramatical, em virtude de um outro vocábulo, frase. Mas, se me abstiver disso, e trocar o verso do xadrês por jogo de dois, e complemento do seguinte por afago, o sentido doestes versos torna-se óbvio. De resto, esta interpretação vem confirmada num dos mais belos poemas desta parte, o poema 8, no verso “Nunca será o tempo de um jogo de tabuleiro.” Mas não é de interpretação que quero tratar, e sim da linguagem específica de alguns poemas desta parte, o 3, 4, 6 e 7, e que toca inclusive um poema tão inteligível como Play.

A segunda parte, Quatro Divisões, e a quarta, Isto não São Versos — se ando aos saltos é por conveniência —, são escritas só aparentemente com a linguagem da primeira parte, Jardinagem. Porém, neles não há sentido metafórico, são poemas de ‘ligação directa’, que não perdem de modo nenhum para as outras partes no confronto de poder sugestivo, creio que não reconhecer isto é uma ideia feita, e não poucas vezes não entender nada faz bater palmas à mesma, ou mais ainda, com queima de incenso à mistura (a propósito, estou a lembrar-me do segundo poema do livro, na pág. 10).

Finalmente, Curso Intensivo de Jardinagem é, além de um livro de poesia, uma compilação de poemas em quatro partes, cada parte bem arrumada, com o seu título e a sua especificidade. Não sabemos da cronologia dos poemas, é possível que tenha sido feita uma escolha aturada, a crer nos dez anos referidos no poema Álbum, um trabalhão, e que MF optou por estarem presentes duas linguagens. O livro não perde com isso, é um compilação e como tal é una na sua arrumação diferenciada — outros dirão que perde, mas temos de desconfiar de ideias feitas. Talvez o livro exigisse uma pequena nota final da autora sobre a feitura do livro, mais nada. No mais, já é bastante a poesia de MF ter surgido para a luz em que nos movemos. Como haveria eu de lê-la quatro vezes como li? Sem dúvida que a perda maior, no meu caso, seria não sentir a empatia imediata que senti por esta poesia.

Nota: Curso Intensivo de Jardinagem foi-me oferecido por um amigo que sabia o que estava a oferecer-me.

22.7.10

Estranhas Criaturas, de Henrique M.B. Fialho


Henrique Manuel Bento Fialho, HMBF a partir daqui, trouxe agora à luz Estranhas Criaturas que, na abertura do livro faz datar de 2009, e que veio a ser publicado pela Deriva no passado mês de Junho.

Às vezes, no início de livros, está a chave da cancela de portagem que dá acesso à estrada onde, ao fundo, se lê FIM. Aqui, todavia, fim tem o significado de finalidade, a de ajudar a revelar-nos aonde nos leva a estrada por onde vamos lendo.

Assim funciona a epígrafe de Estanhas Criaturas, retirada de As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, da história 5, da parte de As Cidades Ocultas. Lendo-a, sabemos que Teodora, a cidade da história, foi sujeita, ao longo dos séculos, a invasões sucessivas de pragas de animais, que o homem foi vencendo, até conseguir a sua paz e a sua ordem, era o que todos os teadorenses já pensavam. Mas, da biblioteca da cidade, dos tomos de Buffon e de Lineu, acordaram de longa letargia toda a sorte de seres mitológicos malditos, que reocupam Teodora e a governam.

HMBF serve-se não só da epígrafe retirada desta história, como denunciadora de um tempo convulso, e talvez final, que sentimos ser o nosso (a que o tempo de outros irá suceder, acrescento eu), mas também como fornecedora de títulos aos textos, os nove nomes da citação, mais doze de figuras mitológicas malfazejas como aquelas, ou outras figuras perversas, retiradas da Literatura, Dr. Jekyll, Dr. Mabuse e Zaroff. Não é despicienda a função lateral que estas figuras têm no livro, a de reforçarem a sua unidade, já de si conseguida, quer pela disposição dos textos, quer pelo tom verberante que HMBF confere à escrita, um modo que, por si só, conseguiria a unidade, mesmo depois de baralhada toda a ordem do livro.

Tal como em As Cidades Invisíveis, sem mais nenhum contacto que o já dito de denúncia do nosso tempo, HMBF utiliza o texto curto, raramente maior do que uma página, que vemos hoje usado com democrática frequência e desbarato, ainda assim bem mais curtos, com o olho na clientela de leitura dita sem tempo disponível — nada de generalizações, ouço —, o que em Estranhas Criaturas não sucede, por ser um tamanho que assenta bem no carácter frequentemente alegórico, a que a figura ou o termo do título dos textos reforçam.

Ainda: alguns dos textos exigem esse tamanho por assumirem a forma de poema em prosa(1), que raramente requer proporções maiores. Temos, como exemplos claros de poemas em prosa, Água Benta, Aguarela, Basilisco (uma bela alegoria), Casas, Esfinge, Hidras, Morte, Poemas, Profetas, Sátiros, Vento e Zaroff, o último texto do livro, que avulta como final e como poema em si. Haverá mais poemas em prosa, porém foram estes que se me salientaram com maior clareza.

A linguagem poética usada não exige nenhum hermeneuta, é, pelo contrário, imediatamente digerida, mesmo quando, aqui e além, se transmuda em necessidade de significação e entra no campo sensorial da escrita e da leitura.

São ao todo quarenta e oito textos, em que sobressai a revolta social, a crítica mordaz, a rejeição, a irrisão da figura de poetas, cujo exemplo mais refinado é, desde logo, a Introdução ao livro, escrita pelo próprio, e presente nos textos Ophiuchuos, Quíron, Unicórnio, Vampiro, não sei se saltei algum texto. Digo que o barrete servirá a muitos, só que aposto 1 contra 1.000 que ninguém o vai pôr, isto é coisa que HMBF sabia antes de a escrever, e mesmo assim não só a escreveu, como a publicou, digo-o para melhor exemplificar o desassombro de todo este livro. Não é um livro que faça bem ao fígado, mas aos olhos garanto que faz. E não esqueça, para o fígado há o Cholagutt. Ataque logo, na primeira toma, com trinta gotas, o dobro do que eles mandam. Remédio santo.

(1) Não poucas vezes se comete a sinédoque de substituir poema em prosa por prosa poética. A prosa poética é a que define o poema em prosa, mas também que pode estar presente em peças de prosa tout court, ficção, crónicas, etc.

22.6.10

Minimal Existencial, de Paulo Tavares




NEPTUNO

Neptuno dorme; e não grites em pânico
se te for essencial deixá-lo dormir por um pouco.
A água das fontes corre impotável
e a cidade cresce na noite como uma clareira
onde nenhum encontro é possível: ampla e luminosa,
sustém em rede todas as formas de esquecimento.
Neptuno dorme, nas rotundas e nos jardins,
pelo êxtase lúdico da amnésia. Por isso,
não lhe grites em pânico; e se te for urgente
interromper o fluxo dos resíduos em excesso,
se te for essencial dormir também por um pouco,
sê breve nesse sono, e traz contigo a torrente
de uma fonte impoluta.


Minimal Existencial, de Paulo Tavares (n. 1977), é o segundo livro de poesia do autor, agora com edição da Artefacto, depois de Pêndulo, editado em 2007 pela extinta Quási e já aqui referido.

