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17.9.12

Entretém de boca




Enquanto não chega:


A solidão desse homem atraía-a, tinha vontade de ir ter com ele, perguntar-lhe porque vive só? Posso cuidar da sua roupa, gostaria muito de cuidar da sua roupa. Se tivesse o número do telemóvel, ligar-lhe-ia: não precisa de alguém para tratar da roupa? Mirava-se no espelho do guarda-vestidos – era uma mulher esguia, sem defeito – e percorria com as mãos, devagar, os seios, o ventre, a face interna das coxas, a luxúria, eu cuido da roupa, eu cuido da roupa, murmurava, oh, meu Deus, concede-me a roupa dele, faz-me feliz, e desejava-o até a confusão do orgasmo lhe tomar conta da cabeça, para no fim se perguntar seria amor dar-se assim toda? Um desperdício, responderiam muitos. Mas era, claro que era amor, e sentia-se cada vez mais submetida pela paixão.

In Jack, aqui

22.8.11

De Harley Davidson



Com o blogue assim ao abandono, imaginemos que fui passar férias ao Cabo Norte, montado nesta Harley Davidson, com barba prévia de três meses e cabelo de seis, o que é suposto sinal de profunda excentricidade intelectual e criativa. E, para mal dos meus remédios, que hoje tenha regressado a este país governado pela troika dos Beresford, ainda que poucos se ralem com isso. Sua Eminência Reverendíssima, o Cardeal Patriarca de Lisboa, prega mesmo a obediência ao governo estrangeiro e aos seus acólitos nacionais, que os há sempre. Vejamos o que irá suceder quando tirarem ao «povo» a côdea de sêmea com que iria adubar o caldo ralo. Com certeza vai tudo a Fátima, mas por ali é serra e fragas, nem para centeio dá. Entretanto, o Khadafi é que está na berra, tirano, hijo de puta, cortava-te as goelas, enquanto aplaudem o pessoal louro do petróleo, que enrosca já a boca das mangueiras. Como se ganhássemos algo com isso e o mundo não fosse comandado por khadafis invisíveis. Enfim, pondo de parte estas chatices, digamos que as férias passadas lá no cimo teriam sido uma excelente razão para ter o blogue parado.

23.6.11

Arrumações
















































Clique na imagem para ler melhor


Na longa arrumação e monda dos meus livros, que terminei anteontem, fui encontrar este Cafuso. Deve ter vindo no afluente de alguma herança. Dá-lo nunca o daria, mas também não foi parar ao lixo. Arrumei-o e agora está entre Húmus e O Homem sem Qualidades. Um insulto? Nem por sombras. Raul Brandão e Robert Musil tratarão dele, até eu não ser deste mundo nem do outro e alguém me fazer a vontade que deixei escrita, como se pode ler na imagem.

Mas quem foi Reis Ventura? Salazarento militante, perdeu o nome há muito, mas ficou para sempre como vencedor do primeiro prémio Antero de Quental, promovido pelo Secretariado Nacional de Propaganda, em 1934. O segundo lugar, arranjado à pressa face aos protestos, foi ocupado por Fernando Pessoa, com Mensagem.

13.4.10

Da quarentena

Um projecto que me veio de repente à cabeça tem-me afastado do blogue, e os blogues, como o amor, requerem assiduidade e persistência. É certo que tenho feito do Esquerda da Vírgula armazém dos versos que vou escrevendo. Este facto inclui-me na classificação de vate blogueiro, cuja principal característica é mostrar versos próprios a quem passe, antes de, se calhar, impressos em papel. Se a uns move igual atitude, a outros move a atitude oposta. Cada qual manipula o que é seu como quer. No entanto, julgo adivinhar na cabeça de alguns que, havendo carimbos para tudo, também haverá um para gente que dá a ler os seus poemas neste meio. Por mim respondo. A poesia tem a importância que tem e, dentro desta, aquela que a tiver, ou seja, pouca na mesma. Refiro-me, claro, à importância que muitos buscam com a poesia e não àquela que, felizmente, bem mais lhe dão como gozo de criação e de partilha pela leitura.

