17.11.09

Pietà segundo Um Quadro de William Blake


Detalhe da imagem abaixo.


Eva não conhecia a morte
a que Jeová
agora a condenava em dobro,
nem era a sua
maior castigo e mais injusto
que a do filho
e tão-pouco a entendia.
Se aquilo era morrer,
o corpo exangue
sem mais se levantar,
tão quieto e calado,
antes ela morresse duas vezes,
sabendo que perdia o mundo
a cada morte,
e que não estivesse Abel
ali deitado,
por dentro do seu choro,
a longa cabeleira
aquecendo, materna, o peito nu
que dantes respirava
como um cordeiro.
Mas já Caim fugia
para longe, a correr,
concentrando-a no espanto
da maldição maior,
a cor semelhante à do pó
de que Jeová falara.

© nd

Abel


O Corpo de Abel Encontrado por Adão e Eva, William Blake, óleo sobre tela, 1825.


Pastor benigno cujo sangue
viria a não morrer
nas areias dos quatro rios
para salvação nossa,
a de cremos na sua descendência,
símbolo do que resta,
a fé na paz,
as manhãs limpas
frente ao ulular urbano
e a marcha dos exércitos
controlada à distância por seres malévolos,
alçados em pináculos,
a mira digital nas suas mãos,
à procura de Abel
nascido desse sangue
que teima em resistir,
sobrevivendo morte a morte,
assim desde o princípio.

© nd

16.11.09

Eva


Don’t Listen to the Liar (Eve), Paul Gauguin, óleo sobre tela, 1989.


Ainda não tenho idade
para julgar os meus futuros filhos,
nem as minhas acções
devem temer por eles,
nem a ameaça de dor
me impedirá de tê-los.
Agora este é o nosso paraíso,
e Adonai, sem querer,
despertou-nos o amor
que não era possível existir
no Jardim do Éden,
eternidade
e gestação do tempo
que não soube levar-nos
nas suas maldições.
Por eles, juntarei a alegria
e o prazer, quando
vier Adão
com o pomo de sumo e sol
para o trincarmos outra vez,
caída a tarde, nus,
sem culpa nem pudor, e rindo.

© nd

12.11.09

Adão


Adão, Um Sangue, Muitas Nações, Lewis Lavoie, painel mural, mosaico, 2007.


Adão podia ter dito
na fronteira de Deus, guardada
por um anjo
de espada em chamas:
condenaste-me à morte,
e, comigo, inocentes
em outro paraíso, a vida.
Usaste a tua força.
Mas vê, agora tenho de saber
o Norte e o Sul,
as feras que criaste
para as domar,
a corrente dos rios
para chegar à praia
e ver as ondas
e, no caminho,
as aves e as montanhas,
e aos poucos ir sabendo
o que me recusavas e querias
só para ti: o fruto inteiro.
Trouxe-o comigo, e dele surgirá
a tua própria morte
que um dia hão-de chorar,
porque o Éden faz falta
àqueles que tiraste a Eva feliz.

© nd

11.11.09

Adão e Eva - 2


Expulsão do Jardim do Éden, detalhe,Thomas Cole,
óleo sobre tela, c. 1827-1828.


maldita seja a terra por tua causa
Génesis



De culpas que não tinha, Eva escutou
o trovejar de Deus e talvez
pensasse agora
como fora cruel e injusto,
não com ela, que tanto lhe fazia,
queria os filhos
da sua carne, e então pari-los
e lançá-los ao mundo como as aves,
seguros do seu voo
e das manhãs de um outro paraíso.
O que a magoava
era a sorte de Adão,
obra divina expulsa
somente por saber
tanto como Javé enfurecido,
e, mais que expulso,
condenado a morrer
sobre a amaldiçoada terra
que a todos, afinal, daria o pão
que havia de benzer-se em seu louvor.

© nd

10.11.09

Adão e Eva
























Jardim das Delícias Terrenas, painel esquerdo,
Hieronymus Bosch, 1504 (?), óleo sobre madeira.


Tardaria a saber-se
que Adão tinha criado Deus
à sua imagem;
que de costela sua não nascera
Eva, emigrada,
longe do rio Eufrates;
que nunca tinham sido
divinos
e por isso imperfeita criação
equivocada,
e que o bem se conhece com o mal,
amor, ternura, riso
contra a devastação
do Apocalipse
a que Deus, de ira,
ditara condená-los
por querer Adão e Eva
de linfa neutra,
e pior Eva, que falara
com a serpente
da Criação, acerca
dos frutos luminosos
da sua própria carne,
sabe-se hoje, passado tanto tempo.

© nd

8.11.09

Escalpe, Amadeu Baptista



Antes do mais, não sei se não será necessário lembrar aos zeladores da moral pública e às "vestais do puro"(1) que sempre se escreveu poesia erótica, e não somente erótica, também obscena, que é a irmã daquela outra, vulgarmente tímida, quase casta e envergonhada como os dicionários, que nunca trazem a gíria dos órgãos com que fomos feitos e seguramente, depois, instrumentos de nosso prazer e dos próprios dicionaristas.