Minimal Existencial, que toma o título do penúltimo poema da compilação, é um livro de arrumação complexa. Com isto quero dizer que exige de nós a sua desmontagem, em busca do entendimento de uma ordem, a ordem do autor ou a nossa própria imaginada, e a intenção com que o autor assim a dispôs ou a intenção que vemos nela, isto para quem estas coisas importam, pelo menos tanto quanto para aqueles que pensam um livro com evolução facilmente visível na disposição dos poemas. O certo é que esta arrumação teve o condão de me provocar, e não apenas isso, também os adereços necessários ao efeito e ao próprio poeta, como logo o que surge na primeira página do livro, que é uso vir em branco, quebrando assim essa norma consuetudinária:

[poesia para duas personagens e um narrador]

Isto remeteu-me, logo no início, para um livro de texto de teatro e só agora para uma peça de música, mas a música não tem o sentido interventivo de que a arte dramática fundamentalmente vive.

Porém, na página a seguir ao índice, a última, em que estão os dados legais, surge o título do livro e, imediatamente a seguir, aquele entre parênteses, como se fosse um subtítulo a posteriori. Este facto poderá ou não fazer parte de um jogo do poeta. Nada altera porém o que me lembrou de início.

Não é intenção meter-me em interpretações, mas pergunto-me até que ponto um livro de poesia não é encenação do próprio poeta, que a si mesmo se vê e, autopsicograficamente, se finge , não somente num solilóquio, mas também num diálogo entre si mesmo e o que o rodeia, não somente numa indagação fenomenológica, mas também num acto testemunhal do que o condiciona como ser ontológico e social, aqui já me refiro à poesia de Paulo Tavares. Leia-se e ouça-se o poeta no vídeo acima e, ao mesmo tempo, repare-se que o Neptuno de que o poema trata é o da estátua do Largo de Dona Estefânia, em Lisboa, que o vídeo mostra e que, por qualquer motivo, o poeta chamou para o poema. Compreender-se-á este complexo de forças interiores e exteriores de que se gera a poesia de Minimal Existencial, que o mesmo é dizer, de Paulo Tavares.

Voltando à arrumação do livro – e falo dela, porque tenho gozo em fazê-lo e porque revela uma atitude de libertação do cânone –, a primeira parte dir-se-ia uma introdução, não sucedesse dois dos poemas parecerem negá-la, embora sendo apenas três, hipótese que a parte seguinte vem pôr de lado, só com quatro poemas, cuja soma de palavras não ultrapassará a soma da primeira. Além disso, o facto é que a introdução, para além de, antes, as epígrafes (de Jorge de Sena e de Peter Hanke), se deu com o título desta parte inicial, título que de novo provoca e instiga:

Aviso:
Esta Acção É completamente
Irreversível


Isto, apesar de o primeiro poema do livro, Linha a Linha, ter também carácter introdutório, no entanto umbilicalmente mais ligado ao título da parte que inicia do que a si mesmo como introdução:

Segue linha a linha
a página ausente, o texto corrido
até ao abismo disperso.(…)

Parece-me claro que esta forma ambiciosa, e conseguida, de se iniciar um livro de poesia sobe o grau de expectativa acerca do que vem a seguir, expectativa que a leitura confirmou como unidade conseguida e, mais, indispensável.

Tal como no livro de estreia, a inadequação à realidade é um leitmotiv, e não só se mantém, como parece crescer em relação ao primeiro livro, o que poderá significar, se a cronologia da feitura dos poemas se ajustar com a sua publicação, que a poesia de Paulo Tavares reflecte, com o rigor de um instrumento de medida, o agravamento social do presente e do futuro em que vivemos. Veja-se a força com que essa inadequação participa no poema e a intensa imagística de que se serve (pág. 21):

Ainda o som hipnótico
das ambulâncias, a repetição aguda
dos alarmes de incêndio e a antiaérea
num infernal compasso de espera.

e na pág. 25, no poema Órbita Irregular:

Sento-me
sobre os despojos do mundo moderno
para repensar um pouco a sua órbita,
mas eis que o silvo dos projécteis,
o fumo, a fúria, o caos me impelem
do mesmo modo, mas não totalmente
rendido, à corrida por um abrigo.

Também a abordagem amorosa ocorre como inadequação, a inadequação da rotura, na segunda parte do livro, Volume Incerto, a que disse acima ser formada por quatro poemas, três deles constituindo uma série perfeita, intitulada precisamente Rotura. Um livro a não perder.

20.6.10

Vuvuzelas e facas



As vuvuzelas não tardarão a silenciar-se. Uma vida, como sempre, reduzida a cinzas. A erisipela deixará de afligir os de olhar torvo. Blimunda, no entanto, permanece, e o espírito do morto será lido pelos vivos.

7.6.10

Niconor Parra




Escute o poema e acompanhe aqui a tradução, e não deixe de ler todas as traduções de poemas de Nicanor Parra que têm vindo a ser postas, da autoria de Henrique Fialho.

26.5.10

Inútil, a revista exterior à crise, e um poema de Amadeu Baptista que vem nela

No n.º 2 da luxuosa Revista Inútil, saída em Abril, com uma tiragem de 800 exemplares e 670 g para 56 folhas de papel couché mate, capa incluída, quase da mesma gramagem daquelas, no inusitado tamanho de 310 x 235 mm, surgiu-me, avultando entre o mais que li, o poema abaixo de Amadeu Baptista, impresso em letras brancas sobre fundo negro, ocupando página e contra-página (13-14).

Trata-se de um poema que se constrói de uma vasta enumeração, constituída por sessenta perguntas, 95% das quais cabem em um e dois versos, e 5%, em três. Do número de perguntas e dos versos que percentualmente as ocupam, podemos de certo modo inferir da intensidade do poema, se nos abstrairmos do que pergunta e se não será uma chatice o que nele se nos inquire. Mas logo no primeiro verso ficamos agarrados ao que abalará o vapor que passa, e somos impelidos para a pergunta seguinte, na expectativa de uma resposta, e para a que vem depois sem nada nos ser respondido, e assim por diante, até o galope da leitura, que o poema nos exige, anular os pontos de interrogação, e irmos embebida e aceleradamente alheios, já não nas perguntas, mas na solução que as próprias perguntas poderão dar, para, num final descomprimido por versos bastante mais curtos, voltarmos à pergunta inicial nos dois últimos versos, a de um barco que não tem resposta e que fecha em si todas as perguntas .

Um poema de luxo numa revista luxuosa.

