31.8.08

Aquele Querido Mês de Agosto





Arrisco-me a dizer que Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, não é o filme que parece ser. É um documentário, não o sendo de todo, apesar de o realizador o ter assumido assim de início. E podemos dar conta disso no final do filme, quando descobrimos a sua forte unidade, constituída de acasos, actores amadores e personagens reais. Apeteceu-me escrever o guião depois de ver o filme, seguindo a irreverência que é a montagem, a mistura de todos, personagens, reais, de ficção e membros da equipa técnica, e a metamorfose definitiva do documentário em filme.

Uma das suas marcas é a ironia que roça a ternura, obtida por cenas de opostos, como logo a abrir o cantor pimba a dizer João de Deus e depois a cantar a sua canção de letra primária (e até a escolha de João de Deus e do poema tem que se lhe diga); a cena da raposa e dos garnisés; a banda da terra a tocar, a ouvir-se aquele fungagá antigo, enquanto a câmara passava pelo acampamento dos motards; um autotanque dos bombeiros a percorrer uma estrada de macadame e uma canção pimba a ouvir-se com clara nitidez, vinda da festa da vila; um casal de jovens (não fixei nomes) a beijar-se na ponte, enquanto passava uma procissão de andor e tocadores de bombo a zurzir forte nos tambores. Este jogo era nítido e tinha, a par dessa ironia ternurenta, a marca de um grande prazer de realização, como a cena da armação de fogo de artifício que ficou em grande plano a fumegar, suspensa uma porção de tempo, sem mais préstimo, até que saiu dela o cartaz de uma Nossa Senhora, não sei qual, há muitas, o mais certo era ter sido o da padroeira, aplaudida pelos fiéis off que a esperavam.

Uma outra situação de prazer de realização, e também nosso, que assistíamos, foi a a participação dos técnicos do filme no próprio filme, o realizador, o director de produção (que viria a assumir o papel de chefe da banda pimba), o de som e depois, todo o staff técnico, pessoa a pessoa, a intervir, enquanto o seu nome e função surgia no ecrã, num final de uma irreverência deliciosa.

Detesto contar filmes e não vou fazê-lo, mas tenho de dizer que tudo se passa nas serras de Arganil, em Agosto, com um povo ainda pouco tocado pela globalização (ou dela escondido), com figuras que nos apaixonam de tão simples e reais, no meio da festa omnipresente, cantigas pimba, bailaricos, amores, vinho, cerveja, coisas antigas que ainda vivem.

Tudo isto na sessão das 21 h, num cinema de oito salas da cidade onde moro. Comigo, estavam mais sete pessoas na sala, três rapazolas comedores de pipocas e dois casais de namorados, que tinham cara de ter procurado ali refúgio para o tédio. Hoje é comum Portugal ter a arte que merece, com as honrosas execpções de que Sena falava. Desta vez não a mereceu. Pelo menos a cidade, nessa sessão. Éramos oito, e resta-me saber quantos viram o filme.

Não o perca, claro. Fica-se agarrado desde o princípio por tão subtil simplicidade. Foi o único filme português presente no Festival de Cannes deste ano, na Quinzena do Realizador, embora este facto para mim não queira dizer nada ou quase nada, mas isso é já outra coisa.

1 comentário:

adelaide amorim disse...

Se passar no Brasil, não perco.
Obrigada pela visita, fiquei contente.
Abraço amigo

 
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