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6.1.15

O 'Tempus Fugit'

 
O meu primeiro carro. Um Fiat 850 Special T. Baptizo-o neste instante de "Tempus Fugit". Corria como correm agora os anos, com os seus 47 CV. Foi em 1969 que o comprei. Fiz-lhe uma rodagem supimpa. Subi e desci o Marão sempre em segunda, e outras desabilidades do género. Portou-se sempre como um valente. Troquei-o depois de percorrer 120.000 Km em todo o género de estradas e caminhos. As coisas duravam. Lembrei-me hoje dele e da minha juventude. A juventude é que não dura, e eu não sabia isso então. Parecia eterno, os olhos enchiam-se-me de sol, era o fototropismo juvenil de que não dava conta, só o vivia, e era tanto, e tudo, e não me vinham à cabeça como hoje as desrazões do Criador.

26.8.09

Arroz de Salpicão



Entraram no restaurante perdido na terreiro-pacense palavra interioridade, um restaurante pouco mais que tasca do campo, onde se almoça por seis euros e meio. Eu estava no fim do arroz de salpicão e, com receio da mais que certa falta de qualidade do vinho, bebia uma espécie de tinto de verano dos castelhanos, mais pobre, só vinho e gasosa frescos, sem gelo e sem rodelas de limão. Eram seis os que tinham entrado, três homens e três mulheres, forasteiros pelo aspecto, topam-se à légua, caídos como que de pára-quedas nestas brenhas.

Os dois homens mais velhos, a beirar os cinquenta, usavam barba. Um deles, à minha frente, de esguelha, na mesa da esquerda, trazia uma t-shirt, onde li Funerária de Mora, e reparei que os outros dois, mas não aquele, tinham a pele estiolada, como penso suceder não poucas vezes a quem lida com funerais e coisas do divino.

O mais novo, de uns vinte e vagos anos, era magro, tinha um bigode ralo e largo, fora de moda, cabelo curto, cara de grão-de-bico, isto é, sem queixo, notoriamente pálida. Pareceu-me o mais estiolado dos dois e o mais gato-pingado, sendo que o da t-shirt era normal, imaginei que fosse um verde, quando reparei nuns símbolos vagamente ambientalistas da camisola, sob as palavras Flumário de Mora, que julguei ter lido melhor, sem saber, como não sei, eu e ninguém, o que seria um flumário.

Chegava o pedido deles, comigo já no melão. O da cara de grão-de-bico e a hipotética esposa de altar, que estava a seu lado, iam comer febras, daquelas deslavadas, que só levam sal. Batatas fritas, arroz, salada. O do Flumário, mais a sua avantajada consorte, foi para o arroz de salpicão. O outro gato-pingado e a mulher em frente receberam o pedido de entrecosto, tão sem sabor quanto as febras do outro. Tamanha vulgaridade de escolha, as febras e o entrecosto, talvez fosse, pensei eu, uma coisa comum a gente que lida com essas coisas do espírito, mais as funéreas que as divinas.

Eu tinha pressa e queria confirmar a palavra na t-shirt. Por fim, depois de alguma ginástica, consegui ler, desiludido: Fluviário de Mora. A palavra fluviário não existe, pelo menos na minha cabeça e no dicionário da Priberam on-line, não estou em casa para ir a outro, mas não será preciso, parece-me um neologismo tolo, originado em aquário, a que, com bem maior impacto, podiam ter chamado Aquário Fluvial de Mora.

Enfim, os outros, por via da minha desilusão, já tinham deixado de ser gatos-pingados; o mais novo, o cara de grão-de-bico, andaria assim pálido porque a sua legítima lhe seria sumamente apetitosa e não se davam repouso; o outro, porque talvez fosse um terceiro escriturário das Finanças e não apanhasse luz do sol. Quanto ao verde, deixara de ser verde para ser não sei se um votante cor-de-rosa, se cor-de-laranja (confundem-se), com a louvável e proveitosa inclinação para escolher cozinha regional, o arroz de salpicão, que estava bem bom.

22.12.08

Historieta para Uma Pessoa que não Gosta de Perdizes


Cópia da aguarela de Audubon O Falcão a Atacar Perdizes, 1827

Era uma vez uma avestruz e uma perdiz. Um dia em que chovia se Deus a dava, o mesmo é dizer que chovia a potes, um dia ambas resolveram ir até Mondim, a perdiz montada na avestruz. A avestruz parecia mais um cavalo de duas patas a correr pela serra abaixo, com a perdigota em cima. Galoparam, galoparam, até que chegaram ao destino, e aí não chovia, estava um sol de Agosto, e viram uma dama magrinha à janela a chorar tanto como chovia na terra de ambas.