NOTAÇÕES PARA UM CALENDÁRIO PERPÉTUO

o que abala o vapor que passa, a sulcar as águas?
aquele que vai sonhando com a escuridão, como li em [pavese (sognando il buio)?
outra dor mortal, que se fixou entre a décima e a [décima-primeira vértebra?
alguma coisa que se perdeu nos confins da infância,
ou nos confins da infância dos nossos filhos?
este rumor que oscila no forro da casa e não sabemos
de onde veio, quem é e para onde vai?
a cor que nunca saberemos definir muito bem, a cor
que domina, entre o esmeralda e o negro asa-de-corvo?
o fim do mundo, sempre tão próximo e temido, ó [contemporâneos?
o juízo final?
a certeza de não haver qualquer certeza, de djerba a [padron?
o óbito que o médico há anos assinou no hospital de [santa maria, de um homem
que jazia a meus pés quando se pensou que a minha [nevrite era um ataque cardíaco?
a sábia mulher das castanhas, tão magra, que um dia me [ofereceu num cartucho
a recordação do outono de 89 para toda a vida?
a fotografia da casa de espinho, com o cemitério em [frente, que ángeles afirmou
ter visitado certa noite de luar?
a brigada da polícia que a mulher chamou certa vez [porque num acesso de cólera
o homem partiu a sala toda?
outra dor mental, entre o hemisfério direito e o [hemisfério esquerdo?
o flagelo dos mais pobres?
a morte da avó, a instalar em mim, definitivamente,
a vacilação, o medo, o fascínio?
o segredo inviolável da carta lacrada (lacre azul) poisada [na base do vaso (vaso vermelho) de avenca?
o pássaro imóvel, que canta, circunstancialmente?
o sorriso de cândida, quando me pergunta se quero [dançar?
certas rochas magmáticas, que a aliança com o vento [solidifica?
o som do corne inglês, a ressonância do cravo, o sortilégio da anta?
a vigília do estore, que ninguém quer ver fechado?
a esconsa janela da taberna, através da qual se observa [a claridade embriagada?
todas as sombras de santo stefano belbo?
a fita de cetim que com estrondo esvoaça na rua, [quando não passa ninguém?
o ciclista que vai em último lugar na classificação geral [mas irá envergar a camisola amarela [antes do final da etapa?
o feitiço que o anúncio da rádio afirma ser irreversível ?
a feiticeira de que me falou alfredo na corunha (se tu [falas galaico-português
a minha pátria é a língua galaico-portuguesa, embora [portuguesmente me sinta irlandês,
de dublin ou de belfast) e que por ser galega dá pelo [nome de meiga?
a informação de capital importância a que ninguém [prestou a mínima atenção
e não é, afinal, de capital importância?
o papel de parede do primeiro andar do número setenta [e oito
da rua do monte de judeus no dia 6 de maio de mil [novecentos e cinquenta e três
como apontamento autobiográfico?
teotihuacan, silves ou florença, em finais da década de [setenta?
a memória fotográfica de verónica?
determinadas somas e outras subtracções que se [fizeram num guardanapo de papel
como quem escreve um poema (uma arte poética?)?
o último bilhete de eléctrico do ruy belo guardado entre [um livro de carlos de oliveira?
a mulher da noite de madrid?
a outra mulher de madrid que observei a comer batatas [fritas
perto do museu do prado (goya)?
conímbriga, que sempre visitei quando ia com os meninos [a riachos,
chamando-lhes o olhar para determinadas ossadas que [lá estão e tenho a certeza
de que são as minhas?
a noite que acaba de cair no marão e abraça a montanha [com a hesitação
de um primeiro nevão?
o tâmega, de que amadeo pintou certo recôndito lugar?
o guarda florestal que acabou agora de acender o [cachimbo para poder ter
um incêndio – embora pequeno – para vigiar?
o ar circunspecto com que ele puxa a primeira fumaça e [acompanha no livro
o mais obscuro herói de emílio salgari?
o quase imperceptível assobio da brisa nas conchas [espalhadas no areal da tarde?
a sereníssima república de veneza, que para surpresa [minha nunca visitei
(murano fica perto?)?
esta dupla interrogação supracitada?
o flagelo dos mais pobres?
a crónica falta de cigarros (três da manhã!), obviamente [a desoras?
os alazões que me cavalgaram a ansiedade, a pretexto [de uma ideia que não quero
agora explorar, e são vermelhos (gauguin) e vão à [desfilada pela praia?
a palmeira de tânger, que não tendo visto nunca estou a [ver aqui?
dois triângulos escalenos desenhados a giz por um dos [heterónimos de pessoa
(ricardo reis, no ano da morte?) no cais das colunas
e que alguma chuva e muito anonimato deixou [esquecidos sob a luz das gaivotas?
o oráculo de delfos, que estabeleceu o choro de uma [mulher muçulmana
em alcácer do sal,
em dois mil e doze da nossa era (ano da minha morte?)?
esta segunda dupla interrogação supracitada?
o pingo de cera que derreteu no braço beneficiando a [imagem impressa sob a pele?
o volkswagen branco matrícula hg-63-24 que estacionou [numa página de pedro tamen
e a intertextualidade mandou parar aqui?
o omisso incidente entre a rapariga cigana, núria, e zé [manel, carpinteiro-de-limpos,
que a ponta de uma faca sujou para a eternidade?
um dos barcos que atravessa o rio e transporta um vulto [para a outra margem
(um lacrau?) ( uma predestinação?)?
esta terceira dupla interrogação supracitada?
a eternidade ela-mesma, diáfana e irreal?
o poço onde ela cai?
o rosto perplexo que lá em baixo brilha?
o coração cansado que nesse brilho mora?
o fluxo do vapor que passa e abala as águas,
encerrando assim o círculo, escarlate?

Amadeu Baptista

Nota: poema publicado neste blogue com autorização expressa do autor.

19.5.10

Apresentação no Conservatório de Viseu


No próximo sábado, 22, pelas 17 horas, realiza-se no auditório do Conservatório Regional de Música de Viseu a apresentação pública de Divina Música, Antologia de Poemas sobre Música, editada pela Proviseu, Associação para a Promoção de Viseu e Região, com a participação da classe de canto e coros do conservatório e a presença de poetas antologiados e do seu antologiador, Amadeu Baptista.

A edição e apresentação desta antologia inserem-se nas comemorações do 25.º aniversário do Conservatório de Viseu.

9.5.10

Notícias

Nestes quinze dias de silêncio no blogue, algo pouco recomendável para a saúde dele, sucederam-me três coisas, entre tantas outras que são do meu de certo modo agitado dia-a-dia.

Uma foi ter iniciado um projecto que requer tempo e paciência, e é, em boa parte, responsável por este silêncio.

Outra, ter assistido, pela terceira ou quarta vez, à representação de Antígona, de Sófocles, agora pela companhia do Teatro Nacional São João, com encenação de Nuno Carinhas.

Houve algo nesta encenação que não me pôs a levitar, ao contrário da que anteriormente vira, de um grupo galego, cujo nome não recordo. Esse algo, concretizo agora, teve a ver com a rigidez da colocação e interligação dos actores, que o próprio cenário, por demasiado óbvio, impunha, mantendo-se assim mais perto do que teria sido a representação original, vulgarizando-se com o não uso de meios cénicos, de que a encenação contemporânea se vale, para fazer do Teatro a mais expressiva das artes, que todas chama a si para o conseguir, do cinema à poesia.


Ontem, o Coro de Câmara da Universidade de Lisboa veio a este velho burgo, e trouxe consigo a contralto Maria João Fernandes, também pintora, licenciada pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, dona do blogue Eco e autora da capa deste e de outros livros. Com o Coro, veio o seu fundador e antigo maestro, José Robert, que terminou o concerto em apoteose, com peças de Rossini do período em que deixou de compor óperas, uma das quais se pode escutar no vídeo acima, mas em outra interpretação. O coro Schola Cantorum do orfeão local, iniciara o concerto com cinco cantochões monótonos e com uma bela composição laica e medieval a fechar.

