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29.1.11

Afonso Duarte



CAMPO
A Alberto Martins de Carvalho

Este verde impossível de se ver,
Que alegre o camponês cultiva o prazo,
Não dá sequer para me aborrecer
Na extensão sem fim do campo raso.

Sem fim, a vida, deixa se correr
Lisa e fatal, serena, sem acaso.
E acontece o que tem de acontecer
Como quem já da vida não faz caso.

Nada se passa aqui de extraordinário:
Tudo assim, como peixe no aquário,
Sem relevo, sem isto, sem aquilo;

Muito bucólico a favor da besta,
O campo, sim, é esta coisa fresca...
Coaxar de rãs, a música do estilo.



Afonso Duarte, in Obras Completas, 1 - Obra Poética, Plátano Editora, 1974, p. 147.
Imagem: Ereira, Montemor-o-Velho, terra natal do poeta. Fotografia de autor desconhecido.

25.1.11

Uma jóia da poesia




Muy graciosa es la doncella,
¡como es bella y hermosa!

Digas tú, el marinero
que en las naves vivías
si la nave o la vela o la estrella
es tan bella.

Digas tú, el caballero
que las armas vestías,
si el caballo o las armas o la guerra
es tan bella.

Digas tú, el pastorcico
que el ganadico guardas,
si el ganado o los valles o la sierra
es tan bella.


Gil Vicente, in Las Cien Mejores Poesías de la Lengua Castellana, antologia de Luis Alberto de Cuenca, Espasa Galpe, 1998, 3.ª edição, p. 68-69.
Imagem: Donzela Nua em frente do Espelho, Giovanni Bellini, óleo sobre painel de madeira, 1515.

15.4.10

Poemas na memória #2


Stephanie Kornfeld, Lua Cheia, latex e acrílico sobre tela, 2009.

DUNAS

Que vemos aqui, entre as dunas de areia batidas
     de luar, sozinhos com os nossos pensamentos, Bill,
sozinhos com os nossos sonhos, Bill, tão leves como
     os véus que adejam sobre a cabeça das mulheres
     que dançam,
sozinhos com urna imagem, uma imagem a seguir
     a outra, de todos os mortos,
os mortos mais numerosos que os grãos de areia
     amontoados um a um aqui, sob o luar,
amontoados no horizonte e com a forma que as mãos
     do vento lhes querem dar,
que vemos aqui, Bill, além daquilo que desespera
     os sábios,
além daquilo que faz chorar os poetas, que faz com
     que os soldados se lancem para a frente e percam
     a vida à luz do sol: que será, Bill?

Carl Sandburg (EUA, 1878-1967), Antologia Poética, selecção e tradução de Alexandre O'Neill, Edições Tempo, Lisboa,1962.

Original aqui.

14.4.10

Poemas na memória #1



O guincho do ganso selvagem
Incapaz de resistir
À tentação do meu isco.

Enquanto eu, na confusão do amor,
Incapaz de o apanhar,
Fico a ver a ave levar as redes com ela.

E quando a minha mãe voltar carregada de aves,
e me vir de mãos vazias,
que lhe vou dizer?

Que não apanhei ave alguma?
Que fui eu a ficar apanhada nas tuas redes?

In Poemas de Amor do Antigo Egipto, tradução do Inglês de Hélder Moura Pereira, Assírio & Alvim, 1998.

Nota: este poema, como os restantes do livro, terá entre 3.085 e 3.567 anos.
 
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