6.1.15
O 'Tempus Fugit'
26.8.09
Arroz de Salpicão

Os dois homens mais velhos, a beirar os cinquenta, usavam barba. Um deles, à minha frente, de esguelha, na mesa da esquerda, trazia uma t-shirt, onde li Funerária de Mora, e reparei que os outros dois, mas não aquele, tinham a pele estiolada, como penso suceder não poucas vezes a quem lida com funerais e coisas do divino.
O mais novo, de uns vinte e vagos anos, era magro, tinha um bigode ralo e largo, fora de moda, cabelo curto, cara de grão-de-bico, isto é, sem queixo, notoriamente pálida. Pareceu-me o mais estiolado dos dois e o mais gato-pingado, sendo que o da t-shirt era normal, imaginei que fosse um verde, quando reparei nuns símbolos vagamente ambientalistas da camisola, sob as palavras Flumário de Mora, que julguei ter lido melhor, sem saber, como não sei, eu e ninguém, o que seria um flumário.
Chegava o pedido deles, comigo já no melão. O da cara de grão-de-bico e a hipotética esposa de altar, que estava a seu lado, iam comer febras, daquelas deslavadas, que só levam sal. Batatas fritas, arroz, salada. O do Flumário, mais a sua avantajada consorte, foi para o arroz de salpicão. O outro gato-pingado e a mulher em frente receberam o pedido de entrecosto, tão sem sabor quanto as febras do outro. Tamanha vulgaridade de escolha, as febras e o entrecosto, talvez fosse, pensei eu, uma coisa comum a gente que lida com essas coisas do espírito, mais as funéreas que as divinas.
Eu tinha pressa e queria confirmar a palavra na t-shirt. Por fim, depois de alguma ginástica, consegui ler, desiludido: Fluviário de Mora. A palavra fluviário não existe, pelo menos na minha cabeça e no dicionário da Priberam on-line, não estou em casa para ir a outro, mas não será preciso, parece-me um neologismo tolo, originado em aquário, a que, com bem maior impacto, podiam ter chamado Aquário Fluvial de Mora.
Enfim, os outros, por via da minha desilusão, já tinham deixado de ser gatos-pingados; o mais novo, o cara de grão-de-bico, andaria assim pálido porque a sua legítima lhe seria sumamente apetitosa e não se davam repouso; o outro, porque talvez fosse um terceiro escriturário das Finanças e não apanhasse luz do sol. Quanto ao verde, deixara de ser verde para ser não sei se um votante cor-de-rosa, se cor-de-laranja (confundem-se), com a louvável e proveitosa inclinação para escolher cozinha regional, o arroz de salpicão, que estava bem bom.
22.12.08
Historieta para Uma Pessoa que não Gosta de Perdizes
Cópia da aguarela de Audubon O Falcão a Atacar Perdizes, 1827Era uma vez uma avestruz e uma perdiz. Um dia em que chovia se Deus a dava, o mesmo é dizer que chovia a potes, um dia ambas resolveram ir até Mondim, a perdiz montada na avestruz. A avestruz parecia mais um cavalo de duas patas a correr pela serra abaixo, com a perdigota em cima. Galoparam, galoparam, até que chegaram ao destino, e aí não chovia, estava um sol de Agosto, e viram uma dama magrinha à janela a chorar tanto como chovia na terra de ambas.
A avestruz parou, compadecida, e perguntou à dama magrinha e desgostosa:
― Porque choras tanto?
― Oh, não digo, a ti não digo! ― exclamou entre soluços.
― Mas diz, talvez eu possa dar remédio a tamanha tristeza.
Porém, a dama magrinha calava-se e chorava como chovia na terra das outras duas. E assim estiveram vai, não vai, diz, não digo, até que o senhor abade passou ali e parou diante da cena de uma tristeza bucólica mais própria de éclogas que de prosa.
― Porque choras? ― perguntou o padre. ― E que está aqui a fazer uma perdiz a cavalo numa avestruz? Fugiram de algum circo?
A dama magrinha nem teve tempo de responder. A perdiz, ao ouvir tamanho insulto (e muito maior será se pensarmos que é uma ave livre), a perdiz lançou-se como um toiro contra o cura, que tentou enfrentá-la e depois não teve outro remédio senão fugir aos gritos:
―Vade retro, Satanás! Vade retro! Excomungo-te para sempre!