Entretanto, o piano que era para duas das peças de Rossini, ficou-se nas covas, não apareceu (um piano pesa), e foi substituído por um ligeirinho piano eléctrico de timbre esquisito. Não lembrava ao diabo. O que vale é que somos todos portugueses, pianistas incluídos, e é suma a nossa arte do desenrascanço.

25.4.10

Efeméride como estatuto




(...) «Tão novos e mandados para a guerra»,
choravam as mulheres de Raul Brandão
na praia de Belém
ao ver passar o barco,
agora comandado por três dos cavaleiros
de João Evangelista(...)

© nd

15.4.10

Poemas na memória #2


Stephanie Kornfeld, Lua Cheia, latex e acrílico sobre tela, 2009.

DUNAS

Que vemos aqui, entre as dunas de areia batidas
     de luar, sozinhos com os nossos pensamentos, Bill,
sozinhos com os nossos sonhos, Bill, tão leves como
     os véus que adejam sobre a cabeça das mulheres
     que dançam,
sozinhos com urna imagem, uma imagem a seguir
     a outra, de todos os mortos,
os mortos mais numerosos que os grãos de areia
     amontoados um a um aqui, sob o luar,
amontoados no horizonte e com a forma que as mãos
     do vento lhes querem dar,
que vemos aqui, Bill, além daquilo que desespera
     os sábios,
além daquilo que faz chorar os poetas, que faz com
     que os soldados se lancem para a frente e percam
     a vida à luz do sol: que será, Bill?

Carl Sandburg (EUA, 1878-1967), Antologia Poética, selecção e tradução de Alexandre O'Neill, Edições Tempo, Lisboa,1962.

Original aqui.

14.4.10

Poemas na memória #1



O guincho do ganso selvagem
Incapaz de resistir
À tentação do meu isco.

Enquanto eu, na confusão do amor,
Incapaz de o apanhar,
Fico a ver a ave levar as redes com ela.

E quando a minha mãe voltar carregada de aves,
e me vir de mãos vazias,
que lhe vou dizer?

Que não apanhei ave alguma?
Que fui eu a ficar apanhada nas tuas redes?

In Poemas de Amor do Antigo Egipto, tradução do Inglês de Hélder Moura Pereira, Assírio & Alvim, 1998.

Nota: este poema, como os restantes do livro, terá entre 3.085 e 3.567 anos.

13.4.10

Da quarentena

Um projecto que me veio de repente à cabeça tem-me afastado do blogue, e os blogues, como o amor, requerem assiduidade e persistência. É certo que tenho feito do Esquerda da Vírgula armazém dos versos que vou escrevendo. Este facto inclui-me na classificação de vate blogueiro, cuja principal característica é mostrar versos próprios a quem passe, antes de, se calhar, impressos em papel. Se a uns move igual atitude, a outros move a atitude oposta. Cada qual manipula o que é seu como quer. No entanto, julgo adivinhar na cabeça de alguns que, havendo carimbos para tudo, também haverá um para gente que dá a ler os seus poemas neste meio. Por mim respondo. A poesia tem a importância que tem e, dentro desta, aquela que a tiver, ou seja, pouca na mesma. Refiro-me, claro, à importância que muitos buscam com a poesia e não àquela que, felizmente, bem mais lhe dão como gozo de criação e de partilha pela leitura.

Tudo isto por causa deste silêncio que dura há cinco dias e do tal projecto que, dadas as suas características, não irei pôr aqui, ficando na gaveta onde, afinal, não tenho nada. Vamos ver o que vai surgindo.

Hoje é este vídeo para maiores de 18 anos. Tem cenas eventualmente chocantes, com 2.500 anos e mais.

8.4.10


De Amadeu Baptista, com ilustrações de Ana Biscaia, publicado pela Editora Calendário de Letras, acabou de sair Zoo Musical, o terceiro livro para crianças de Amadeu Baptista, desta vez em quadras.

1.4.10

KO = OK

Julgo que seja incómodo a blogueiros da "especialidade" congratularem-se com comportamentos como o de Morais Sarmento. O mesmo sucede aos "taxonomiólogos" da política. Andam com dois sacos no cérebro: um diz esquerda; outro, direita, sem saberem com clareza o que está dentro deles. Fora dos sacos, é o caos, o politicamente incorrecto, a desobediência civil.

Este texto foi escrito por mim, nos comentários do Meditação da Pastelaria, a propósito de uma entrada sobre a audição daquele ex-ministro do PSD pela Comissão de Ética da Assembleia da República, depois de inquirido, a propósito do caso TVI, por Manuel Seabra, na imagem, deputado do PS .

Veja-se a que monos este país está entregue. Não quero deixar de dizer que, não tendo nunca pertencido a esse naipe, prefiro gente de direita civilizada, como Nuno Morais Sarmento, a medíocres de esquerda ou ditos de esquerda, fingidos, ineptos, trampolineiros e outros adjectivos que o tempo não sei se confirmará.

21.3.10

Marcial e o Dia Mundial da Poesia

Marcial, Marco Valério Marcial, nasceu na Hispânia romana cerca de 40 d. C. em Augusta Bilbilis, perto de Calatayud, cidade esta que foi republicana, mártir da Guerra Civil Espanhola, e hoje, sem dúvida, mais conhecida pelos seus bombons de fruta cristalizada, coberta com chocolate negro. Segundo Plínio, depois de muito andar por Roma, Marcial terá morrido na sua terra natal entre 103 e 104 d. C.

Chegou, com os seus epigramas, na quinta-feira passada, em quatro volumes, enviados pelo Sr. Changuito. Quando os vi, nem hesitei em os comprar, afinal trata-se da sua obra completa, pensei, e eu só o lera avulsamente em antologias, sobretudo epigramas de carácter obsceno. Marcial, como Bocage que nele se inspirou, são bem mais, embora mestres nesse tema de que muito gosto em poesia boa, deles e não só.

Por essa e por outras razões, segue abaixo um epigrama de Marcial, sobre outro assunto, por ser coisa tão comum hoje como há dois mil anos. Festejo assim, condignamente, o meu Dia Mundial da Poesia.

Recitas lindamente, advogas causas, Átalo, lindamente;
     histórias lindas, poemas lindos tu escreves;
compões lindamente mimos, compões epigramas lindamente;
     és um lindo gramático, és um lindo astrólogo,
e lindamente cantas e danças, átalo, lindamente;
     és lindo a tocar a lira, és lindo a jogar a bola.
Conquanto nada faças bem, fazes tudo lindamente.
     Queres que te tiga o que tu és? És uma grande seca.


Marcial, Epigramas, Vol. I, livro II, 7, edições 70, 2000

17.3.10

Às vezes, o melhor. Ontem, no Cineclube.



E o mais elevado, porque em Los Olvidados, de Luis Buñuel, se desce ao mais baixo e se deixa entrever a promessa falhada de crianças delinquentes nos subúrbios miseráveis de uma megalópole, a cidade do México no final da primeira metade do séc. XX. Uma tensão permanente sem apologia nem sentimentalismo, sempre num nível alto, muitas vezes quase insuportável, que nos compromete fortemente com o filme todo. Aqui e além, imagens do surrealismo, sobretudo de rostos e num sonho, mas também em mais cenas, como as do cego e do homem sem pernas.

