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22.12.13

Recanto




















Acampamento Cigano com Carroças , Van Gogh, óleo sobre tela, 1888.

Desconforto de pássaros molhados
nas árvores ao vento, talvez eu
pudesse partilhar da sua condição:
chegava uma barraca
semelhante à que vejo
sob o viaduto, à entrada da cidade:
fumo, gente aninhada dentro,
dois cavalos à chuva e um burro,
um recanto de esterco e paz.
É que me rio quando amigos chegam
e aconselham, ungidos de saber:
«A paz está em ti, fica a pairar
por sobre o teu telhado.»
Mas não me dizem
come e bebe o melhor que tenhas,
esgota a tua casa, suicida-te assim,
e eu acabo por ir
na mesma direcção em que já ia,
nem morro nem me mato,
nem tenho por vizinha a gente da barraca.


Nuno Dempster, in Elegias de Cronos, Edições Artefacto, 2012

6.9.12

Aeroporto de Milão – Malpensa


















Aeroportos são terra de ninguém,
os corredores, as naves para lá das vidraças,
os mesmos restaurantes fast food
com ementas iguais em todo o mundo,

e as escadas rolantes a arrastar
não se sabe para onde
a gente derreada
que enche as salas de espera

e sujeita os serviços de higiene
a constantes avisos amarelos
à porta dos lavabos
e a alterações nas pautas de registo.

Quem pense no destino metafísico
da humanidade
escrita com maiúscula de Deus,
future só que bichos somos

quando andamos em sítios tão assépticos,
longamente pensados por
equipas de arquitectos e peritos
de grandes companhias,

e, com isto, imagine
que o volume de urina e fezes
foi cuidadosamente calculado e falhou,
vendo-se cada vez mais avisos de limpeza

na terra de ninguém, cheia de gente
que tem o mesmo ciclo digestivo
e embarca a toda a hora,
enquanto outra vai chegando e não dá vazão

ao sistema de esgotos, planeado
para os aeroportos quando eram soberanos
como a dívida pública
dos países mais pobres que hoje enviam

nuvens de expatriados pelo céu
às pistas de aterragem,
em companhias low cost,
disfarçados de ricos e libertos,

e belas raparigas
com malinhas de rodas atrás delas,
nascidas em subúrbios tristes,
em terras de ninguém como a que pisam.


Nuno Dempster, in Elegias de Cronos, Edições Artefacto, 2012.

9.2.12

Inês, ó bela fêmea do Verão




«Inês, ó bela fêmea do Verão,
que Posídon retese as tuas pernas
com que irás abraçar-me, para ti
inteiro me puxando», clama Pedro
neste século XXI, certamente
dantes leitor de gregos por assim
falar, grandiloquente, ou parecer
que fala àquela loira como pão.
Inês é fulminante, Pedro cega,
e ela, veloz, aceita-o por ser príncipe,
afirma o maldizer de gente reles.
E agora só de longe em longe os vêem,
às vezes num iate, de entre as ondas;
de outras, em um Rolls Royce, na auto-estrada.
Não os acham de noite em parte alguma,
mas as revistas rosa mostram que
andam pelo terraço dos hotéis,
onde músicos tocam velhos temas
e a brisa traz consigo lavagantes
e ostras como metáforas de sexo.

Nuno Dempster, in Pedro Inês: Dolce Stil Nuovo, 2011.

5.7.11

Desconstrução



"E o mar e o céu azul,
Onde os anjos da velha Lusitânia
Voam como através da nossa fantasia.
"
Teixeira de Pascoaes

Sobre os cumes nevados do Marão
o azul esvaziou-se, cor
onde os anjos da velha Lusitânia
eram um divagar de Pascoaes
doente de saudade.
Se nem a Lusitânia existe
e não se têm visto anjos no céu,
que sobra das ideias do poeta?
Por certo o desconforto de saber
que estava errado e a pena
de o país ir chegando
imagina-se que ao final
sem haver fé nenhuma.
Em cinquenta e dois, já aeronaves
sulcavam o universo azul cyan
sem mais significado que o da Física,
e por isso, por causa dessa cor,
a Amarante de minha mãe
não pôde resistir, e os anjos
da velha Lusitânia

perderam a batalha, expulsos
do céu por esquadrilhas
que atulharam o cosmos de satélites.

Nuno Dempster, in Revista de Poesia Saudade, n.º 11, Junho de 2009, p. 51.

7.2.11

O Baralho de Tarot




Caminho lentamente pelas ruas
desta velha cidade que se inova,
lugar sem mim, de exílio e de memória
junta em outras cidades já vividas.
Refaço o corpo denso de passado,
esquecendo as vitrinas estrangeiras
do futuro e seus altos edifícios.
Vou calado, não posso lamentar-me.
Numa mesa redonda, por nove euros,
a mulher do tarot leu-me nas cartas
e disse «É grande o seu coração, mas
deseja-o sempre cada vez maior.
Prevejo que por isso ninguém há-de
caber nele, perdendo sempre o jogo.»
Respondi-lhe não jogo, nunca jogo
e sonhei com um vulto que me disse
«Nasceste para ser feliz.» Foi tudo.
E desde então julguei não precisar
de vaticínios, só de uma ilusão,
e essa tem-me falhado. Será justo?
«A sorte é sempre justa quando nossa»,
respondeu. «Não será assim», tornei.
«É que um dia num filme italiano
ouvi a alguém Nasciamo per soffrire.
Tudo isso me confunde agora, e creio
não haver esperança no baralho
que possa definir-me o coração.»
«Os corações são todos semelhantes,
batem do mesmo modo», contestou.
«Veja o sinal das cartas: somos bichos
genéticos. O seu avô poeta
passou exactamente pelo mesmo,
e agora ninguém sabe onde ele está.»

In Dispersão - Poesia Reunida, Nuno Dempster, Edições-Sempre-em Pé, 2008, p. 143-144.

13.6.09

Julgo que nasceram no mesmo dia

























Ricardo Reis, pormenor de mural, Almada Negreiros, 1958.

(De) Três Sonetos a Lídia,
em Louvor de Ricardo Reis


1

Nada nos sobrevive se não temos
ainda os olhos puros, e a corrente
não conseguimos ver na transparência
dos dias mais antigos e serenos.

A sombra não a queiras, Lídia, é turva
e, ao escurecer a água, turvas ficam
as águas que eram claras, e do rio
se quedam na memória as águas sujas.

Se sentires a sombra não esqueças
que antes dela brilhou o limpo sul
por detrás das colinas que então vias.

Somente assim a vida nos mereça,
os olhos dedicados a essa luz
que dos choupos a ti sempre volvia.

In Dispersão - Poesia Reunida, 2008, Nuno Dempster
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