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9.10.14

O último poema de uma suicida



BARBITÚRICOS

O dia chega ao fim quando o sol se põe
para aqueles que apenas
vêem com claridade.

A alegria da noite é falsa
ou, se quiserem,
efémera, e o silêncio alastra
com desespero igual.

Nos dois lados da Terra,
em cada minuto
há corpos que se anulam.

A morte sem ruído é a mais digna,
ninguém dá pelo gesto
e suja menos.


© Nuno Dempster
 

16.9.14

Como se escreve um poema excelente? Assim:


 A lucidez de Sancho Pança

Ainda hoje, ao encontrar um inimigo
de outrora, abominável assassino,
cumprimentei-o alegremente:
Olá, moinho de vento! Reconheço
agora a tua verdadeira natureza
e não te enfrento porque já não carrego
as armas e as loucuras de um velho.
Funciona sempre, amigo, sê
o que verdadeiramente és: moinho
do amanhã, o que transforma a água
em fogo, o que torna leves e aprazíveis
estes nossos ares pestilentos.


                      Daniel Francoy

29.7.14

Romance ou Falência, de Luís Pedroso



 

 Parece-me cada vez mais comum a poetas surgidos a partir do início do século XXI, ou um pouco antes, quererem-se testemunho deste tempo subvertido. Por isso, o que se põe de fundamental para individualizar uma voz é a ética que a informa, a experiência que se originou como matéria de poesia e a estética que suporta e realça a ética, já muito longe do conceito hegliano. De um modo prático, trata-se de distinguir o que se quer canónico do que nos agarra por todos os lados do poema, a convicção, necessariamente oriunda da experiência moral do poeta, os aspectos formais do poema e a capacidade inusitada da linguagem que nos surpreende e é substância sinérgica da revelação ética e da liberdade criativa.

Luís Pedroso (n. 1977) está neste caso pouco vulgar, com o livro de poemas Romance Ou Falência, saído este mês com a chancela da Edições Artefacto.

Depois de lido, abro o livro à sorte e parece ter sido de propósito calhar-me logo um pequeno poema revelador. Serve-me de exemplo precioso do carácter não canónico da poesia do autor. Não é de copos que fala, de decadentes balcões por onde se arrasta a vida desgraçada do fado lusitano. Distancia-se e faz-me recordar Omar Khayyām e os seus rubaiyat sobre vinho.

O GRATO BEBEDOR

Bebo este vinho porque o desconheço
Traz-me paz seu silvo de sangue escuro
Salino e vivo  e doce e quente e espesso
Vai para ele o meu voto moribundo

Pode parecer evidente o desencanto do último verso, embora os três versos anteriores levem, a meu ver, a uma interpretação menos linear (no sentido de fora do hábito de leitura, em que ao virar de cada página de certa poesia se encontra a metáfora, perfilada), com a definição do vinho próxima das palavras de um provador, que o poeta soube com leveza e segurança de ritmo levá-la para o campo poético “Traz-me paz seu silvo de sangue escuro / Salino e vivo e doce e quente e espesso”. O último verso “Vai para ele o meu voto moribundo”encerra, quanto a mim, uma declaração quase à letra do seu voto, um voto de vencido numa sessão de prova de vinhos, pois diz: “Traz-me paz seu silvo(…)”. Que silvo é este? Para mim é o silvo que os lábios fazem quando se aspira o ar com que se busca avivar os aromas retronasais na prova de boca de um vinho, desculpem-me os pormenores especializados que podem parecer uma bizarria interpretativa, no entanto calhou o acaso ter-me permitido aprendê-los e cultivá-los. Porque ― e é isto que interessa, bem mais do que qualquer interpretação ― quem louva assim o vinho não se sente nas vascas da agonia, nem perfilha nenhuma obediência canónica aos ditames epocais da infelicidade individual, em que as dores e falhanços do narrador poeta e o próprio poeta é que importam (a velha questão da aura de Baudelaire, cuja queda em poesia de hoje chegou a ser muito aplaudida e favoravelmente comentada, quando o que se pretendia era reavê-la e mantê-la, sim, mas numa suposta invisibilidade). Daí que nos deparemos com uma poesia muito viva em que as imagens descritivas da realidade se constituem com frequência em chaves claras da semântica da linguagem, e muito raramente – uma vez só, e se eu não tiver treslido – numa imagem metafórica próxima do surrealismo, e no entanto com um timbre novo e claro no que nos faz sentir, mas não compreender cabalmente: “ ‘Fim / do Mundo’ ― / expressão que há muito / perdeu o perfume ameaçador // O fim do mundo é um planalto / de onde se pesca à linha”. No entanto, pergunto-me agora, se os versos sublinhados não terão a ver com um putativo aspecto lúdico, no qual o poeta recolhesse o seu próprio gozo de criar. Não escreveu é um planalto onde se pesca à linha, porque o fim do mundo poderia ser também isso, escreveu O fim do mundo é um planalto / de onde se pesca à linha”. Ora é impossível pescar do cimo de um planalto, rios e ribeiros, lagos e lagoas pertencem ao dito planalto e não há planalto que acabe no mar, ainda por cima verticalmente, o que admitiria a locução de onde e se estivesse a pescar à linha a x centenas de metros de altitude. No entanto, essa impossibilidade também pode de facto significar o fim do mundo, por ser precisamente uma impossibilidade definitiva e mesmo trágica. Em face destas minhas variações de interpretação, que escrevo ao correr do teclado, Romance ou Falência é um livro cujos poemas é preciso reler, uma tarefa que iguala em prazer o da primeira leitura.