O amigo com quem fui ver o filme falou-me em neo-realismo, de resto à semelhança de algumas opiniões que pesquisei depois, mas em Os Olvidados não há intervenção apologética, nem bandeiras e salvações, nem confronto de classes, há o ambiente de tensão e de delinquência sem saída, que a câmara e os actores amadores apenas nos mostram. Este filme, que é justamente considerado uma das grandes obras de Luís Buñuel e da História do Cinema, foi declarado Memória do Mundo, pela Unesco, em 2003.

4.3.10

H. G. Cancela - Londres


Wayne Roberts, Piccadilly, carvão, tinta nanquim, tinta sumi, grafite sobre papel prensado a quente, sem data.

H. G. Cancela publicou hoje no seu blogue Contra Mundum um texto de crítica sobre o livro Londres. Têm-me surpreendido aspectos que nunca me haviam saltado aos olhos, e mais uma vez isso sucede neste texto, a mim, que pensava abarcá-los com clareza. Longe disso.

Foi-me difícil encontrar uma imagem de pintura de Piccadilly Circus, como forma de agradecimento a H. G. Cancela que, além de poeta, romancista e ensaísta, é professor na Faculdade de Belas Artes do Porto. Aqui fica, também como espelho dos versos que transcreveu.

27.2.10

Uma conferência há meio século e quatro anos


A propósito da sua recensão no Público acerca do livro O Formato Mulher, de Anna M. Klobucka, baseado na tese de doutoramento da autora, penso que Eduardo Pitta deveria ter referido Jorge de Sena e a sua conferência sobre Florbela Espanca nos Fenianos, Porto, em 1946 (1). Serviria para cotejar ideias com as da novel autora, tanto mais que Eduardo Pitta já citara a dita conferência neste post e portanto sabia dela, muito embora, na brevidade de um só período em que se lhe refere, dê não só uma ideia errada do que Sena proferiu então, mas também não aborde o essencial dessa conferência, que é precisamente o que O Formato Mulher sugere e a recensão confirma.

Entretanto, Eduardo Pitta obteve ontem o Prémio Especial Jornalista ou Imprensa de Edição, na sua qualidade de crítico literário, entre um conjunto de prémios atribuídos pela Revista Ler e pelos consultores Booktailors.

(1) - Ver Estudos de Literatura Portuguesa - II, Jorge de Sena, p. 29 a 45, e nota bibliográfica, p. 313 e 314, Edições 70, 1988.

23.2.10

Tradução de poesia




O Trapézio, sem Rede e Mudanças & Cia são dois blogues exclusivamente de tradução de poesia. Ambos estão há muito nas ligações à direita. Como não há duas gotas iguais, segundo dizem, vejamos as diferenças entre ambos:

- O Mudanças & Cia parece ter ressuscitado de um longo sono de cinco meses, depois de, imediatamente antes, ter dormido meio ano. O Trapézio, sem Rede dorme pouco e tem tanto de actividade quanto o Mudanças & Cia tem ou teve de hibernação.
- Este blogue é colectivo de dois; aquele, individual.
- O Trapézio apresenta em geral poetas não tão conhecidos como o como os do Mudanças, o que pode ser um ponto a favor. Ou não. Depende do tipo de leitor.
- Não têm poetas em comum.
- O Mudanças traduz do inglês e do castelhano, tal como o Trapézio, mas ainda acrescenta o francês e o italiano.
- O Mudanças faculta os poemas na língua sobre que traduz, o Trapézio devia fazê-lo. Em vez disso, remete para a obra e respectiva página. O Mudanças não o faz, talvez por incluir o original que serviu à tradução.

Tendo em conta o ponto acima, o Trapézio parece traduzir bem. Do Mudanças pode dizer-se com segurança que o faz com qualidade, num tempo em que as traduções sabem vezes de mais a aviltamento.

22.2.10

A rainha celta Boadicea



Orgia Literária publicou hoje, segunda-feira, um texto de crítica de Teresa Sá Couto, sobre o livro Londres. Não digo de caras que vale a pena ser lido, porque sou parte interessada. Não digo, mas devia dizer, e assim fica dito. O monumento acima, da rainha celta Boadicea, sito em Londres, cuja referência aparece no final do livro, surge no topo do post como agradecimento a Teresa Sá Couto, a Orgia Literária e a Gonçalo Mira, que aqui destaco da página web que dirige, por haver, além do mais, um bom motivo para isso.


14.2.10

Antologia sobre gatos




















Imagem tirada daqui.

Só à Noite os Gatos São Pardos, Textos Inéditos de Autores Contemporâneos, antologia temática de poemas sobre gatos, com organização de Jorge Velhote e Patrícia Pereira, e ilustrada por Ricardo Ayres. A edição é de Cantinho do Tareco, Associação de Protecção Animal, com o fim de obter fundos para ocorrer aos encargos da sua acção. Colaboraram nesta antologia A. Dasilva O., Alexandra Malheiro, Amadeu Baptista, Ana Luísa Amaral, António Barbedo, António Ferra, António José Queirós, Aurelino Costa, Bruno Béu, Carlos Lizán, Carlos Poças Falcão, Cristina Carvalho, Diogo Alcoforado, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Francisco Duarte Mangas, Gabriel Mário Dia, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, João Manuel Ribeiro, Jorge Velhote, José Álvaro Afonso, José Emílio-Nelson, José Leon Machado, José Miguel Braga, José Viale Moutinho, Luís Filipe Cristóvão, Luísa Ribeiro, Maria do Carmo Serén, Mário Anacleto, Nuno Dempster, Renato Roque, Rosa Alice Branco, Rui Amaral Mendes, Rui Lage, Sara Canelhas, Soledade Santos, Tiago Worth Nicolau, Teresa Tudela, Vergílio Alberto Vieira, Victor Vicente e Vítor Oliveira Jorge.

11.2.10

Henrique Fialho - Roundhouse



Henrique Fialho escreveu sobre o Londres, em Rascunho, com transcrição para o seu blogue Antologia do Esquecimento. Em jeito de agradecimento, deixo ligação para uma foto da Roundhouse, o pub do poema, e, em cima, a imagem do mesmo pub numa pintura a óleo, de Robert E. Wood, Canadá (n. 1971).

10.2.10

Cícero disse: errare...





















Não há duas sem três. Ainda a antologia Divina Música. Por informação de um amigo providencial, faltou-me referir como de Timor-Leste o poeta João Aparício, de quem transcrevo o poema abaixo (pág. 88). A informação sobre a dança, que dá o título ao poema, é muito mais detalhada, pelo que só cito o que me pareceu essencial para bom entendimento. Entretanto, corrigi aqui não só essa falta, mas também a de um nome trocado, o de João Rasteiro: chamei-lhe Rui, que não é nenhum nome feio. Nessa altura, eu devia estar a pensar em aliterações.

TEBE-TEBIDAI-BIDU

Laveiras – Caxias, 4 de Abril de 1955

Que forte e pura
A melodia das tebe-tebidai-bidu!
Anima a semente que ainda dorme,
Ergue-lhe o rosto da terra
Para o bálsamo de Janeiro.

E quando o sol da minha vida
Se enlaça com a melodia,
Uma novíssima semente coroada de kaibauk,
Fecunda e madura, germina
Entre os lábios do meu lindo coração,
Rasgando colinas e montes,
Abalando o céu azul,
Cobrindo de canções todo o universo!

