13.12.08

O Reino da (*)

O C. foi meu colega de curso e tinha a particularidade de falar compenetradamente e em voz muito baixa, sem acabar as frases, deixando-me um confuso sentido suspenso na cabeça, coisa que eu tomei por profundidade enquanto ingénuo. Se então tudo me espantava, o que era mau, hoje nada me espanta, o que é pior. Quando perdi essa espécie de virgindade, cheguei à conclusão de que o C. era uma pessoa que fantasiava uma imagem virtual de si mesmo. Pensava rodear-se assim de uma aura de superioridade e inteligência que não tinha.

Vem isto a propósito de certos bloggers que escrevem, fingindo sentidos ocultos, misteriosos, em busca de uma qualquer polissemia casual. Também não acabam as frases e muitas vezes não fazem ideia sequer do que escrevem. Desconhecem é que em escrita tudo se nota. Sabem porém que há muita gente que lhes aprova a profundidade com medo de parecer ridícula, e sentem-se não só respaldados por ela, mas também seres seus superiores.

(*) Não é uma adivinha. Consulte a bibliografia de Jorge de Sena.

5 comentários:

Daniel Francoy disse...

Eis algo que sempre me inquieta quando resolvo passear por alguns blogs: os seus títulos são, geralmente, muito melhores do que os respectivos conteúdos. Você percebe que o sujeito foi lá, lançou no título do blogger qualquer construção que soe vagamente poética ou amarga, e depois já não sabe o que fazer: perde-se em infinitas digressões e falhadas a respeito de si mesmo, e isso lhe basta.

Amélia disse...

Excelente entrada, Nuno.Conv´+em declarar bem alto que O REI VAI NU.
BEIJO

fred disse...

Interessante, Nuno.
Talvez seja por não haver perdido esta ingenuidade que muitas vezes eu me sinto um estúpido quando vou a alguns blogs cujos textos têm uma profundidade (ilusória? aparente?) que a minha capacidade intelectual não consegue decodificar. Dou sempre o beneficio da dúvida porque tenho um amigo físico que me garante que não há nenhuma dificuldade para entender o princípio da incerteza através da analogia do gato de Shroedinger.
Certamente você perceberá neste meu comentário todo o meu esforço para ombrear-me aos bloggers que você está a condenar.
Com um sorriso, o meu grande abraço.

Daniel Francoy disse...

Ah, o gato de Shoedinger - para entender basta ver o último episódio da primeira temporada de The Big Bang Theory

angel disse...

Ser blogueiro é como ser garimpeiro. Cada dia se pode encontrar um novo veio, uma nova preciosidade. Tal é que aqui estou maravilhar-me com tudo que li.
Ando desconfiada que em portugal não nascem crianças, nascem poetas e escritores somente.
Abraço
Angel

 
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