
Apartados da corte, imaginemos
que iam olhando as águas do Mondego
a fluir, abstraídos, no intervalo
de si mesmos. A paz, a termo certo
ou suspeitado, nunca permitiu
senão o alheamento do futuro
no rio que demora, breve, os trágicos,
assim se prolongando um pouco a vida
com seu esquecimento, nos hiatos
desse outro olvido, que é o amor levado
até onde a lembrança do receio
se apaga, aceso o corpo da paixão.
Podemos encenar com esse tempo
uma écloga de agora, Pedro e Inês
na sombra ribeirinha dos salgueiros,
sentem o tempo abstracto, sem passado
nem futuro, vivendo não se sabe
com que esperança, julgo que sem ela,
apenas ignorantes da tragédia:
o fluir do Mondego é o presente.
© nd