Notas do autor, João Aparício:
Tebe-tebidai-bidu: Danças e cantares tradicionais.(...)
kaibauk: Adorno em forma de meia-lua, em ouro ou prata, utilizado na testa, preso à cabeça, em cerimónias solenes.

8.2.10

O post corrigido





Talvez por João Rasteiro fazer parte, julgo eu, de um projecto híbrido chamado "Oficina de Poesia", é que fui deparar, no seu Centro do Arco, com a minha notícia devidamente corrigida, três dias depois de eu a ter publicado aqui. O meu prosear em texto alheio vai a negrito imediatamente abaixo.

Acaba de sair o livro Divina Música, Antologia de Poesia sobre Música, organizada pelo poeta Amadeu Baptista, com capa e paginação de Inês Ramos, comemorativa do 25.ºAniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu (1985-2010), em edição deste mesmo conservatório, com patrocínio da Proviseu - Associação para a Promoção de Viseu e Região. Esta antologia, onde tenho o prazer de estar incluído, acolhe cento e trinta poemas de outros tantos poetas de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Timor-Leste, onde constam quase todos os nomes "mais importantes" da poesia portuguesa contemporânea. O trabalho de Amadeu Baptista e Inês Ramos resultou num belo e mesmo luxuoso volume de 188 páginas e num livro com poemas de grande qualidade. Parabéns a ambos e especialmente ao Conservatório de Música de Viseu.

Esta última correcção de João Rasteiro parece querer imputar-me o pecado da ingratidão. Mas não o cometi. Tive a oportunidade de dar os parabéns aos promotores da antologia num óptimo jantar, que agradeci, em que até fui o escanção e aconselhei o vinho (Vinha Paz, 2006) e em que elegi, para mim, vitela assada à moda de Lafões, cuja receita muito recomendo a quem gostar de faenas culinárias. Quanto às outras correcções, não as comento.

4.2.10

Cento e Trinta Poemas sobre Música





















Com mais de uma semana de atraso sobre o dia em que tive um exemplar nas mãos e o levei para casa, noticio a saída de Divina Música, Antologia de Poesia sobre Música, organizada por Amadeu Baptista, com capa e paginação de Inês Ramos, comemorativa do 25.ºAniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu, em edição deste mesmo conservatório, com patrocínio da Proviseu - Associação para a Promoção de Viseu e Região. Acolhe cento e trinta poemas de outros tantos poetas de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique e Cabo Verde. Os seus nomes constam deste, como de outros blogues. O trabalho de Amadeu Baptista e Inês Ramos resultou num belo e mesmo luxuoso volume de 188 páginas e num livro com poemas de grande qualidade. Parabéns a ambos.

28.1.10

Saiu depressa e bem














Clicar na imagem se quiser maior tamanho.

A capa é de Maria João Lopes Fernandes, que faz companhia aos versos do miolo, do qual retiro este excerto:



(...) Afinal, em Lisboa, os sem-abrigo cobrem-se com o
[Público,
lembraria uma turista portuguesa,
lavando as mãos diante de vagabundos intoxicados
de álcool e de fome,
provavelmente de solidão,
e sem dúvida de maldade.

Não estou a vê-los em Portugal
agasalharem-se do frio com o Diário da República.
Ainda que o imaginassem, não o fariam com medo
de a polícia os expulsar da casa que não têm
e de os fiscais lhes cobrarem o imposto de habitação,
e assim o meu país europeu mantém-se
na cauda dos índices de conforto.

Eis as notícias que me chegam a Londres
da capacidade de revolta nessa parte ocidental da
[Península Ibérica. (...)

26.12.09

William Blake: Night Thoughts (1797)





















(para Nuno Dempster)


Não há síntese,

mas só mundos paralelos
onde a graça e a desgraça
se encontram
para delimitar o inferno
e o acrescentarem

com a essência e o erro,
a tontura e o desequilíbrio.

Por isso, a minha vida é isto:

trabalhar com as mãos,
amalgamar na boca as cores da ferrugem
e descrer nos triângulos de ouro
da omnipotência:

Deus, a existir, é uma convergência
de patifarias,
com predicados de morte nos cabelos
e os olhos cegos à miséria
que em nome do homem reproduz.

Por isso, ilustro os meus cadernos
com sóis antigos,
adubos incomuns
– e ponho nos meus sonhos

os fantasmas,
a imagem de uma pulga,
com o seu perfil
ausente e circunspecto,
porque assim se faz a perenidade
e, até agora,
nenhuma linguagem foi criada
para tanta inocência.

A norte sobrevivo,
com a neve a queimar-me o coração
e os anjos sobre as árvores:

os anjos negros de que as visões
se iluminam
e de que o meu choro se expande
em cântico e oferenda
para que Urizen e Ahania
respirem,
ainda que ofegantes,
sobre a página.




















Ilustro a profecia
e sou, na terra,
também eu profeta,
fazendo dos azuis e dos vermelhos
horas nocturnas,
sensíveis sagrações,
golpes de chumbo
na intensidade
com que entre nós e os mortos
o provir se estabelece,

e o que é divino recupera
do rosto numeroso da horda
do momento.

O mundo é isto:

Satã a observar Adão e Eva,
o círculo da luxúria,
as canções de inocência,
Bathsheba no banho,

e o rastro de sangue
do exílio
em que reconheço os meus contemporâneos
a subverter a agonia,
sempre sitiados pelo nojo
e a insânia.

O que mais amo é o meu temor
perante as lanças,
o doce anjo,
o tigre:

e as minhas lágrimas secam
nesse páramo,
onde, após o deserto,
só o deserto perfaz a casa,
a minha casa sob o firmamento.

De onde vim
só vi devoração

– tenho nos ombros os sinais dos ferros,
e os meus olhos cegaram pela insídia
com que outros olhos me viram
ao passar;

e ensurdeceu o meu ouvido,
e perdi o olfacto,
e, às minhas mãos,
chegou a febre
de Job,
a febre da ignomínia.

Tigre, meu tigre,
no bosque cintilante
a tua simetria
perdura além dos séculos,

enquanto os astros lançam os seus dardos
para que subsistas na floresta nocturna
e eu te reconheça como único aliado.

E assim volto às chamas do desígnio,
e canto,
e pinto:

porque sei bem que não tenho nome.

O mundo é isto:
cristal fundido e baba
de que os cavalos se afastam
para que a serena viagem tenha início.

E ri o ar,
e ri a floresta

– e ri a verde colina
e a sombra dos pássaros,

e a nossa estridência é como uma fábula
onde só há crianças,
e pão,
e corvos sobre as águas.













Não odeio ninguém.

Sobre a pobreza
juro
fidelidade à terra,
este lugar de sonhos ancorados
e hinos a exaltar
o pastor,
a vigília,

o leite e o mel.

E, pela minha morte,
conjugarei o silêncio profundo,
Sísifo no espelho
e o arco-íris:

topázio,
ocre,
azul fumo,
índigo,

um branco de zinco,
verde absoluto,

vermelho
arenisco,

mínio,
cinábrio,
rosa violáceo
e negro,

negro como o infinito espaço.

Não há síntese:

mas só mundos paralelos
onde os animais rastejam,

que eu vi a pomba e vi o sacrifício,
a pedra e o punhal ─

e o poder do galope,
e os cavalos como cristais nas árvores.