A propósito deste tema, não vou desfilar nomes de poetas, que tantos são, mas apenas citar o de Marcial,

"(…)Porém os meus livrinhos,
tal como às suas consortes os maridos,
não podem sem caralho dar prazer." (2)

e parte de um texto de Almada Negreiros que convém a este livro: ”Luxúria estimula as energias e desencadeia as forças. É preciso ser consciente na Luxúria. É preciso dispor da Luxúria como um ser inteligente e raffiné dispõe de si próprio e da sua vida; é preciso fazer da Luxúria uma obra de arte.” (3)

Para além disso, há toda uma tradição de poesia obscena portuguesa que reforça, como género poético contemporâneo, o assunto deste livro, conveniente ou pouco conveniente a adolescentes , segundo sejam. Sublinho, de novo e não apenas, o carácter obsceno de uma poesia franca, presente neste novo livro de Amadeu Baptista, composto por um só poema que, na sua vertente explícita, hardcore, se quisermos, não deixa porém de remeter para o Cântico dos Cânticos, não como modelo, nem sequer como influência, que não se sente, muito menos como modo de tratamento, mas como relato da condição humana comum de dois corpos que se consomem de paixão repetidamente num e noutro livro, com linguagens e tratamento diversos. Escalpe busca a exaustão evidente do corpo, não se sabe se de uma noite, se de uma cama, se de uma manhã ou de uma tarde, se de um amor, de que todos nascemos ou deveríamos ter nascido, para alegria de quem viemos.

Nesta cidade de exílio a que Amadeu Baptista calhou chegar, vindo do Porto como eu, e onde a polícia apreendeu o livro de banda desenhada a um ex-eventual editor meu - intitulava-se, ingénua ou talvez provocatoriamente, As Mulheres não Gostam de Foder –, o livro Escalpe, de Amadeu Baptista, não vingará às claras. Mas este assunto sempre se alimentou do gozo em segredo, sabemos lá nós de quantos modos, se o prazer e a satisfação do corpo é um dos motivos mais secretos e centrais da nossa alegria e dos pecados que o divino nos imputa, não sabendo ele, diz-se, das suas delícias.

No entanto, o poema único de que o livro se compõe remete também para uma humanidade lateral a esta, a humanidade dos sentimentos pensados poeticamente, que não é uso surgir em temas de luxúria licenciosa, passe este qualificativo que não me agrada, pelo preconceito que pode deixar perceber e que não tenho, prefiro qualificá-lo com o eufemismo do esvaimento de dois amantes, ou simplesmente com o redutor hardcore.

A este propósito, repare-se no desespero dos versos abaixo, além da força que se realça da contradição entre os dois contendores – que é isso que são, embora dois em um, são sempre dois. E atente-se, para quem goste destas coisas, na beleza formal das duas oposições, a do primeiro verso citado com o segundo, e a do terceiro com o quarto:

"Eu peco por luxúria
e tu pela redenção que vem dessa luxúria:
o ilícito instrumento,
o lícito penhor, que só por este amor nos salvaremos."

Seria bastante curto assentarmos superficialmente numa classificação do tema estrito do livro, quando se lêem descrições de grande beleza como esta:

"(…)Tu levantas o coração no meu
e o meu coração levanta‑se contigo."

Ou então admitirmos a verdade de que é um livro de poesia obscena, que, na sua humanidade, vai mais além do que as baias em que é uso colocar-se o assunto:

"Nos meus e nos teus rins se acumulam
segredos desusados, o real é um cúmulo de árvores e areais
desoladores,
visões devastadoras do silêncio"

Ora é aqui que reside, digamos, a marca registada do poeta, não fala só de cama e de secreções, fala da experiência que recolheu do mundo e que transvaza para a paixão amorosa, e é aí que podemos ver, por entre os adereços da descrição crua, a base da sua voz contra a dos outros, a dos tais zeladores e “vestais do puro”:

"Por mais que queiram,
não nos suportam a pureza da carne
e os seus ritos primordiais
e derradeiros."

Não só Deus, há também poetas que escrevem por linhas tortas, perdoe-se-me este adjectivo, aplicado apenas para se seguir melhor o aforismo. Ou seja: leia-se o livro não apenas naquilo que porventura todos sabemos, mas no que nos é revelado, ou por nos identificarmos com a experiência, ou por descobrirmos nela uma outra dimensão até aí desconhecida em nós.

Escalpe, Amadeu Baptista, &Etc, 2009

(1) Aviso de Porta de Livraria, Exorcismos, Jorge de Sena, Poesia III, Edições 70, 1989.
(2) Epigramas, Marcial, Edições 70, 2000.
(3) (Revista) Portugal Futurista, Almada Negreiros, Contexto, 1990.

