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23.6.11

Arrumações
















































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Na longa arrumação e monda dos meus livros, que terminei anteontem, fui encontrar este Cafuso. Deve ter vindo no afluente de alguma herança. Dá-lo nunca o daria, mas também não foi parar ao lixo. Arrumei-o e agora está entre Húmus e O Homem sem Qualidades. Um insulto? Nem por sombras. Raul Brandão e Robert Musil tratarão dele, até eu não ser deste mundo nem do outro e alguém me fazer a vontade que deixei escrita, como se pode ler na imagem.

Mas quem foi Reis Ventura? Salazarento militante, perdeu o nome há muito, mas ficou para sempre como vencedor do primeiro prémio Antero de Quental, promovido pelo Secretariado Nacional de Propaganda, em 1934. O segundo lugar, arranjado à pressa face aos protestos, foi ocupado por Fernando Pessoa, com Mensagem.

8.2.10

O post corrigido





Talvez por João Rasteiro fazer parte, julgo eu, de um projecto híbrido chamado "Oficina de Poesia", é que fui deparar, no seu Centro do Arco, com a minha notícia devidamente corrigida, três dias depois de eu a ter publicado aqui. O meu prosear em texto alheio vai a negrito imediatamente abaixo.

Acaba de sair o livro Divina Música, Antologia de Poesia sobre Música, organizada pelo poeta Amadeu Baptista, com capa e paginação de Inês Ramos, comemorativa do 25.ºAniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu (1985-2010), em edição deste mesmo conservatório, com patrocínio da Proviseu - Associação para a Promoção de Viseu e Região. Esta antologia, onde tenho o prazer de estar incluído, acolhe cento e trinta poemas de outros tantos poetas de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Timor-Leste, onde constam quase todos os nomes "mais importantes" da poesia portuguesa contemporânea. O trabalho de Amadeu Baptista e Inês Ramos resultou num belo e mesmo luxuoso volume de 188 páginas e num livro com poemas de grande qualidade. Parabéns a ambos e especialmente ao Conservatório de Música de Viseu.

Esta última correcção de João Rasteiro parece querer imputar-me o pecado da ingratidão. Mas não o cometi. Tive a oportunidade de dar os parabéns aos promotores da antologia num óptimo jantar, que agradeci, em que até fui o escanção e aconselhei o vinho (Vinha Paz, 2006) e em que elegi, para mim, vitela assada à moda de Lafões, cuja receita muito recomendo a quem gostar de faenas culinárias. Quanto às outras correcções, não as comento.

26.8.09

Arroz de Salpicão



Entraram no restaurante perdido na terreiro-pacense palavra interioridade, um restaurante pouco mais que tasca do campo, onde se almoça por seis euros e meio. Eu estava no fim do arroz de salpicão e, com receio da mais que certa falta de qualidade do vinho, bebia uma espécie de tinto de verano dos castelhanos, mais pobre, só vinho e gasosa frescos, sem gelo e sem rodelas de limão. Eram seis os que tinham entrado, três homens e três mulheres, forasteiros pelo aspecto, topam-se à légua, caídos como que de pára-quedas nestas brenhas.

Os dois homens mais velhos, a beirar os cinquenta, usavam barba. Um deles, à minha frente, de esguelha, na mesa da esquerda, trazia uma t-shirt, onde li Funerária de Mora, e reparei que os outros dois, mas não aquele, tinham a pele estiolada, como penso suceder não poucas vezes a quem lida com funerais e coisas do divino.

O mais novo, de uns vinte e vagos anos, era magro, tinha um bigode ralo e largo, fora de moda, cabelo curto, cara de grão-de-bico, isto é, sem queixo, notoriamente pálida. Pareceu-me o mais estiolado dos dois e o mais gato-pingado, sendo que o da t-shirt era normal, imaginei que fosse um verde, quando reparei nuns símbolos vagamente ambientalistas da camisola, sob as palavras Flumário de Mora, que julguei ter lido melhor, sem saber, como não sei, eu e ninguém, o que seria um flumário.

Chegava o pedido deles, comigo já no melão. O da cara de grão-de-bico e a hipotética esposa de altar, que estava a seu lado, iam comer febras, daquelas deslavadas, que só levam sal. Batatas fritas, arroz, salada. O do Flumário, mais a sua avantajada consorte, foi para o arroz de salpicão. O outro gato-pingado e a mulher em frente receberam o pedido de entrecosto, tão sem sabor quanto as febras do outro. Tamanha vulgaridade de escolha, as febras e o entrecosto, talvez fosse, pensei eu, uma coisa comum a gente que lida com essas coisas do espírito, mais as funéreas que as divinas.