O que mais amo é o meu temor
das lanças:

as anilinas fervem
nessa febre,
penetram-me os ossos,
fundem-se ao meu corpo,
pulsam no meu crânio

e do leve fascínio
sei que o meu nome
é o nome de um foragido ou um proscrito,
que avança sempre em frente,
em linha recta,
em círculos,
até que, numa vitória rasa,
a terra ganha
e à morte outra morte se sucede.

Não odeio ninguém,
ponho nos meus sonhos os fantasmas,
a imagem de uma pulga,



















– eu, que incerto e ágil,
sou como o tigre
que uma mão imortal
aproximou
do lugar dos segredos
e da vida.

E assim volto às chamas do desígnio,

e canto,
e pinto.




Nota: as aguarelas intercaladas no texto são da autoria de William Blake e foram gravadas, entre as mais de quinhentas que pintou com o mesmo fim, para ilustrar o poema The Complaint: or Night-Thoughts on Life, Death & Immortality (1742-45), mais conhecido por Night Thoughts, de Edward Young . Foi nessas aguarelas que Amadeu Baptista se baseou para escrever o presente poema, cuja dedicatória agradeço, agora publicamente, e que pertence ao livro saído recentemente, cuja capa reproduzo acima.

22.11.09

Risos



Estávamos ambos a almoçar umas bifanas e falávamos obviamente de poesia e de projectos, quando, a propósito dos poemas que aqui pus sobre Pedro e Inês, todos eles em decassílabos, me disse:

─ O meu nome é um decassílabo, veja lá.

E comecei a contar pelos dedos Hen/ri/que/ Ma/nu/el/ Ben/to/ Fi/a/(lho), de facto dez sílabas métricas certinhas, repondi, e ainda por cima um decassílabo heróico, tem acento na sexta tónica. Gargalhada do Henrique Fialho.

E continuámos com a poesia às voltas, até que um de nós disse mais ou menos isto, a propósito da fidelidade com que muitos jovens, nos seus poemas, seguem Joaquim Manuel Magalhães, o patrono do desencanto e patrono de outro patrono, que é para muitos Manuel de Freitas:

─ Fazem poemas devastados, tristes, de uma abulia sem saída, e depois vamos encontrá-los por aí a rir às gargalhadas.

8.11.09

Escalpe, Amadeu Baptista



Antes do mais, não sei se não será necessário lembrar aos zeladores da moral pública e às "vestais do puro"(1) que sempre se escreveu poesia erótica, e não somente erótica, também obscena, que é a irmã daquela outra, vulgarmente tímida, quase casta e envergonhada como os dicionários, que nunca trazem a gíria dos órgãos com que fomos feitos e seguramente, depois, instrumentos de nosso prazer e dos próprios dicionaristas.

A propósito deste tema, não vou desfilar nomes de poetas, que tantos são, mas apenas citar o de Marcial,

"(…)Porém os meus livrinhos,
tal como às suas consortes os maridos,
não podem sem caralho dar prazer." (2)

e parte de um texto de Almada Negreiros que convém a este livro: ”Luxúria estimula as energias e desencadeia as forças. É preciso ser consciente na Luxúria. É preciso dispor da Luxúria como um ser inteligente e raffiné dispõe de si próprio e da sua vida; é preciso fazer da Luxúria uma obra de arte.” (3)

Para além disso, há toda uma tradição de poesia obscena portuguesa que reforça, como género poético contemporâneo, o assunto deste livro, conveniente ou pouco conveniente a adolescentes , segundo sejam. Sublinho, de novo e não apenas, o carácter obsceno de uma poesia franca, presente neste novo livro de Amadeu Baptista, composto por um só poema que, na sua vertente explícita, hardcore, se quisermos, não deixa porém de remeter para o Cântico dos Cânticos, não como modelo, nem sequer como influência, que não se sente, muito menos como modo de tratamento, mas como relato da condição humana comum de dois corpos que se consomem de paixão repetidamente num e noutro livro, com linguagens e tratamento diversos. Escalpe busca a exaustão evidente do corpo, não se sabe se de uma noite, se de uma cama, se de uma manhã ou de uma tarde, se de um amor, de que todos nascemos ou deveríamos ter nascido, para alegria de quem viemos.

Nesta cidade de exílio a que Amadeu Baptista calhou chegar, vindo do Porto como eu, e onde a polícia apreendeu o livro de banda desenhada a um ex-eventual editor meu - intitulava-se, ingénua ou talvez provocatoriamente, As Mulheres não Gostam de Foder –, o livro Escalpe, de Amadeu Baptista, não vingará às claras. Mas este assunto sempre se alimentou do gozo em segredo, sabemos lá nós de quantos modos, se o prazer e a satisfação do corpo é um dos motivos mais secretos e centrais da nossa alegria e dos pecados que o divino nos imputa, não sabendo ele, diz-se, das suas delícias.

No entanto, o poema único de que o livro se compõe remete também para uma humanidade lateral a esta, a humanidade dos sentimentos pensados poeticamente, que não é uso surgir em temas de luxúria licenciosa, passe este qualificativo que não me agrada, pelo preconceito que pode deixar perceber e que não tenho, prefiro qualificá-lo com o eufemismo do esvaimento de dois amantes, ou simplesmente com o redutor hardcore.

A este propósito, repare-se no desespero dos versos abaixo, além da força que se realça da contradição entre os dois contendores – que é isso que são, embora dois em um, são sempre dois. E atente-se, para quem goste destas coisas, na beleza formal das duas oposições, a do primeiro verso citado com o segundo, e a do terceiro com o quarto:

"Eu peco por luxúria
e tu pela redenção que vem dessa luxúria:
o ilícito instrumento,
o lícito penhor, que só por este amor nos salvaremos."

Seria bastante curto assentarmos superficialmente numa classificação do tema estrito do livro, quando se lêem descrições de grande beleza como esta:

"(…)Tu levantas o coração no meu
e o meu coração levanta‑se contigo."

Ou então admitirmos a verdade de que é um livro de poesia obscena, que, na sua humanidade, vai mais além do que as baias em que é uso colocar-se o assunto:

"Nos meus e nos teus rins se acumulam
segredos desusados, o real é um cúmulo de árvores e areais
desoladores,
visões devastadoras do silêncio"

Ora é aqui que reside, digamos, a marca registada do poeta, não fala só de cama e de secreções, fala da experiência que recolheu do mundo e que transvaza para a paixão amorosa, e é aí que podemos ver, por entre os adereços da descrição crua, a base da sua voz contra a dos outros, a dos tais zeladores e “vestais do puro”:

"Por mais que queiram,
não nos suportam a pureza da carne
e os seus ritos primordiais
e derradeiros."

Não só Deus, há também poetas que escrevem por linhas tortas, perdoe-se-me este adjectivo, aplicado apenas para se seguir melhor o aforismo. Ou seja: leia-se o livro não apenas naquilo que porventura todos sabemos, mas no que nos é revelado, ou por nos identificarmos com a experiência, ou por descobrirmos nela uma outra dimensão até aí desconhecida em nós.

Escalpe, Amadeu Baptista, &Etc, 2009

(1) Aviso de Porta de Livraria, Exorcismos, Jorge de Sena, Poesia III, Edições 70, 1989.
(2) Epigramas, Marcial, Edições 70, 2000.
(3) (Revista) Portugal Futurista, Almada Negreiros, Contexto, 1990.