Uma das características da poesia de Luís Pedroso neste livro – o único que conheço - é expressar sem peso morto e maçante o que pode ser pesado, sem alienar as circunstâncias do nosso tempo, é o que a maioria dos poemas da segunda e última parte do livro nos dá. “Do meu país sobra uma carcaça linda, / e não é certo que tenha passado por mesa de autópsia / ou pelos dedos delicados do taxidermista, / ossos chupados fora e dentro, / já que até as larvas são ricas em proteína // Ouve-se um ruído rouco de ignição, / ardem as últimas beatas da ruína / e a estação da cereja chega de novo ao fim // Algo está em marcha, mas ninguém sabe, / ó Plutarco, da maligna alma do mundo, / se é novo credo ou ameaça, // (…).

Ainda transcrevo um poema, haveria bem mais para o substituir, mas faço-o pelo gosto da ironia do título em castelhano, com que o poeta se brinda e sublinha o seu estado na altura:

“NO PASA NADA

Não se passa nada,
como se cinco minutos depois do pequeno-almoço
tivesse entrado humidade para a clepsidra
e eu saísse apavorado de uma biblioteca,
alegando silêncio em excesso

Desperdiço as minhas tardes na hemeroteca,
no arquivo de fotografia, à procura das minhas 
                                                     [ruas,
dos becos e baldios abandonados,
pedregulhos sobre os auxiliares de memória,
e agora estar vivo é um estrangeirismo

Não se passa nada,
e o poema é um fragmento, um avolumar de 
                                              [palavras
Penso na dignidade de não ter nada
e saio à rua limpo, radiante de ignorância”


Da leitura fica o gosto de uma poesia que tem uma luz clara de novidade salvífica do muito que hoje se faz, o rigor de escrita, a postura ética e moral face ao nosso tempo, a independência que não estamos habituados a encontrar. Talvez tenha sido por esta última que só há pouco tenha descoberto Luís Pedroso e o seu Romance ou Falência. Uma virtude com os custos e alegrias de quem não quer "cunhar moeda".

22.5.13

Tinta fresca


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Eis o país
de há dois mil e duzentos anos
que não sei se agoniza,

os pequenos países hoje são
paisagens na Web
isentas de sinais,

mas sinto a predação,
ameaça tocada pelo vento sul
que traz a chuva e as más novas
e alaga o susto,
muito depois de Galba ter passado
na serra ali defronte.

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Um livro de um só poema. Chegou-me hoje do editor.  O Google não o encontra, o que quer dizer que não está ainda em distribuição.

11.9.12

Prevalência














H.G. Cancela  (romancista) e Amadeu Baptista (poeta) escolheram o mesmo poema para darem conta da publicação de Elegias de Cronos. Seria também um dos poemas que eu escolheria se o livro fosse de outro. Assim fica dito de forma encapotadamente barroca o que eu não queria dizer por excesso de pruridos. O meu agradecimento público a ambos.

8.9.12

Se ao menos a poesia















Agradeço a Carlos Alberto Machado a leitura crítica atenta de Elegias de Cronos, que publicou no seu Transe Atlântico. Ler aqui.

17.8.12

Para ler, analisar, descobrir porque é que alguns poemas são de repente muito bons



Império

Onde ele dizia descoberta, ela ouvia jugo. Onde
ele dizia civilização, ela ouvia barbárie.
Pilhagem, extorsão, estupro,
escravatura.
Terra queimada, a princípio,
lavrada, depois, com os ossos dos mortos.
Elas, mais dóceis, vomitavam do ventre
a fé e o medo, misturados no sangue
dos filhos mestiços.
Eles, mais rudes, sabiam que contrapor a força à força
talvez permitisse uma imitação da revolta.
Mas as coisas nunca coincidem com as palavras,
e raramente o punhal com a carne.

M. de Campos

5.6.12

Primeira Viagem, de Fernando Machado Silva

























À data que escrevo esta nota de leitura, chegou-me pelo correio Estórias Açorianas, de Carlos Alberto Machado, além do mais também editor da Companhiadas das Ilhas, as estórias editadas com mais cinco títulos, tudo de uma só vez. Entre esses títulos está Passageiros Clandestinos, poemas de Fernando Machado Silva (Lisboa, 1979). Porque digo isto? Porque do autor li apenas Primeira Viagem, o seu livro de estreia, publicado em 2010 pela Orfeu, Livraria Portuguesa e Galega, de Bruxelas, e a viva impressão que remanesce dessa leitura aguçou-me a vontade para Passageiros Clandestinos.

