Foi Inês Ramos , no seu Porosidade Etérea, que me alertou para o fumo que vai por aí. A causa é a fogueira a que foi condenado o re
lapso ponto de exclamação.
E isto de pontos de exclamação, afinal, tem pouco que se lhe diga, apesar de outros tiques gráficos terem muito mais que contar e nada se dizer. O caso, porém, é que estou pelo uso menos que parco do ponto berrante. Aqui, noutros lugares e em papel impresso, quanto me lembre, usei-o uma vez, refiro-me a poesia.
Afinal, se o ponto de exclamação existe, é para ser usado, pese a arrelia e o trabalho que o dito me deu, posto e tirado de um poema dez vezes, pelo menos, e finalmente deixado ficar (em boa hora).
Pedro Mexia afirma que o uso do ponto de exclamação prejudica a ambiguidade do texto, justificando: «(…) quando a ambiguidade me parece uma das características mais fascinantes da linguagem.» Ora, se opiniões cada um tem as que quer, já o ser-se propositamente ambíguo (se ambíguo significar polissémico) me parece batota e não uma boa característica da linguagem. Não será por aí. É o próprio ritmo do texto, a sua construção e seu sentido que vão determinar a anulação do mal-educado grito pontuado. Pode ser isto a que Pedro Mexia chame «formas engenhosas».
lapso ponto de exclamação.E isto de pontos de exclamação, afinal, tem pouco que se lhe diga, apesar de outros tiques gráficos terem muito mais que contar e nada se dizer. O caso, porém, é que estou pelo uso menos que parco do ponto berrante. Aqui, noutros lugares e em papel impresso, quanto me lembre, usei-o uma vez, refiro-me a poesia.
Afinal, se o ponto de exclamação existe, é para ser usado, pese a arrelia e o trabalho que o dito me deu, posto e tirado de um poema dez vezes, pelo menos, e finalmente deixado ficar (em boa hora).Pedro Mexia afirma que o uso do ponto de exclamação prejudica a ambiguidade do texto, justificando: «(…) quando a ambiguidade me parece uma das características mais fascinantes da linguagem.» Ora, se opiniões cada um tem as que quer, já o ser-se propositamente ambíguo (se ambíguo significar polissémico) me parece batota e não uma boa característica da linguagem. Não será por aí. É o próprio ritmo do texto, a sua construção e seu sentido que vão determinar a anulação do mal-educado grito pontuado. Pode ser isto a que Pedro Mexia chame «formas engenhosas».
Todavia,
experimente ir a um bom restaurante de cozinha de autor e leve uma companhia que raciocine como eu. Ao longo d
o menu de degustação, vão referir-se baixinho à excelência das matérias-primas, às ligações divinais e menos divinais de texturas, sabores, temperaturas e suas oposições e sinergias mútuas, à descoberta de outras cozinhas na cozinha base, ao prazer do calor de vinhos escolhidos por quem saiba e não engane. Não lhes passará pela cabeça sequer usar pontos de exclamação.Afinal tudo é delikatessen.
No entanto,
se for uma pessoa como eu, tão eclética
de lugares como esquisita de boca, e se, num restaurante de terceira, tiver comido uma portuguesíssima feijoada com tudo, desde a orelha fumada ao salpicão do cachaço, passando, pela moira, chouriça e pelas carnes gordas com sal de três dias (sem esquecer o rabo) e um tintíssimo de 14º que não mereça dúvidas, além da sorte que teve, não vai falar assim:- ai, pá valente feijoada. e o vinho grande vinho
Usará pelo menos dois pontos de exclamação, endireitando a escrita, para não parecer que está com os copos:
- Ai, pá, valente feijoada! E o vinho? Grande vinho!
(Veja também em Antologia do Esquecimento, A Origem das Espécies, Bibliotecário de Babel, Irmão Lúcia e Senhor Palomar.)