A avestruz parou, compadecida, e perguntou à dama magrinha e desgostosa:

― Porque choras tanto?
― Oh, não digo, a ti não digo! ― exclamou entre soluços.
― Mas diz, talvez eu possa dar remédio a tamanha tristeza.

Porém, a dama magrinha calava-se e chorava como chovia na terra das outras duas. E assim estiveram vai, não vai, diz, não digo, até que o senhor abade passou ali e parou diante da cena de uma tristeza bucólica mais própria de éclogas que de prosa.

― Porque choras? ― perguntou o padre. ― E que está aqui a fazer uma perdiz a cavalo numa avestruz? Fugiram de algum circo?

A dama magrinha nem teve tempo de responder. A perdiz, ao ouvir tamanho insulto (e muito maior será se pensarmos que é uma ave livre), a perdiz lançou-se como um toiro contra o cura, que tentou enfrentá-la e depois não teve outro remédio senão fugir aos gritos:

―Vade retro, Satanás! Vade retro! Excomungo-te para sempre!

O certo é que a dama magrinha deixara de chorar e ria tanto, tanto que os seus olhos pareciam duas estrelas de luz.

― De que te ris agora? ― perguntou a avestruz, apalermada. Não percebia nada, porque era grande como um cavalo e tinha o cérebro mais pequeno do que uma avelã, aliás como todas as avestruzes.

― Uma pessoa só se ri do mal, mas foi castigo de Deus ― disse a dama. ― Enquanto as confissões foram frequentes, a penitência era sempre a mesma: perdiz! O pecador devia trazer-lhe uma, duas ou três perdizes, consoante o peso da absolvição das suas culpas.

Moral da história, que são três, como as perdizes do confessionário:

Primeira: não há sol que sempre dure nem noite que nunca acabe.
Segunda: o mal que se faz paga-se e não se paga neste mundo.
Terceira e última: as aves não se medem aos palmos e a história passou-se no tempo em que a caça abundava e os homens pareciam um nada mais parvos.

© nd

23.8.08

Queda


Não somos deuses e, mesmo assim, abandonamos as mãos do outro, numa espécie suicídio, os pulsos golpeados por vidros da janela de onde olhávamos o mundo que nos salvava.

© nd

18.8.08


Buçaco, fotografia de João Almeida Santos.

A floresta varia com a cor do nosso olhar. As vezes pode ser uma espécie de paraíso lustral, de onde surge um rosto purificado de mulher, como me sucedeu um dia no Buçaco. Trazia os olhos claros, limpos de quanto era humano, salvo ela, a mulher, a única que podia ser humana, porque tinha roubado à floresta o que um dia pertencera aos deuses, o carácter breve e irreal de outro mundo, onde o tempo parecia ter deixado de se medir pelo pulsar do coração e das cidades.

© nd

28.7.08


Maya con Muñeca, Picasso, óleo sobre tela, 1938.

Às vezes, arranjamos um dia para nos sentarmos à mesa, sob a figueira. Repartimos como antigamente a carne, o vinho, o pão, a frescura sumarenta dos pêssegos, e fingimos viver sem cuidados. Ao longe, as cidades ardem, a multidão nas ruas, a morte nos guetos, os poderosos em seus prédios altíssimos, guardados por tanques e polícia. E, quando nos levantamos, vemos a mesma miúda a fitar-nos, fugida das cidades, os olhos opacos de futuro. Não têm uma boneca que possa chamar-se Matilde? — pergunta-nos sempre.

© nd

27.7.08


Imagem retirada daqui.

O homem, na esplanada, come amêijoas de uma travessa. Eu tinha andado na falésia à procura de vestígios árabes e encontrara um concheiro pré-histórico de cascas de amêijoas como aquelas, e agora o tempo tornou-se vibrátil, com seus cílios inteligentes, e dele emerge o desconforto de não ter pela frente senão o destino que vai do concheiro à esplanada. Como espécie, não valemos muito, dissera-me Judite. Falávamos de outra coisa, mas esse desencanto também serve aqui. Nunca fomos divinos, nunca incendiámos até ao céu a revolta do deus, para a darmos a nós mesmos. Vamos em um largo, escuro rio anónimo, que nasce na fonte de um acaso distante para desaguar em foz nenhuma, enquanto o homem, tranquilo como o Esteves da Tabacaria, vai picando as amêijoas e deitando as cascas no concheiro pré-histórico.