Primeira Viagem está dividido em cinco partes, talvez pudessem ter sido quatro ou mesmo três partes, mas isso não importa, quer pela poesia que encerram, quer por se tratar de um livro de estreia.

Trata-se de uma poesia marcada pela ironia, que por vezes roça o humor  “Eu tenho um problema / sou ligeiramente normal / vendo o mundo  ligeiramente nos eixos / nem bem nem mal / fora alguma miopia / gaguez e choros ocasionais”, pela observação do outro e de si mesmo e também por um desencanto às vezes irónico: “enforcava os meus dias entrançando os cabelos / que foste largando nas camisolas / que vestias casacos cachecóis", outras vezes sentido e comovente: “e se eu estiver a mais / na tua vida já tão cheia / de todas as memórias que me tens / contado e se eu estiver / a menos no teu coração já / tantas vezes magoado / por outros que ainda te habitam”. No entanto, a maior parte dos casos em que o desencanto surge, vem escrito de uma forma tão isenta de excessos e de pena de si mesmo, tão alheio à decadência como pose que nem parece ser desencanto:

e assim faço promessas
nas longas noites insones.
o que farei e o que não
farei. explico-te a moral
desta minha realidade distorcida
porque é a única que conheço.
dia após dia sei
que me distancio de ti
sou eu e isso fica
por aí tal como
as minhas palavras
sem nunca te tocar
nem tu querendo ser tocada
ou movida ou procurares
sequer encontrarmo-nos
a meio caminho
um do outro
e mesmo propondo outros modos
nada te demove do teu
pessoal castelo de gelo
tirando as vezes que te  lembras
do corpo finalmente adormecido
ocupando-te a parte mais querida
da cama.”

Os dois grandes temas do livro são as hipotéticas relações amorosas do poeta e a vida à volta delas, e a relação do poeta com o que o rodeia e consigo mesmo, escritas com visível à-vontade e, pelos menos na aparência, com rapidez, por vezes em poemas que ultrapassam uma página e mais, lidos sem cansaço. Vai-se por ali abaixo, na dança dos versos, como me disse alguém quando me revelou a dança que os poemas parecem ter e, na verdade, têm.

Trata-se de uma linguagem poética sem subterfúgios, clara e directa, mas que gera volume de significação para lá do que é escrito, os poemas são como histórias e relatos, e essas histórias e relatos encerram a visão poética  e esta alarga a semântica do discurso. Uma mecânica simples e eficaz, com um tratamento tão distante, quer da monocromia chata que, não poucas vezes, se nos depara, digamos assim, como poesia do real, quer, no outro extremo, igualmente longe das sibilas que, por causa dos vapores de enxofre, não se percebe o que dizem e talvez não digam mais do que os vapores aleatoriamente entregam à adivinha conveniente dos basbaques.

O livro precisaria de acertos aqui e além, a poesia não dá para pagar a revisores de texto, mas os amigos existem também para os substituir e, eventualmente, para fazer o que os revisores não fazem, sugerir alterações ao nível da eufonia e do emprego do léxico. Se julgo isto indispensável, é certo que em Primeira Viagem não afecta a qualidade intrínseca da poesia. Pudessem ler-se aqui os poemas que indico a seguir, melhor se perceberia o que afirmo: OUTRA APRESENTAÇÃO, ALGUMA COISA HÁ-DE FICAR, RESPOSTA ATRASADA A WALT WHITMAN, RESPOSTA A MEU MESTRE HAGAKURE, SE NOS GOSTAMOS PORQUE DISCUTIMOS, QUANDO FOGES E FICO, DELICADOS DEMASIADO, DO SOLITÁRIO ARANHIÇO (…), ALÇUDE, POEMA DO CORNUDO, UMA CONFISSÃO, A DOR É UMA PROPRIEDADE PRIVADA, ÉVORA -  SETE-RIOS, CASA DO ALENTEJO, ENCONTRO DESTE LADO DO CINZEIRO NO GANDAIA, AVENIDA DOS SALESIANOS 1, SEGUNDA GUERRA DO GOLFO NO BAIRRO DAS PITES, ESTUDOS E EXAMES, ODE A UM GATO MORTO, UMA PRIMEIRA VIAGEM, UM PAI, PEQUENA ELEGIA DE UM ANO QUE PASSOU, UM REGRESSO INESPERADO, A MANHÃ DE TODAS AS NOITES. Exactamente 50% do livro em títulos (em texto a percentagem subiria) com uma cruz a lápis que pus para assinalar os poemas que especialmente me agradavam, à medida que ia avançando na leitura do livro. Como não está nas livrarias, pode encontrá-lo aqui.
 
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