5.11.09

Condição



Tudo se gasta.
As estradas, os carros, a noite,
os cenários urbanos,
o areal privativo
de um mês de Outubro,
as cidades costeiras
no horizonte da infância,
A Foz do Douro,
o sol, os astros, Deus
e o paraíso,
o rosto que jurámos
até à morte,
de tudo se prevê um fim, e nós,
seres curvados sobre si,
genéticos, sozinhos.

© nd

2.11.09

Melros


Painel em mosaico, sinalética para Tormes, retirado daqui.


Nisto, os melros são como as outras aves
A. M. Pires Cabral
Deixaram-se ficar
desde as primeiras casas da cidade,
emigrados do campo.
Vieram outros depois,
expulsos dos pomares e da floresta
de bagas doces.
Hoje sujam-me o carro e fazem
o ninho no quintal,
e em Maio assobiam
e comem-me as cerejas todas.

© nd

29.10.09

In Memoriam



O professor é um vulto no quadro.
Vai gravando na lousa a giz
a sua história:
hoje ninguém o lê.
Que ministro haveria de o lembrar?
Bastou um dia apenas para a vida
lhe negar a tarefa pública
de enaltecer heróis,
trazidos das cavernas do oceano.
Ninguém soube mais dele.
Terá morrido algures,
no meio do passado.
Chamava-se Cabral
como Pedro Álvares,
e almoçava pastéis de bacalhau
e um termos de café com leite
que trazia na pasta.
Creio que lhe devo algo
que não posso pagar:
ensinou-me a escrever
o seu próprio epitáfio.

© nd

26.10.09

Escrever com gozo e alegria: Hugo Milhanas Machado




Hugo Milhanas Machado (HMM) foi para mim uma revelação, quando li, no seu blogue, poemas admiráveis de alegria, tendo como cenário o Tour de France na montanha. Para outros de gosto diverso (não deveria ser este o qualificativo), infelizmente bem mais numerosos, lê-los poderá muito bem ser uma chatice, não sem previamente terem arrumado os poemas com um pensamento lapidar: não se escreve poesia sobre a Volta à França. O gosto das maiorias, mesmo muito minoritárias como é a dos leitores de poesia, enquanto maioria, nunca foi fiável, e não se chame a isto elitismo. Chame-se lucidez sobre a impreparação. Daí o fácil alinhamento pelo que é mais consensual: o que é moda e o que é considerado intocável pela generalidade. O rei nunca pode ir nu, mesmo que vá em pelote.

Dito isto, o que me faz escrever agora sobre o livro Entre o Malandro e o Trágico, de Hugo Milhanas Machado (n. Lisboa, 1984), editado este ano por Sombra do Amor, é o mesmo motivo que me fez contestar uma referência sem base de afirmação, acerca do poeta que HMM é desde os primeiros livros que dele conheço, Masquerade (Sombra do Amor, 2006) e Clave do Mundo (idem, 2007).

Entre o Malandro e o Trágico compõe-se de vinte e cinco poemas, escritos aos vinte e dois anos, que no pequeno preâmbulo o autor diz terem partilhado papéis com os últimos poemas escolhidos para Clave do Mundo. Julgo pouco mais terem partilhado do que esse espaço, ainda que na última parte desse livro, Cantata, nos poemas Bandoleiro e Fisherman’s Blues, se entreveja este livro, acrescentando eu que poderiam ter feito parte dele sem perda de unidade.

Lidos os livros acima, Entre o Malandro e o Trágico, que todos encomendei e paguei, é uma ruptura com a linguagem poética que neles maioritariamente encontrei, em que HMM dá a ler a sua poesia de iniciação. De um modo geral, abundam nela imagens, símbolos e metáforas, poder-se-ia dizer que HMM seria, entre tantos outros, mais um novíssimo, herdeiro do pequeno segundo modernismo que foi em Portugal o Surrealismo (e não a Presença como querem alguns) . Mas não. A ruptura guardou dos poemas dos livros anteriores, a nível da estrutura interior, as elipses e a repetição de palavras ou de frases no mesmo verso ou que passam para o verso seguinte, não como anáforas, mas, na minha leitura, como um modo diferente de realce: “Amanhece / que não vemos/ que não vemos/antes/ vínhamos andando/ pelas lagoinhas(…)” ou “(…)domingo à noite/ quando se querem/ coisas e tanto mundo/ sobram nomes/ é que sobram nomes.” , etc.

Esta ruptura tem uma qualidade bem mais complexa do que porventura poderá descobrir-se numa leitura ligeira. Para se poder falar com acerto, às vezes é preciso demorar-se e ser-se conhecedor de poesia de todos os tempos, e não apenas, digamos, da poesia do séc. XX e XXI, que é o mais que se vê, e ainda estar-se atento e de espírito aberto ao que nos chegue.