26.10.09

Escrever com gozo e alegria: Hugo Milhanas Machado




Hugo Milhanas Machado (HMM) foi para mim uma revelação, quando li, no seu blogue, poemas admiráveis de alegria, tendo como cenário o Tour de France na montanha. Para outros de gosto diverso (não deveria ser este o qualificativo), infelizmente bem mais numerosos, lê-los poderá muito bem ser uma chatice, não sem previamente terem arrumado os poemas com um pensamento lapidar: não se escreve poesia sobre a Volta à França. O gosto das maiorias, mesmo muito minoritárias como é a dos leitores de poesia, enquanto maioria, nunca foi fiável, e não se chame a isto elitismo. Chame-se lucidez sobre a impreparação. Daí o fácil alinhamento pelo que é mais consensual: o que é moda e o que é considerado intocável pela generalidade. O rei nunca pode ir nu, mesmo que vá em pelote.

Dito isto, o que me faz escrever agora sobre o livro Entre o Malandro e o Trágico, de Hugo Milhanas Machado (n. Lisboa, 1984), editado este ano por Sombra do Amor, é o mesmo motivo que me fez contestar uma referência sem base de afirmação, acerca do poeta que HMM é desde os primeiros livros que dele conheço, Masquerade (Sombra do Amor, 2006) e Clave do Mundo (idem, 2007).

Entre o Malandro e o Trágico compõe-se de vinte e cinco poemas, escritos aos vinte e dois anos, que no pequeno preâmbulo o autor diz terem partilhado papéis com os últimos poemas escolhidos para Clave do Mundo. Julgo pouco mais terem partilhado do que esse espaço, ainda que na última parte desse livro, Cantata, nos poemas Bandoleiro e Fisherman’s Blues, se entreveja este livro, acrescentando eu que poderiam ter feito parte dele sem perda de unidade.

Lidos os livros acima, Entre o Malandro e o Trágico, que todos encomendei e paguei, é uma ruptura com a linguagem poética que neles maioritariamente encontrei, em que HMM dá a ler a sua poesia de iniciação. De um modo geral, abundam nela imagens, símbolos e metáforas, poder-se-ia dizer que HMM seria, entre tantos outros, mais um novíssimo, herdeiro do pequeno segundo modernismo que foi em Portugal o Surrealismo (e não a Presença como querem alguns) . Mas não. A ruptura guardou dos poemas dos livros anteriores, a nível da estrutura interior, as elipses e a repetição de palavras ou de frases no mesmo verso ou que passam para o verso seguinte, não como anáforas, mas, na minha leitura, como um modo diferente de realce: “Amanhece / que não vemos/ que não vemos/antes/ vínhamos andando/ pelas lagoinhas(…)” ou “(…)domingo à noite/ quando se querem/ coisas e tanto mundo/ sobram nomes/ é que sobram nomes.” , etc.

Esta ruptura tem uma qualidade bem mais complexa do que porventura poderá descobrir-se numa leitura ligeira. Para se poder falar com acerto, às vezes é preciso demorar-se e ser-se conhecedor de poesia de todos os tempos, e não apenas, digamos, da poesia do séc. XX e XXI, que é o mais que se vê, e ainda estar-se atento e de espírito aberto ao que nos chegue.

Digo isto, porque esta mesma ruptura tem um carácter culto, não de assuntos, não no sentido erudito, mas no do conhecimento técnico da Língua e também no conhecimento histórico da poesia. No entanto, HMM, leitor de Português numa universidade espanhola, não se coíbe de recorrer à impureza da Língua de hoje, cruzada de termos de gíria, meke, cool, em meke usando o k das SMS juvenis, com línguas estrangeiras, o Galego em primeiro lugar, o Castelhano, o Inglês (naquele cool, eventualmente no título de poema Oh, Promenade) e também a variante brasileira do Português, além de uma expressão do português antigo, no último verso do poema de abertura. Talvez HMM saiba de modo menos sobressaltado do que eu que “as línguas (…)/ se derretem/(…) na caca de outras.”(1) , que se transformam, violadas pelas mais fortes, e que a velocidade da luz instalada na informação multilingue, a par de circunstâncias políticas, lhes apressa derreterem-se e morrerem. A verdade é que, em poesia, não é incomum recorrer-se pontualmente a outras línguas, e não é isso que vai contribuir para corrupções puritanas do vernáculo, não sejamos tão castos que morramos virgens ou não façamos da poesia um lugar de proibições, tantas vezes está ela, e bem, longe da gramática. De resto, é fácil saber de onde surgem as contribuições de facto, da tal caca diária que nos entra pelos ouvidos e pelos olhos dentro.

Esta liberdade de HMM é um prazer que se sente, que HMM usufruiu e que nos transmite: “olha deica deica (2)/ que é de voltar/ quando chove do sul” ou, entre mais casos, no poema notável, que transcrevo na íntegra, onde surge o castelhano namorarte, com o clítico não separado.

Terna
destreza para namorarte
diz da onda
sobre as praias
aportadas a sul
a que vens?
a que vens?
Já faz frio
que a lua balalança
de teus braços


Mas temos também neste poema algo que é comum no livro: a busca de significação já não só por imagens da realidade, mas também por subversões da Língua, neste caso subversão morfológica, balalança. De facto a Lua balalança na ondas, todos já o vimos, o que torna a imagem muito mais expressiva e tanto que balança me parece curto e apagadamente vulgar.

As subversões sintácticas, elipses e cortes de sentido, esses então são comuns e só por si jogam um papel muito importante no dizer mais do que as palavras dizem, substituindo-se, com uma grande frescura, à-vontade e alegria, aos processos analógicos do passado, fatigados de tão repetidos.

Cool
o rapaz está atinado
medrou depressa
a pequena
e agora
oh que pena
vimos nós para a morte
se dizemos saúde
à mesa
se o azar até
na praia nos acena
ontem a exemplo
cool
apagaram a infância
somos da mesma narrativa
e ena a sobremesa.

Muito prazer deve ter dado a HMM este último verso, talvez escrito de repente, como parece ter sido. É como que um resgate da infância apagada, dois versos acima. Tanto do indizível comporta que me ponho a pensar para que serve a artilharia de tropos, presente ainda, como artilharia, em poesia vária de hoje.

Escrever com gozo e alegria afirmativa, sem sombra de futilidade, escrever para si mesmo em primeiríssimo e único lugar, é não só um acto de liberdade, como, no caso de HMM, de alguma alforria, não enjeitando o passado, usando mesmo, ó pecado fatal, a rima aleatória, às vezes bastante divertida como a do primeiro poema, Meia-Lua, uma monorrima irregular em ente, um pouco como na poesia árabe, daí talvez a toada peninsular que HMM refere na nota introdutória.

Enfim, este livro dava pano para mangas. Devo referir ainda a capa, propositada e irreverentemente anacrónica: contrasta não só com o apuro da edição, mas também e sobretudo com os poemas. Ilídio J. B. Vasco, autor da capa e da paginação, soube interpretar, pela contradição provocatória, a poesia tão de hoje de Hugo Milhanas Machado.

Notas
(1) de Noções de Linguística, de Jorge de Sena, Poesia III, Exorcismos.
(2) deica deica, expressão galega que pode traduzir-se por adeus adeus.
 
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