Tudo isto por causa deste silêncio que dura há cinco dias e do tal projecto que, dadas as suas características, não irei pôr aqui, ficando na gaveta onde, afinal, não tenho nada. Vamos ver o que vai surgindo.

Hoje é este vídeo para maiores de 18 anos. Tem cenas eventualmente chocantes, com 2.500 anos e mais.

27.2.10

Uma conferência há meio século e quatro anos


A propósito da sua recensão no Público acerca do livro O Formato Mulher, de Anna M. Klobucka, baseado na tese de doutoramento da autora, penso que Eduardo Pitta deveria ter referido Jorge de Sena e a sua conferência sobre Florbela Espanca nos Fenianos, Porto, em 1946 (1). Serviria para cotejar ideias com as da novel autora, tanto mais que Eduardo Pitta já citara a dita conferência neste post e portanto sabia dela, muito embora, na brevidade de um só período em que se lhe refere, dê não só uma ideia errada do que Sena proferiu então, mas também não aborde o essencial dessa conferência, que é precisamente o que O Formato Mulher sugere e a recensão confirma.

Entretanto, Eduardo Pitta obteve ontem o Prémio Especial Jornalista ou Imprensa de Edição, na sua qualidade de crítico literário, entre um conjunto de prémios atribuídos pela Revista Ler e pelos consultores Booktailors.

(1) - Ver Estudos de Literatura Portuguesa - II, Jorge de Sena, p. 29 a 45, e nota bibliográfica, p. 313 e 314, Edições 70, 1988.

14.2.10

Antologia sobre gatos




















Imagem tirada daqui.

Só à Noite os Gatos São Pardos, Textos Inéditos de Autores Contemporâneos, antologia temática de poemas sobre gatos, com organização de Jorge Velhote e Patrícia Pereira, e ilustrada por Ricardo Ayres. A edição é de Cantinho do Tareco, Associação de Protecção Animal, com o fim de obter fundos para ocorrer aos encargos da sua acção. Colaboraram nesta antologia A. Dasilva O., Alexandra Malheiro, Amadeu Baptista, Ana Luísa Amaral, António Barbedo, António Ferra, António José Queirós, Aurelino Costa, Bruno Béu, Carlos Lizán, Carlos Poças Falcão, Cristina Carvalho, Diogo Alcoforado, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Francisco Duarte Mangas, Gabriel Mário Dia, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, João Manuel Ribeiro, Jorge Velhote, José Álvaro Afonso, José Emílio-Nelson, José Leon Machado, José Miguel Braga, José Viale Moutinho, Luís Filipe Cristóvão, Luísa Ribeiro, Maria do Carmo Serén, Mário Anacleto, Nuno Dempster, Renato Roque, Rosa Alice Branco, Rui Amaral Mendes, Rui Lage, Sara Canelhas, Soledade Santos, Tiago Worth Nicolau, Teresa Tudela, Vergílio Alberto Vieira, Victor Vicente e Vítor Oliveira Jorge.

10.2.10

Cícero disse: errare...





















Não há duas sem três. Ainda a antologia Divina Música. Por informação de um amigo providencial, faltou-me referir como de Timor-Leste o poeta João Aparício, de quem transcrevo o poema abaixo (pág. 88). A informação sobre a dança, que dá o título ao poema, é muito mais detalhada, pelo que só cito o que me pareceu essencial para bom entendimento. Entretanto, corrigi aqui não só essa falta, mas também a de um nome trocado, o de João Rasteiro: chamei-lhe Rui, que não é nenhum nome feio. Nessa altura, eu devia estar a pensar em aliterações.