Digo isto, porque esta mesma ruptura tem um carácter culto, não de assuntos, não no sentido erudito, mas no do conhecimento técnico da Língua e também no conhecimento histórico da poesia. No entanto, HMM, leitor de Português numa universidade espanhola, não se coíbe de recorrer à impureza da Língua de hoje, cruzada de termos de gíria, meke, cool, em meke usando o k das SMS juvenis, com línguas estrangeiras, o Galego em primeiro lugar, o Castelhano, o Inglês (naquele cool, eventualmente no título de poema Oh, Promenade) e também a variante brasileira do Português, além de uma expressão do português antigo, no último verso do poema de abertura. Talvez HMM saiba de modo menos sobressaltado do que eu que “as línguas (…)/ se derretem/(…) na caca de outras.”(1) , que se transformam, violadas pelas mais fortes, e que a velocidade da luz instalada na informação multilingue, a par de circunstâncias políticas, lhes apressa derreterem-se e morrerem. A verdade é que, em poesia, não é incomum recorrer-se pontualmente a outras línguas, e não é isso que vai contribuir para corrupções puritanas do vernáculo, não sejamos tão castos que morramos virgens ou não façamos da poesia um lugar de proibições, tantas vezes está ela, e bem, longe da gramática. De resto, é fácil saber de onde surgem as contribuições de facto, da tal caca diária que nos entra pelos ouvidos e pelos olhos dentro.

Esta liberdade de HMM é um prazer que se sente, que HMM usufruiu e que nos transmite: “olha deica deica (2)/ que é de voltar/ quando chove do sul” ou, entre mais casos, no poema notável, que transcrevo na íntegra, onde surge o castelhano namorarte, com o clítico não separado.

Terna
destreza para namorarte
diz da onda
sobre as praias
aportadas a sul
a que vens?
a que vens?
Já faz frio
que a lua balalança
de teus braços


Mas temos também neste poema algo que é comum no livro: a busca de significação já não só por imagens da realidade, mas também por subversões da Língua, neste caso subversão morfológica, balalança. De facto a Lua balalança na ondas, todos já o vimos, o que torna a imagem muito mais expressiva e tanto que balança me parece curto e apagadamente vulgar.

As subversões sintácticas, elipses e cortes de sentido, esses então são comuns e só por si jogam um papel muito importante no dizer mais do que as palavras dizem, substituindo-se, com uma grande frescura, à-vontade e alegria, aos processos analógicos do passado, fatigados de tão repetidos.

Cool
o rapaz está atinado
medrou depressa
a pequena
e agora
oh que pena
vimos nós para a morte
se dizemos saúde
à mesa
se o azar até
na praia nos acena
ontem a exemplo
cool
apagaram a infância
somos da mesma narrativa
e ena a sobremesa.

Muito prazer deve ter dado a HMM este último verso, talvez escrito de repente, como parece ter sido. É como que um resgate da infância apagada, dois versos acima. Tanto do indizível comporta que me ponho a pensar para que serve a artilharia de tropos, presente ainda, como artilharia, em poesia vária de hoje.

Escrever com gozo e alegria afirmativa, sem sombra de futilidade, escrever para si mesmo em primeiríssimo e único lugar, é não só um acto de liberdade, como, no caso de HMM, de alguma alforria, não enjeitando o passado, usando mesmo, ó pecado fatal, a rima aleatória, às vezes bastante divertida como a do primeiro poema, Meia-Lua, uma monorrima irregular em ente, um pouco como na poesia árabe, daí talvez a toada peninsular que HMM refere na nota introdutória.

Enfim, este livro dava pano para mangas. Devo referir ainda a capa, propositada e irreverentemente anacrónica: contrasta não só com o apuro da edição, mas também e sobretudo com os poemas. Ilídio J. B. Vasco, autor da capa e da paginação, soube interpretar, pela contradição provocatória, a poesia tão de hoje de Hugo Milhanas Machado.

Notas
(1) de Noções de Linguística, de Jorge de Sena, Poesia III, Exorcismos.
(2) deica deica, expressão galega que pode traduzir-se por adeus adeus.

20.10.09

Circunstancial sobre Caim, de José Saramago


Caim e Abel, Frederick Leigthon, desenho para gravura de bíblia, finais do séc. XIX.


Caminhem para o centro da cidade.
Há aí uma praça virtual
a que dantes chamavam ágora,
a imensos anos-luz da primavera,
assim julgada
por amantes de Atenas, ímpios, e eu,
como eles, às vezes quando fujo.
Podem ouvir, na praça virtual,
o apóstolo
a anunciar o novo deus
que passou a salvar-vos da morte
e de ideias contrárias ao sossego.
Abel matou Caim
e Caim fez as pazes com o irmão
na eternidade.
Como na catequese, Deus é bom
e omnisciente.
Expulsem com panelas
quem possa difamar o Pentateuco
e a bondade de Deus, ordenam
os sumos sacerdotes, palavra do Senhor.

