29.9.08

É a democracia, stupid!


Em nome de uma ameaça ─ a hecatombe que Bush não se cansou de agitar ─, e sob medidas laterais de diversão do Congresso dos Estados Unidos, os impostos dos contribuintes americanos passam a servir às escâncaras para pagar os prejuízos e para garantir a continuidade dos lucros dos grandes conglomerados financeiros.

Na Europa, o grupo Fortis será nacionalizado parcialmente, com os impostos não se sabe se apenas dos contribuintes belgas, holandeses e do Luxemburgo, se da EU toda, cujo banco central esteve presente nas negociações com os bancos centrais de cada um dos países intervenientes.

O mesmo já tinha sucedido com o Bradford & Bingley, na Grã-Bretanha.

Uma vez recuperados, os grupos financeiros voltarão à mesma classe invisível e omnipresente para colher então os lucros.

É caso para pensar se, saindo da sombra em que governa, o poder financeiro não está a desvelar de vez o seu domínio e a garantir à vista de todos a retenção dos lucros e a cobertura dos prejuízos, à custa dos impostos da “gente reles”, como os senhores da Roma Antiga chamavam àqueles que trabalhavam para sobreviver.

Mas só precisará disso em alturas de crise como a de agora. Em tempo de paz seria contraproducente. Oculto das maiorias, orientará com mais proveito os governos democraticamente eleitos. É um pulo até se desvendar o mal no sistema político que congeminaram, a democracia dita representativa e a sua liberdade, que a guarda pretoriana de polícias e exércitos profissionais tolerará até ao limite de a outra liberdade, a liberdade do poder económico-financeiro, ser posta seriamente em causa.

3 comentários:

fred disse...

Muito bom o seu artigo, Manuel.
Aqui no Brasil, entre os anos de 1995 e 2000, um certo PROER – Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional, transferiu do Tesouro Nacional para os banqueiros, aproximadamente, 2,5% do PIB brasileiro, cerca de 32 bilhões de dólares a valores atuais. A desculpa foi a mesma: evitar o risco sistêmico. Hoje, como sempre, os bancos continuam a liderar o ranking de lucratividade, jamais foi devolvido um mísero centavo às tetas públicas e o único banqueiro irresponsável que está na prisão é Salvatore Cacciola, um ítalo-brasileiro ex-dono de um banco pequeno, o Marka, que foi escalado pra “boi-de-piranha”.
Grande abraço.

nd disse...

Bem-vindo, Fred. Há-de chegar o dia em que todos trabalharemos para que lucros e prejuízos sejam apenas lucros dessas instituições.

Um abraço.

Aline Christal disse...

Fico tão indiginada com tudo isso, que prefiro não mais falar sobre, prefiro...faço reverências ao que o Fred escreveu.

bjs

 
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