Eu tinha pressa e queria confirmar a palavra na t-shirt. Por fim, depois de alguma ginástica, consegui ler, desiludido: Fluviário de Mora. A palavra fluviário não existe, pelo menos na minha cabeça e no dicionário da Priberam on-line, não estou em casa para ir a outro, mas não será preciso, parece-me um neologismo tolo, originado em aquário, a que, com bem maior impacto, podiam ter chamado Aquário Fluvial de Mora.

Enfim, os outros, por via da minha desilusão, já tinham deixado de ser gatos-pingados; o mais novo, o cara de grão-de-bico, andaria assim pálido porque a sua legítima lhe seria sumamente apetitosa e não se davam repouso; o outro, porque talvez fosse um terceiro escriturário das Finanças e não apanhasse luz do sol. Quanto ao verde, deixara de ser verde para ser não sei se um votante cor-de-rosa, se cor-de-laranja (confundem-se), com a louvável e proveitosa inclinação para escolher cozinha regional, o arroz de salpicão, que estava bem bom.

29.7.09

Mudar os nomes aos bois?

Casamento entre pessoas do mesmo género? Diabo de eufemismo. Quer dizer, são dois substantivos que se casam, António com Antonino. Mas também pode significar casamento entre duas pessoas do mesmo calibre ou do mesmo gosto, entre outras especificidades, modo, qualidade, força, estilo, etc. Ver mais aqui.

Heterossexual, não tenho nada a opor ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Votaria sim num referendo, respeitando deste modo a liberdade inteira de se ser diferente, mas não só: fá-lo-ia também pela justiça fiscal e pela igualdade no direito sucessório e em outros ramos do Direito. Não se trata pois disso. Estou é contra o delicado pudor que, ainda por cima, leva a escrever asneiras. Género? Qual género, qual carapuça. Sexo. Nem notam que, escondendo a coisa, estão a ajudar a discriminação contra quem, como na imagem, luta contra ela.

1.1.09

Virtual(h)idades

Houve um tempo em que andei cansado das palavras, porém não tanto nem tão longamente como aqui. Abri nessa altura uma espécie de restaurante na blogo, em que eu era o chefe e único trabalhador. De vez em quando escrevia uns versos, mas acho que o resto me sabia então melhor. Os meus clientes eram gente que, penso, não queria saber de poesia para nada, tal como 99,8% das pessoas destes país. E mesmo esses 0,2% remanescentes ainda me parecem muito. É que a percentagem traduzida em números dá 20.000 almas. Metade estou certo de que preferiria o bife que lhes deixo a ouvir pela primeira vez a Canção X de Camões, dita por Luís Miguel Cintra. O restaurante fechou porque a crise chegou ao fim, ao contrário de hoje, em que os restaurantes da real fecham porque a crise entrou por eles dentro.

12.11.08

Esquinas



O que é a blogosfera. Uma pergunta. Podia responder é um tagarelar sem fim das classes médias, abrangendo a proletária de hoje, definição em que me incluo, não estou a safar-me do que afirmo. Tanto me dá. Contudo, hoje prefiro dizer é uma urbe só com esquinas. Esquinas de surpresa, esquinas electivas, esquinas-parlatórios, esquinas de bocejar, esquinas de trepar, esquinas onfálicas, esquinas de gato por lebre, esquinas para rapidinhas, nunca mais acabaria com elas se não tivesse em mente, com este post, chegar a um determinado tipo de esquina, onde criaturas escrevem ao espelho, coçando-se, como se a esquina fosse o tronco de um carvalho.

23.9.08


Garnisé

É cada vez mais visível a figura do janota em letras, na proporção em que a qualidade se mede e valoriza pela visibilidade e pelo merchandising. Chamar-lhe-ia o fenómeno de Hirst (leia aqui, e tropece em tanta asneira).

8.9.08

Uma questão de bifes


Jorge de Reis Sá Reis-Sá (com tracinho), industrial e comerciante de livros por grosso, dá aqui uma curiosa receita para o "bife" de um escritor de horas vagas que queira tornar-se escritor a tempo inteiro. Mas sai tudo tão espartilhado, dirão, que até parece coisa militar. No entanto, para a promoção do livro que o escritor terminou, JR-S é um mãos largas. Três meses, pois então. Sem receber mais por isso e ainda tendo de inventar uns biscates por fora. Senão que vá para pedreiro, como diz, e que escreva nos tempos livres.

Não se faça caso desse bife, deve ser de filet mignon, é uma carne deslavada e, além disso, parece vir com as inevitáveis batatas a murro. De resto, dir-se-ia ser mais a cenoura da história do burro do que aquilo que se vê.