© nd

26.7.08

Pietà



Pietà, Paula Rego, óleo sobre tela, 2002.

O monge tinha fé e por isso imolou-se no fogo e, como ele, tantos ao longo da corrente do tempo, desde a eclosão das divindades. Dir-se-ia que vêm ao mundo só para morrer assim. No entanto, esse destino não existia, nada está decidido, o fim é, todo ele, uma síntese de cruzamentos e, em última análise, o fruto que a mãe, sem saber, pousa no reverso da alegria.

© nd

24.7.08


Biblioteca, Vieira da Silva, óleo sobre tela, 1949.

Adolescente ainda, as palavras eram sons que me levavam de fulgor em fulgor, de febre em febre: escrevia como olhava o mar, imaginando cidades na margem invisível do horizonte. Escrevia pela ânsia de viver, pela luz em que julgava ir tornar-me. Há muito que essa luz se apagou e que não escrevo assim. Nem já para fingir viver. Foi longo o caminho de aprendizagem, e trago comigo as personagens que ficaram em mim e que fui encontrando nestes livros todos. Vivemos juntos e sonhamos juntos enquanto durmo. Sem elas eu não existia. O que escrevo, em sua maior parte, não me pertence. Pertence-lhes. E hoje escrevo para resistir, para que nenhuma delas morra senão quando eu morrer.

© nd

23.7.08


Fresco de Pompeia, séc. I (d.C.), Museu Nacional de Arqueologia, Nápoles.

Se entrasses pela porta de um filme de Antonioni, todos olhariam o enigma do teu rosto. Não o saberiam ler, no entanto haviam de ansiar dissolver-se nele como se, de repente, fosse a vida que nunca tocaram, o espelho de um vislumbre perfeito. A mim, que te vejo tantas vezes, sucedeu um dia não me bastar essa imagem, ter de ir buscar outra muito mais distante, e hoje és também a mulher do fresco de Pompeia.

© nd


21.7.08


Criança numa cadeira com a mãe, pintura em vaso grego do séc. V a.C.

Vês gente tua na margem do que era real. São vultos desfocados como se a sombra fosse luz, e a luz, as cores de um filme vago, em que a música de fundo parecesse o apito ao longe de um comboio antigo. Deixa-te estar e olha. Mas não anseies mais do que existe nem te mova a melancolia. Afinal, nesta margem, também há crianças e jovens mães em intervalos alegres de viver.

© nd

13.11.07

Anotações #2

O divino é criado em virtude de algo que desconhecemos e receamos. Para T. seria muito confuso imaginar o Big Bang e a longa arrumação do Caos como a nossa origem. Julgo, pensou, que T. ficaria bastante em baixo se eu o convencesse de que éramos todos filhos do acaso, desde os humanóides que os antropologistas dão como nossos antepassados, não sei se para sossego de todos, se pela visão mais imediata da ciência. Na verdade, a origem remete-nos para a primeira célula que ninguém sabe como surgiu, embora não seja desagradável pensar que o meu antepassado foi o Sol, a sua acção. Isso causa-me mesmo conforto, concluiu. Eu vim da luz, sou luz e amo a luz do Sol como coisa física. T. também ficará contente com uma luminosa manhã de Junho, mas não deduz dela o seu princípio. Ficaria horrorizado. E, no entanto, pensou, estamos muitíssimo mais perto dessa luz que nos explica do que da visão teológica de T.

© nd

8.11.07

Anotações #1

Talvez o segredo seja a inanição total, despedido de afectos e de preocupações, pensou. Os dias tornam-se tão repetidos que sair dessa inanição é não sair dela, e assim o segredo deixa de o ser e passa a estado imanente. Parece haver uma altura na vida em que se perde o direito a si próprio. Talvez esta usurpação tenha a ver com a morte, concluiu, talvez a inanição esteja muito próxima da morte.

Sei de alguém que atropelou um arrumador de carros para sair do mundo, continuou. Queria ser preso e foi dado como inimputável. Pouco depois suicidar-se-ia.

O cárcere e a inanição são em tudo semelhantes a um suicídio frustrado, por o desespero não ter sido suficientemente fundo. Esse grau de insuficiência, que impede o suicídio de facto, está ligado, como o medo, a alguma esperança remanescente. O que atropelara o arrumador não só vencera o medo, como não devia ter esperança nenhuma.

© nd
 
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