© nd

19.10.09

Poesia e Bacalhau à Brás

Bom, Sr. de Máscara e Chicote, então o Brás fica para o bacalhau, com um cheirinho de Glenfiddich (40 anos) a temperá-lo sem (grande) acento, acompanhado por Vat 69 com água lisa del grifo, à temperatura de Agosto. Ligação estupenda. É que eu não sabia o que era Fortinbras, não o ligava a Hamlet, daí que a mão me tenha fugido para um meio português de preto (ou de branco, é o mesmo), digo isto porque, com a minha mania do vernáculo, deveria ter escrito FORTIMBRÁS. Enfim, fiquei a saber que é o seu alter ego, mas do seu nome de baptizo, nicles. Assim é fácil bater.

Devolvido o seu mimo de abertura, leia o que escreveu (em estilo tardo-barroco):

"Há nitidamente poetas que ensaiam o não levar a sério o escrever livros de poesia – o que, sejamos sinceros, é comedidamente hipócrita numa pessoa que se dá ao trabalho de publicar – e outros que não levam mesmo o escrever livros de poesia a sério e que, não sendo hipócritas por publicarem, são, antes, parvos. Hugo Milhanas Machado, com Entre o malandro e o trágico, corre o risco de cair no limbo entre estas duas categorias."

Foi contra este seu leviano e semi-insultuoso arrumar de um poeta bastante jovem, em quem vejo valor e diferença, que me insurgi. Não o tivesse feito, e eu estaria calado, à espera do livro que afirmei claramente não ter lido. Quando se classifica um autor, como acima, e não apenas um livro, tem de se lhe conhecer a obra, e quando se fala de poesia é preciso saber falar dela, não ficar pelo comum das recensões, ainda por cima mal digeridas, e ser-se intelectualmente honesto. Não só não o foi no modo como argumenta em relação à minha reacção, mas também porque já trazia o HMM ferido na asa, numa entrada de Agosto passado, em que demonstra má-vontade para com o criticado e total ignorância acerca da poesia contemporânea espanhola, infelizmente muito mais viva e publicamente partilhada do que a nossa. Escreveu aqui:

"Vukusic, Fanjul, Clark, Martínez, Marqués, Moreno y De Ory: a nova poesia espanhola (ou sérvia ou inglesa) ou sete novos jogadores para o Villareal?
Aparentemente a nova poesia espanhola anda a seguir de perto as tendências da selecção portuguesa relativamente a estrangeiros. Só é pena não naturalizarem também o Hugo Milhanas Machado."

É preciso dizer que HMM nasceu em Lisboa em 1984 e que é professor leitor de Filologia Portuguesa numa universidade de Espanha.

Agora atente no que escrevi, a começar pelo título:

Um poeta e um só livro

Ainda não me chegou o último livro de Hugo Milhanas Machado, Entre o Malandro e o Trágico, que encomendei. Demoras que sucedem a quem vive mais perto da Cervantes do que da Poesia Incompleta ou da Trama. Dirão, por isso, que não posso falar do livro, como não posso, de facto. Mas posso abordar o que conheço da poesia de HMM.

Estou habituado a fintas e rasteiras, porque estou atento a elas. O seu alter ego incha tanto que até se esqueceu de pôr o fundamental para a compreensão do que afirmei na segunda transcrição que faz das minhas palavras:

mais, não toca, nem valoriza, em termos de marca de whisky, algo que é bastante saboroso na sua poesia e que me dirão ter sido já feito por certo modernismo, nomeadamente o concreto e sua deriva lusitana. É um gosto e um gozo seus, e também meus como leitor, a subversão sintáctica da Língua. Consegue ultrapassar a estafada desconstrução pela desconstrução, usando-a para construir a sua linguagem poética em termos consequentes, inteligíveis e honestos.”. E a seguir engoliu o que não lhe convinha: Uma lufada de ar fresco nunca foi uma corrente de ar. Lá irei ao livro depois de me chegar, dando a mão à palmatória se estas características não estiverem em Entre o Malandro e o Trágico.

Mais afirmo que a poesia de Hugo Milhanas Machado é, em tudo, diferente, senão quase oposta ao que escrevo, e este quase fica para a expressão inteligível de assuntos comuns do humano. Não há aqui "companheirismo cego" e "protecção", mas o mesmíssimo entusiasmo de quando descubro poetas jovens, bons e promissores, e HMM não é o primeiro. Não sou crítico de poesia como o Sr. Fortinbras pretende ser, mas gosto de pensar sobre ela.

Tudo o que afirmou, Sr. Fortinbras, cai por terra apenas com uma ligeira brisa. Sei bem e penso o que escrevo. Julgo que devia tentar fazer o mesmo. Já o conheço de outro blogue que estimava e que, vivendo ainda, me cansou. Vai ver que com este está a passar-se o mesmo.