Se apetecer um bife a alguém nessas condições, deixo aqui um bem melhor. O molho é de queijo da serra e o que se vê a nadar nele são míscaros. À direita, polme de tomate assado; por cima, rúcula. Esse alguém vai ver que não precisa de trabalhar de borla. Porque tem de o pagar com as suas mãos livres, e não custa nem um milésimo do outro. Dou a receita a quem a pedir.


10.8.08

Bolinhos & Pastéis


Roubei aqui estes bolinhos de bacalhau com tão bom aspecto. Os que comi no sábado ao almoço não eram tão bonitos, mas estavam bem feitos. Dispensaria o esparregado, a tolice vulgar do omnipresente arroz de feijão como acompanhamento de tudo, na imagem com arroz agulha em vez de carolino (por exemplo) e mandava o limão embora. Ficaria só a alface. Enfim, acabei por escolher feijão-frade frio com salsa e cebola picadas e uma alface parecida à da imagem.

Falo disto, porque os bolinhos definiram na minha cabeça o motivo da aversão ao nome pastéis de bacalhau que não poucas vezes dão aos bolinhos do dito (seria um assunto para Helder Guégués). Pastéis são constituídos por uma massa cozida no forno (ou frita) e por um recheio salgado ou doce, como pastéis de massa tenra, pastéis de Tentúgal, de nata, de feijão e por aí fora. Pelo menos é o que os dicionários de português on-line rezam (a massa frita é acrescento meu). Ora todos nós já vimos fazer bolinhos de bacalhau: 1 kg de batatas reduzidas a puré, 0,8 kg de bacalhau bom desfiado, salsa picada, ovos q.b. para a massa ficar moldável. Formam-se com a ajuda de duas colheres de sopa e fritam-se em óleo bem quente. Quem quiser genuínos pastéis de bacalhau use esta massa como recheio, envolva-a em massa brick ou mesmo filo, e leve os pastéis ao forno até dourarem. A textura estaladiça exterior dará um toque de cozinha criativa ao almoço e protege a língua portuguesa de confusões.

10.7.08

As Sete Partidas Lusitanas

Estou a pensar como poderei ler em diagonal as novéis Sete Partidas de Manuel Alegre, sem despender um cêntimo. Talvez vá à FNAC e me sente a folhear o poema de onze poemas. Não me passaria tal coisa pela cabeça, se não suspeitasse de que o infante D. Pedro pode ser, para Manuel Alegre, o que Virgilio foi para Dante. Nem menos, depois de ter medido e medir Camões e Pessoa. Ver aqui a amável recensão que Y. K. Centeno fez do livro. E ler os versos que lá estão, alguns deles heróicos, no sentido métrico e no sentido epopeico, e doutos. O certo é que ninguém pode exigir lucidez a ninguém. Cada um tem de se bastar com a sua (se a tiver).

5.7.08

Empadas romanas do tempo de o Pacífico



Faça-se um pastelão de meio alqueire de farinha amassada em água e sal, cobrindo-o por cima como empada; como estiver feita, assopre-se por uma buraquinho, para que fique bem cheia de vento; depois de muito bem cozida, abram-lhe no fundo um buraco redondo, por onde lhe metam duas ou três dúzias de pássaros vivos, e tapando com a mesma massa, mande-se à mesa. Também se faz de pombos ou coelhos vivos.

Em Arte de Cozinha, de Domingos Rodrigues, Imprensa Nacional, 1987.
Nota: Domingos Rodrigues foi mestre de cozinha da Casa Real, no reinado de Pedro II, o Pacífico (1683-1709).

26.6.08

Um elixir de longa vida?


Este blogue nunca conheceu o trânsito dos quatro anteriores que tive. Se os cães envelhecem sete anos por apenas um do homo sapiens, os bloguistas envelhecem aí uns quarenta, de modo que, ao fim de seis anos na blogosfera, me tornei numa espécie de fóssil, e os fósseis da blogo, como dizem nuestros vicinos, acabam por ser vítimas da sua própria condição.

Daí até o contador registar só uma visita diária nos últimos meses foi um saltinho lógico e um recorde imbatível, porque o contador também me regista a mim. No entanto, um blogue não é um armazém de palavras, que foi o que me apeteceu fazer deste até ontem, até aos meus duzentos e quarenta anos que tinha ontem.

Veremos se o meu elixir funciona: um blogue vive para os outros e para o dono dele nos dos outros, não interessam aqui números e qualidades. Cada um come do que gosta e quanto lhe apetece, segundo o tempo e o tipo de exigências, não pensando eu nas impossibilidades de toda a ordem que nos assaltam hoje, mais as que a previsibilidade aponta para amanhã.

 
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