TEBE-TEBIDAI-BIDU

Laveiras – Caxias, 4 de Abril de 1955

Que forte e pura
A melodia das tebe-tebidai-bidu!
Anima a semente que ainda dorme,
Ergue-lhe o rosto da terra
Para o bálsamo de Janeiro.

E quando o sol da minha vida
Se enlaça com a melodia,
Uma novíssima semente coroada de kaibauk,
Fecunda e madura, germina
Entre os lábios do meu lindo coração,
Rasgando colinas e montes,
Abalando o céu azul,
Cobrindo de canções todo o universo!

Notas do autor, João Aparício:
Tebe-tebidai-bidu: Danças e cantares tradicionais.(...)
kaibauk: Adorno em forma de meia-lua, em ouro ou prata, utilizado na testa, preso à cabeça, em cerimónias solenes.

8.2.10

O post corrigido





Talvez por João Rasteiro fazer parte, julgo eu, de um projecto híbrido chamado "Oficina de Poesia", é que fui deparar, no seu Centro do Arco, com a minha notícia devidamente corrigida, três dias depois de eu a ter publicado aqui. O meu prosear em texto alheio vai a negrito imediatamente abaixo.

Acaba de sair o livro Divina Música, Antologia de Poesia sobre Música, organizada pelo poeta Amadeu Baptista, com capa e paginação de Inês Ramos, comemorativa do 25.ºAniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu (1985-2010), em edição deste mesmo conservatório, com patrocínio da Proviseu - Associação para a Promoção de Viseu e Região. Esta antologia, onde tenho o prazer de estar incluído, acolhe cento e trinta poemas de outros tantos poetas de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Timor-Leste, onde constam quase todos os nomes "mais importantes" da poesia portuguesa contemporânea. O trabalho de Amadeu Baptista e Inês Ramos resultou num belo e mesmo luxuoso volume de 188 páginas e num livro com poemas de grande qualidade. Parabéns a ambos e especialmente ao Conservatório de Música de Viseu.

Esta última correcção de João Rasteiro parece querer imputar-me o pecado da ingratidão. Mas não o cometi. Tive a oportunidade de dar os parabéns aos promotores da antologia num óptimo jantar, que agradeci, em que até fui o escanção e aconselhei o vinho (Vinha Paz, 2006) e em que elegi, para mim, vitela assada à moda de Lafões, cuja receita muito recomendo a quem gostar de faenas culinárias. Quanto às outras correcções, não as comento.

2.8.09

Viva as férias!


Nunca um ponto de exclamação poderia ser tão bem aplicado. No entanto, não diga nunca. Atente na imagem e no título que lhe dei.

Leões-marinhos com guarda-sóis, Praia da Barra, fotografia de Tânia Bóia, 2009.

29.6.09

A margem e a canoa

Divas e Contrabaixos atribuiu o galardão Lemniscata a este blogue, tornado, quase só um depósito de versos, ainda por cima meus. Eu poderia agora seguir a corrente, mas o que se passa é que, em seis anos já cumpridos de blogosfera, tenho ficado comodamente na margem, sem me meter na canoa. Mas quem sabe não me ajuda a variar a cara e o coração a este lugar? O meu agradecimento a Maria do Rosário Fardilha.

24.5.09

Para lá do jardim à beira-mar













Brevemente, Amélia Pinto Pais vai ver publicados pela editora Companhia das Letras, de S.Paulo, os seus dois livros mais recentes, Fernando Pessoa, o Menino de Sua Mãe e Padre António Vieira, o Imperador da Língua Portuguesa, ambos editados em Portugal pela Âmbar. Ver mais bibliografia. Amélia Pinto Pais mantém, com invejável regularidade, o blogue Ao longe os Barcos de Flores.

19.3.09

Partiu em busca










A vida nunca foi aqui. Nem nas palavras que escrevemos. A vida está sempre lá fora e também no que vemos, ouvimos e lemos. Lá fora, onde? Preacher não disse nada no fim de Pale Rider. Uns ficam, outros partem, às vezes encontram-se e riem. Hasta luego, Henrique, essa forma castelhana de nunca se dizer adeus.