Ah, e sabe uma coisa? Havia nesta cidade um restaurante célebre de um homem célebre por ter esse restaurante. Vinha gente de todo o país, gulosa de gastronomias regionais, que não poucas vezes eram um bluff. Fui lá, se tanto, três espaçadas vezes, e não pus mais os pés nele, desde que o dono, no auge da celebridade, apresentou a ministros a iguaria regional nec plus ultra: sardinhas assadas com pão-de-ló. Dizia que era comida das aldeias, e não mentia. Talvez não soubesse é que provinha dos garimpeiros do volfrâmio. Estavam tão ricos que lhes parecia pouco adequado comerem sardinhas com a velha broa, e que coisa melhor para a substituir que um pão rico? Pão-de-ló com sardinhas portanto. Assim, os seus whiskies. Não se ofenda, mas olhe que o comportamento de mau-gosto é idêntico.

17.10.09

Um poeta e um só livro

Ainda não me chegou o último livro de Hugo Milhanas Machado, Entre o Malandro e o Trágico, que encomendei. Demoras que sucedem a quem vive mais perto da Cervantes do que da Poesia Incompleta ou da Trama. Dirão, por isso, que não posso falar do livro, como não posso, de facto. Mas posso abordar o que conheço da poesia de HMM.

Fortinbrás faz uma leitura pela rama do poeta e, por essa razão, não a faz exactamente naquilo que é diferente de poetas ditos novos e novíssimos que tenho lido. Diz que é humor o que é uma lucidez clara (clara como antónimo de pesada) e a recusa do tom puído da lamentação e do eu amachucadamente cliché. E mais, não toca, nem valoriza, em termos de marca de whisky, algo que é bastante saboroso na sua poesia e que me dirão ter sido já feito por certo modernismo, nomeadamente o concreto e sua deriva lusitana. É um gosto e um gozo seus, e também meus como leitor, a subversão sintáctica da Língua. Consegue ultrapassar a estafada desconstrução pela desconstrução, usando-a para construir a sua linguagem poética em termos consequentes, inteligíveis e honestos. Uma lufada de ar fresco nunca foi uma corrente de ar. Lá irei ao livro depois de me chegar, dando a mão à palmatória se estas características não estiverem em Entre o Malandro e o Trágico. Posso estar errado e não tenho a verdade de nada, a não ser que o sol se porá daqui a umas horas e outras coisas no género, pela simples razão de que a verdade absoluta não existe e não porque seja moda e bonito não se terem verdades.

14.10.09

Home, de Ursula Meier, 2008



Filme visto ontem, no cineclube do burgo, que um dia ajudei a ressurgir, como membro da direcção. Passou por cá com o título parvo Lar, Doce Lar. Uma história ingénua e idealista, de denúncia sem saída, em defesa do meio ambiente, com uma militância demasiado visível e, além disso, a tocar por vezes o melodrama e outros exageros. Com o pressuposto de denúncia, ou é uma obra forte, concisa e seca, ou desbordante, mas forte, ou arrefece, quando não soçobra. Isto, a meu ver é válido para as artes em geral, embora não tanto para as artes plásticas, ainda que haja obras inolvidáveis de denúncia e génio, refiro-me à pintura.

O filme trata da história de uma família que tem a sua casa num descampado pouco bucólico (valha-nos isso), junto de uma auto-estrada abandonada que era, naquele troço, como que uma extensão da propriedade. A auto-estrada, com a posterior reactivação, tornou-se um símbolo, mas também a bandeira de uma luta sem solução. Quantas vezes travei, na estrada, à noite, para evitar a morte de coelhos, raposas, doninhas e mesmo javalis. É o máximo que podemos fazer, ou então todos mandarmos os carros às urtigas e passarmos de novo a conduzir cavalgaduras.

Apesar do que digo, ou por isso mesmo, um dia fizeram-me ver que as estradas dividem o território dos animais e os expulsam, sob pena de morte, e isso interiorizou-se em mim como uma aberração sem remédio. Assim aquela família, acossada pelos carros na auto-estrada reaberta, que lhe entravam, dia e noite, pela casa dentro, e que acabariam por a expulsar.

Saímos, eu e o amigo com quem fui, para a noite quente. Eu estava a meio-gás, morno. Ficou-me a verosimilhança daquela família, enquanto apenas agregado, e o desempenho de Olivier Gourmet, no papel de marido e pai, e do filho no filme, um miúdo talvez de oito ou nove anos, cujo nome não recordo, e ainda a qualidade da fotografia e aquela cor ambiente indefinível de cinema europeu, bem conseguida.