O certo é que a dama magrinha deixara de chorar e ria tanto, tanto que os seus olhos pareciam duas estrelas de luz.
― De que te ris agora? ― perguntou a avestruz, apalermada. Não percebia nada, porque era grande como um cavalo e tinha o cérebro mais pequeno do que uma avelã, aliás como todas as avestruzes.
― Uma pessoa só se ri do mal, mas foi castigo de Deus ― disse a dama. ― Enquanto as confissões foram frequentes, a penitência era sempre a mesma: perdiz! O pecador devia trazer-lhe uma, duas ou três perdizes, consoante o peso da absolvição das suas culpas.
Moral da história, que são três, como as perdizes do confessionário:
Primeira: não há sol que sempre dure nem noite que nunca acabe.
Segunda: o mal que se faz paga-se e não se paga neste mundo.
Terceira e última: as aves não se medem aos palmos e a história passou-se no tempo em que a caça abundava e os homens pareciam um nada mais parvos.
23.8.08
Queda
Não somos deuses e, mesmo assim, abandonamos as mãos do outro, numa espécie suicídio, os pulsos golpeados por vidros da janela de onde olhávamos o mundo que nos salvava.
© nd
18.8.08
© nd
28.7.08
Às vezes, arranjamos um dia para nos sentarmos à mesa, sob a figueira. Repartimos como antigamente a carne, o vinho, o pão, a frescura sumarenta dos pêssegos, e fingimos viver sem cuidados. Ao longe, as cidades ardem, a multidão nas ruas, a morte nos guetos, os poderosos em seus prédios altíssimos, guardados por tanques e polícia. E, quando nos levantamos, vemos a mesma miúda a fitar-nos, fugida das cidades, os olhos opacos de futuro. Não têm uma boneca que possa chamar-se Matilde? — pergunta-nos sempre.
© nd
27.7.08
© nd
26.7.08
Pietà

O monge tinha fé e por isso imolou-se no fogo e, como ele, tantos ao longo da corrente do tempo, desde a eclosão das divindades. Dir-se-ia que vêm ao mundo só para morrer assim. No entanto, esse destino não existia, nada está decidido, o fim é, todo ele, uma síntese de cruzamentos e, em última análise, o fruto que a mãe, sem saber, pousa no reverso da alegria.
© nd
24.7.08
Adolescente ainda, as palavras eram sons que me levavam de fulgor em fulgor, de febre em febre: escrevia como olhava o mar, imaginando cidades na margem invisível do horizonte. Escrevia pela ânsia de viver, pela luz em que julgava ir tornar-me. Há muito que essa luz se apagou e que não escrevo assim. Nem já para fingir viver. Foi longo o caminho de aprendizagem, e trago comigo as personagens que ficaram em mim e que fui encontrando nestes livros todos. Vivemos juntos e sonhamos juntos enquanto durmo. Sem elas eu não existia. O que escrevo, em sua maior parte, não me pertence. Pertence-lhes. E hoje escrevo para resistir, para que nenhuma delas morra senão quando eu morrer.
© nd
23.7.08
Fresco de Pompeia, séc. I (d.C.), Museu Nacional de Arqueologia, Nápoles.
Se entrasses pela porta de um filme de Antonioni, todos olhariam o enigma do teu rosto. Não o saberiam ler, no entanto haviam de ansiar dissolver-se nele como se, de repente, fosse a vida que nunca tocaram, o espelho de um vislumbre perfeito. A mim, que te vejo tantas vezes, sucedeu um dia não me bastar essa imagem, ter de ir buscar outra muito mais distante, e hoje és também a mulher do fresco de Pompeia.
© nd
21.7.08
Criança numa cadeira com a mãe, pintura em vaso grego do séc. V a.C.
13.11.07
Anotações #2
© nd
8.11.07
Anotações #1
Sei de alguém que atropelou um arrumador de carros para sair do mundo, continuou. Queria ser preso e foi dado como inimputável. Pouco depois suicidar-se-ia.
O cárcere e a inanição são em tudo semelhantes a um suicídio frustrado, por o desespero não ter sido suficientemente fundo. Esse grau de insuficiência, que impede o suicídio de facto, está ligado, como o medo, a alguma esperança remanescente. O que atropelara o arrumador não só vencera o medo, como não devia ter esperança nenhuma.
© nd