18.3.09

Arzak, que o grande cozinheiro me desculpe


Se eu disser que hoje salvei o meu cão Arzak de morrer afogado, isso não terá significado senão para quem o conhece. No entanto, poder-se-ia extrapolar este caso particular para o mundo e imaginar milhares de pessoas a salvar ao mesmo tempo os seus bichos, e milhões de médicos a salvar milhões de humanos, e concluir-se que a vida é uma luta contra a morte. Mais, e principalmente, que desta luta se retira o absurdo do desfecho final, que o esquecimento oblitera ou torna em ideia abstracta, como se não fosse nada connosco. E ainda bem. A vida vai-nos pagando com essa defesa e com os intervalos de existirmos para a alegria, a alegria de termos salvo um bicho, entre outros motivos para ela, neste tempo de misérias várias e muitas, eu sei.

19.11.08

Como de uma coisa se vai para outra
ou o subconsciente não sei se colectivo


Dá-me um gozo grande escrever rimances para putos como o aí em baixo.

Primeiro, porque devia ter jeito para fadista de desgarradas, não fosse a minha voz ser ajustada apenas para escrever no teclado, como dizia o outro. É que nem para ler os meus próprios versos dá e, se os leio para os rever, é baixinho. Portanto um dos gozos de escrever esses rimances é desgranar, como de espigas, quadras certinhas na métrica e na rima, daí o fadista de desgarradas que poderia ser, tivesse eu outra voz. Seria O FADISTA PARNASIANO.

Depois, porque o grande, o maior dos gozos, é voltar a ser puto enquanto escrevo tais rimas, coisa que nem o Sócrates será capaz de me tirar, mesmo se as fronteiras da CE fecharem com a crise e a Berlenga Grande passar a ser a antiga Ilha do Sal.

A imagem foi encontrada no Google e pertencerá ao blogue nela escrito.

15.11.08

Movimentos


Hoje liguei um blogue que já vem de outros blogues meus entretanto falecidos por tédio. A este acrescentei Mudandanças e C.ia, O Sol quando Nasce, Caminhos da Memória e Volumen (para que o Insónias se completasse). Também desliguei um. Penso que, para se ser tão taxativa e sobranceiramente certo, é preciso não errar, o mesmo é dizer que não erre quem, etc.

30.10.08

Sublinhado

Os meus amigos Amélia Pais e Fred Matos tiveram a amabilidade de atribuir o prémio Dardos a este blogue, que só às vezes tenta não ser um armazém de versos. Os meus agradecimentos.

17.10.08

Areia


Fotografia de Mario Giacomelli

As beatas estão para Deus como certos gramáticos estão para a Língua: leia-se a escrita destes, escutem-se as rezas daquelas.

9.9.08

das colinas de S. Stefano


Cesare Pavese faria hoje cem anos. Sou pouco dado a efemérides e menos ainda a lembrar-me das suas datas, e esta descobria-a no Henrique Fialho. Encontrei-me com Pavese na juventude adolescente e o ambiente da sua ficção marcou-me para sempre, como que de forma congénita porque eu já existia nele. O mais que pude fazer para lhe agradecer foi ter estudado italiano, lido tudo o que há para ler dele e escrito um poema longo, com o seu nome por título, que começa assim:


Quando eu me alimentava da luz
que o fluir melancólico das palavras
trazia das colinas de S. Stefano

e me abria esse mundo ao meu
que em mim guardava, lendo-nos aí,
nas águas do meu rio que gerara

quadros do Piemonte na outra banda
(…)

A pantera de Dante é outra

Pode dar-se por feliz aquele que descubra movimentos de gata na sua amada. Isto a propósito do que se lê neste barco cheio de flores. Acima, jóia assinada por Jean Cocteau, roubada de uma arca.


 
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