12.10.09

Fotografia

























Já nada sou naquela foto, nem
a foto altera o curso de outras,
reciclada em silêncio
até ontem surgir
de repente numa arca.
Tinha eu então treze anos,
vestia um fato preto com gravata,
tal qual
meu pai e meu irmão.
Era costume antigo de família,
o luto e o fato,
e eu não compreendia ainda
as ruas da cidade
com janelas cerradas, e os eléctricos
sozinhos
que levavam os mortos para longe.

© nd

Lábio Cortado, de Rui Almeida
















Rui Almeida (n. Lisboa, 1972) estreou-se em 2008 com o livro Lábio Cortado e estreou o prémio Manuel Alegre de Poesia, instituído nesse ano pela Câmara Municipal de Águeda, obtendo o primeiro lugar. Não é despicienda a precisão acerca da origem do nome do prémio. Não é Manuel Alegre que o promove, é a autarquia, à semelhança de um número crescente de instituições, autárquicas ou não. Estes prémios constituem, para quem os ganha, a possibilidade de verem editado o seu primeiro livro (e não só esse). Esteja-se ou não de acordo com concursos de originais, queira ou não se queira concorrer a prémios de poesia, o certo é que deles vai crescendo a revelação de novos poetas, valorizando aos poucos uma arte tão socialmente pobre como é, entre nós, a poesia, e, mais, indo buscar-se o valor pecuniário do prémio, facto que é de ter em boa nota, porque se, sem falsos pruridos e pré-juízos snobs, o dinheiro dá sempre jeito, o que conta, e sempre deveria contar, é a poesia que se apresenta: premiada, sei-a da medíocre, para não dizer má, até à excelente.

Não vou atribuir pontos, nem estrelas, nem marcas de whisky (como aqui) a Lábio Cortado, senão tentar indicar os aspectos essenciais, como possível guia de leitura e, melhor ainda, de confronto de ideias, de modo a que cada um confirme a sua própria visão do livro e, em primeiro lugar, o autor, que é quem sabe ao certo as suas escolhas.

Devo esclarecer que este texto é uma evolução do que li a Henrique Fialho no seu Antologia do Esquecimento, pessoa e blogue dos meus afectos.

Quero referir-me à(s) forma(s), aos recursos da linguagem poética e à prosódia; ao tempo em que veio e onde se encaixa; aos assuntos e ao seu resumo em apenas um tema, o modo de o poeta estar no mundo e na vida; à inserção da poesia no seu presente e também no seu passado estéticos, e ainda no presente social e portanto político em que se inscreve a gestação dos poemas.

Na forma exterior, por contraposição taxonómica, à forma interior, ou seja, nesta, o modo de o discurso se articular no poema, parece haver, à primeira vista, a intenção de disciplina estrófica em quase metade dos poemas, quinze em trinta e um, dos quais cinco transbordam o período final da estrofe anterior para a estrofe seguinte, criando falsas estrofes sob o ponto de vista formal clássico, sendo que dois destes (pág. 35 e 49) são uma subversão da ordem das estrofes no soneto italiano (sem métrica nem rima) e um, com um muito saboroso encavalgamento no fim, que anula a regularidade estrófica em que vinha (pág. 31): “Nunca é sombra o gesto de apagar/ O cigarro que esteve aceso./ Sabendo que antes e depois de agora, /o sono.

Portanto, feitas as contas, haveria nove poemas com estrofes aparentemente perfeitas, e um destes, um conjunto de dísticos sem ligação, senão por numeração romana, o que nos induz no erro de buscarmos alguma continuidade no dístico seguinte, como se fosse um poema e não apenas um conjunto de dísticos, e, destes, os três últimos com carácter aforístico, o que me vem confirmar a independência de cada par de versos. No mais, não há metro regular, nem acentuação tónica predominante subjectiva, nem combinação de metros deliberada. Acabamos assim por ficar com oito poemas com estrofes, digamo-lo momentaneamente, regulares.

No entanto, destes oito, só quatro poemas se compõem de estrofes regulares verdadeiras, isto é, contêm em si uma parte do poema, independente das estrofes que a limitam antes e depois, mas que as interliga, e não são passíveis de divisão ou de junção, o que arruinaria irremediavelmente o poema (ver pág. 7, 21, 30, 61). Os restantes quatro poemas têm estrofes falsas, porque podem dividir-se ou unir-se a uma estrofe vizinha, sem prejuízo da unidade, quando muito apenas da mancha do poema. Daí não ser excessivo concluir que a disciplina versificatória é menos que residual em Lábio Cortado. Limita-se a quatro de trinta e um poemas, uma disciplina escassa na exigência, de resto muitíssimo facilitada pelo tipo de períodos sintácticos que predominam no discurso poético deste livro.

Aliás, se Rui Almeida tivesse optado por uma disciplina inequívoca, estaria a manifestar o interesse pós-moderno por composições de forma fixa simples ou composta, pensando eu aqui mais na questão métrica e não no modo de a poesia se resolver esteticamente, interesse esse demonstrado por poesias estrangeiras contemporâneas, nomeadamente, em Espanha, pela Poesía de la Experiencia, opção quase não sentida na poesia portuguesa que vai saindo. Estou a lembrar-me dos decassílabos de Fernando Pinto do Amaral (n. 1960) e ainda das episódicas quadras em redondilha maior de Rui Pires Cabral (n. 1967). Não é o caso de Lábio Cortado, o que se deduz do que ficou dito.

Rui Almeida exprime-se em geral em períodos curtos, o que nos sugere, na leitura, uma dureza brusca, afinal um modo abrupto de dividir o poema, à semelhança de quando era falta grave, na poesia moderna, manifestar qualquer tipo de regras (que nunca deixou de as ter, embora outras). Tome-se, como exemplo, um pouco excessivo, o primeiro poema do livro, aliás um belo poema em seis quintilhas imperfeitas. Se contarmos os períodos sintácticos, o poema tem um de meio verso, três de um verso, oito de dois versos, um de dois versos e meio e três períodos de três versos. Dezasseis períodos sintácticos para trinta versos, uma média de 1,9 versos por período (no geral do livro, esta média não andará longe dos 2,5 versos por período). Esta característica mascara o balanço de uma composição estrófica, mesmo irregular como é a deste poema, e torna dura e heteróclita a sucessão dos versos. A ser assim, as quintilhas, e noutros poemas outro tipo de estrofes, poderão constituir uma opção do autor acerca da mancha do poema, que tem a sua importância estética, e não uma opção de forma clássica tout court. E não será abusivo ir uma pouco mais adiante, sabendo eu que Rui Almeida é um poeta leitor de muita poesia: pensemos então nas aqui mais que faladas estrofes, quase todas irregulares, nos sonetos subvertidos, no inicio dos versos com maiúscula, na numeração romana de alguns poemas, misturada à numeração árabe, nos períodos curtos, que negam o fluir da poesia discursiva, o que insere Lábio Cortado em determinado tipo de poesia e num dos seus dogmas mais importantes, que é a liberdade versificadora (sabendo nós que é bem curta essa liberdade).

Posto isto, será de nos perguntarmos se Rui Almeida deseja alguma forma clássica e se, em vez disso, não a mascara na paródia dela. Julgo que o autor do posfácio de Lábio Cortado, Paulo Sucena, ao referir-se a “uma sólida austeridade formal”, deveria estar a fazê-lo em relação a um tipo de poesia fora das regras tradicionais da versificação, porque essa poesia também tem forma e obedece, em cada poeta, a regras mensuráveis.

Curiosamente, em contraponto, associa-se à particularidade prosódica dos períodos sintácticos curtos uma musicalidade em geral macia, diria clássica, das palavras no verso, com uma sensível alternância vocálica e, frequentemente, com fluidez das consoantes, tudo isto, e mais uma vez, em grande contraste com os períodos curtos. Também aqui, em Lábio Cortado, o poeta é o resultado da leitura de muitos outros poetas, bem como da escolha do ouvido próprio, que é sempre uma comodidade, um sentir-se bem com o som das próprias palavras.

Pela linguagem, numa teia em que são abundantes símbolos e metáforas, e também imagens que se convertem nessas figuras, dando ao texto o dito carácter de teia, por vezes fortemente hermética, que a própria poética da pág. 19 vem enunciar claramente: “(…) Retrocedes a boca ao acaso e falas,/ Projectas na dicção o desequilíbrio enquanto dormes,/ Na inerte sintaxe afeiçoas a voz/ E subvertes as palavras simples. // Um vocabulário marcado por conflitos,/ Desvelamentos de afectos e emoções/ Ampliações de modos e sentidos/ Derramados por uma outra vida.”, é por esta linguagem, ia dizendo, que pode incluir-se Lábio Cortado na sequência modernista (surrealista), como base tradicional de uma parte da recente poesia portuguesa, e não só portuguesa. No entanto, há neste livro , poemas e partes de poema que alargam a malha e propiciam uma leitura mais cómoda, deixando o leitor repousar do esforço hermenêutico e sensitivo da decifração de outros poemas.

A par deste facto, o ambiente central, a desesperança, o sentimento de impotência, o quotidiano repetido sem milagres, mas também alguma claridade, os limites físicos e, em Rui Almeida, também os metafísicos, ocultos em símbolos e metáforas que tentam baixar o tom, e baixam, de um desconfortável conflito ontológico entre o real e o divino, trazem a sua poesia para o nosso tempo pós-moderno, com o respectivo cortejo cinza de situações restritivas, consequência social de um tempo de neoliberalismo selvagem e de perverso avanço tecnológico que, por efeito de os viver, o poeta testemunha, desde logo no seu primeiro livro.

Lábio Cortado, Rui Almeida, Livrododia, 2009.

Nuno Dempster
 
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